Domingo, 29 de novembro de 2009.
PREFEITURA - O prefeito Fetter Jr. (PP) tem investido forte em recuperação de prédios históricos e logradouros, em saneamento, em asfalto, obras de "visibilidade". Porém, não tem mostrado a mesma disposição para investir em políticas estruturantes, como Educação. Nem tem conseguido promover o desenvolvimento econômico e a dinamização da economia local.
ÔNIBUS - Trabalhadores adiam decisão sobre greve
NATAL - Manoel Magalhães revive a infância e a atmosfera desta data
DENÚNCIA - Leitor anônimo manda fotos e relato de um desmando
JUSTIÇA - Um é condenado pela morte de Gilberto Bonow

domingo, 29 de novembro de 2009

Pelotas pouco mudou com Fetter

O que mudou de concreto na vida do pelotense desde que Fetter Jr. assumiu a prefeitura? Quem vive fora de Pelotas e a revisita menciona o asfalto - o "visível". De fato, a gestão atual tem investido forte em asfaltamento, saneamento e na reforma de logradouros e prédios históricos. São pontos indiscutíveis, embora alguns logradouros já sejam afetados pela depredação, como o Parque Dom Antônio Zattera, ao ponto de o vereador Eduardo Leite (PSDB) ter pedido nesta semana informações do Executivo sobre a vigilância (ou falta dela) no local.

Fetter se tem notabilizado por ser um "tocador de obras", grande parte delas evidentes aos olhos do eleitor. Tem também se revelado bom articulador técnico de projetos para captação de recursos de organismos internacionais, como Banco Mundial, e do governo federal - basicamente Programa Monumenta (de recuperação de prédios históricos) e Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

O pelotense, porém, se pergunta: E o "restante"? O que vem sendo feito naquelas áreas que não tem a "visibilidade" de prédios históricos restaurados.

Se essas obras têm apelo eleitoral (embora desacompanhadas de uma efetiva política turística), o fato é que a atual gestão não tem investido em políticas estruturantes - aquelas capazes de contribuir para recolocar a cidade nos trilhos do crescimento sustentado - a médio e longo prazos. Em nome do imediatismo, Pelotas se ressente da falta dessas políticas. Não precisamos ir longe para verificar isso.

Até 25 anos atrás, por exemplo, a educação municipal era um exemplo de qualidade; hoje, vive uma decadência brutal, ao ponto de nossos estudantes da rede pública local aprenderem apenas 30% do que deveriam e apresentarem alto índice de reprovação. Há outros pontos igualmente essenciais que vêm sendo colocados em segundo plano ou simplesmente relegados em nome do imediatismo.

Outro ponto sem resultados importantes é a propalada retomada do desenvolvimento econômico e da dinamização da economia local.

Apesar da propaganda oficial, até este momento, quatro anos depois do prefeito ter assumido o posto, vamos devagar, quase parando nessa área. O cidadão se pergunta: o que a prefeitura está fazendo de efetivo para atrair novas empresas para a cidade? Quanto novos negócios internos e de fora foram abertos em Pelotas na atual gestão? Quantos empregos foram criados? Ah, sim, cadê o pólo tecnológico?

Na verdade, o desemprego continua o mesmo (ou pior) de quando Fetter assumiu, com repercussões na criminalidade crescente (que neste ano bate recorde de homicídios), assim como na disseminação dos crimes contra o patrimônio (assaltos) e no uso de drogas, sobretudo o crack, que avança a galope entre uma juventude sem esperança.

Uma prova da nossa dificuldade na área econômica foi o recente aumento, goela abaixo e de repente, do IPTU em 16%. O aumento deste tributo, após sete anos congelado, foi usado para tentar equilibrar o caixa da prefeitura, que fechará 2009 com déficit estimado de R$ 8 milhões.

Uma prefeitura que se utiliza "às pressas" do aumento de impostos aos cidadãos para tapar buracos de caixa deixa claro que trabalha no limite da ousadia financeira, inclusive pela contração de dívidas, já que esses empréstimos do Banco Mundial e do governo Federal exigem contrapartida do Executivo local.

Outra prova da nossa penúria econômica é a manchete do Diário Popular deste domingo, anunciando que a liberação da primeira cota do 13º salário na iniciativa privada (estimada em R$ 47 milhões) "promete movimentar a economia local". A própria escolha da manchete dá a medida do desespero da cidade por dinheiro - dinheiro que, diga-se, além de sazonal, não movimentará a economia como se espera, já que grande parte daquela quantia será usada para quitar dívidas.

Vale lembrar que o prefeito não tem conseguido sequer realizar a reforma administrativa da prefeitura, que prevê a extinção de secretarias e, talvez, de cargos e salários. A demora de Fetter em relação ao tema não deixa de ser outro sintoma da crise econômica, já que sugere que está encontrando dificuldades para demitir gente (cargos de confiança) e reduzir salários.

Contudo, se a reforma ajudaria a prefeitura a economizar dinheiro para investir na cidade, por que ele não a realiza com a mesma pressa com que aumentou o IPTU?

Puro prazer



Clipe enviado por Gilberto e Cláudia Moura.

sábado, 28 de novembro de 2009

Será que genro é parente?

Marcelo Sato, casado com a filha mais velha de Lula, aparece em investigação da Polícia Federal conversando com empresário acusado de formação de quadrilha, estelionato e corrupção

Deu na Veja
Não são raros os casos de chefes de estado que, vez por outra, se encontram na constrangedora situação de administrar fanfarronadas de parentes, amigos ou pessoas próximas. O presidente Lula não escapa dessa maldição. Ele já passou por essa situação algumas vezes, uma delas quando seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, foi pilhado pedindo dinheiro ("dois pau") a um empresário do ramo de jogos.

Agora, um genro do presidente aparece como protagonista de atos ilegais em uma investigação da Polícia Federal. O genro é Marcelo Sato, casado com Lurian, filha mais velha de Lula. Sato foi flagrado pelos policiais negociando o recebimento de 10.000 reais de um empresário ligado a uma quadrilha investigada por lavagem de dinheiro, operações cambiais clandestinas, ocultação de bens e tráfico de influência.

Equivaleria a um certificado de boa conduta se tudo o que esses parentes e meios-parentes de Lula tivessem obtido de benefícios próprios em sete anos de governo fossem os "dois pau" para Vavá e os 10.000 reais para Sato, que deveria repassá-los a Lurian, conforme as gravações da PF. Mas a questão não pode ser colocada em termos de valores absolutos.

É grave o caso de Marcelo Sato, oficialmente empregado como assessor parlamentar. O marido da filha do presidente prestava serviços a uma quadrilha, ora acompanhando processos em órgãos federais, ora usando sua condição de "genro" para agendar reuniões dos suspeitos com autoridades do governo.

É no terreno fértil das franjas do poder que florescem histórias desse tipo. VEJA teve acesso a relatórios policiais reservados da chamada Operação Influenza, que, durante dois anos, monitorou as atividades de uma quadrilha de empresários de Santa Catarina e de São Paulo apontados como responsáveis por desfalques milionários contra os cofres públicos.

O genro do presidente, segundo a PF, funcionava como lobista do grupo. Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça mostram que Marcelo Sato mantinha relações estreitas com o empresário João Quimio Nojiri, preso em junho de 2008. Nojiri era quem determinava quais missões o genro deveria cumprir dentro do governo.

No dia 21 de maio de 2008, a polícia gravou uma conversa entre o empresário e um amigo de Lurian, identificado apenas como Guilherme. Nojiri conta que recebeu uma mensagem da filha do presidente, que estaria passando por dificuldades financeiras. O empresário, então, mandou depositar 10.000 reais para Lurian na conta-corrente de Marcelo Sato. "Tem certeza que tem que ser na conta dele?", pergunta o amigo. Nojiri liga para sua secretária e manda fazer a transferência do dinheiro.

A ajuda, porém, foi dada de maneira bem peculiar. João Nojiri pediu à secretária que fizesse "dois depósitos de 5" – uma provável medida de precaução contra a vigilância das autoridades, já que os bancos são obrigados a informar e identificar toda movimentação igual ou superior a 10.000 reais. Dividindo o repasse em dois, são nulas as possibilidades de a transação despertar a atenção da entidade fiscalizadora. "Estou fazendo um negócio pra você, tá? Tô sabendo que você tá precisando", informou o empresário a Marcelo Sato.

Lurian negou ter pedido dinheiro ao empresário Nojiri. "Não conheço esse homem. Nunca ouvi falar dele e não sei de dinheiro nenhum", garantiu ela. Marcelo Sato contradisse a esposa e admitiu a proximidade do casal com o investigado Nojiri, com quem teria uma amizade de dez anos.

A versão dada por Marcelo Sato para justificar o repasse de 10.000 reais para sua conta exige que a tese da amizade longa e sólida seja verdadeira. O dinheiro seria fruto de um empréstimo pessoal feito por Nojiri e que já teria sido pago por Sato. João Nojiri, por sua vez, confirmou o vínculo com a família Sato, mas não se recorda nem da doação, nem do empréstimo, nem do pagamento do empréstimo. Disse Nojiri: "Não me lembro desses detalhes".

A relação entre empresário e assessor não era uma via de mão única. Se Nojiri prontamente atendia às carências do amigo, também recebia a contrapartida. Em inúmeras conversas registradas pela PF, Marcelo Sato agenda almoços, reuniões e audiências em Brasília com políticos graúdos. Ele conta com o apoio do deputado federal Décio Lima, do PT catarinense.

O parlamentar, compadre do casal Sato, é íntimo dos acusados, mas também não se lembra de muita coisa: "Não tenho nenhuma relação com esse pessoal". Décio Lima pode ter esquecido, mas é sabido que ele com frequência tinha à sua disposição um avião da quadrilha investigada pela Polícia Federal. Em 14 de fevereiro de 2008, Sato, Décio e Nojiri estavam em Brasília. Sato disse que levaria o empresário para uma conversa com o presidente Lula, no Palácio do Planalto, tão logo encerrasse a agenda oficial do dia. A Presidência da República informou que não há registro do encontro.

'Triste e abatido'

Deu no blog do Noblat
Em artigo publicado na Folha, um esquerdista histórico afirma que Lula tentou subjugar um rapaz quando estava na prisão. O presidente ficou perplexo

A um mês da estréia de Lula, o Filho do Brasil, surge um depoimento que contrasta fortemente com o filme de contornos hagiográficos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na sexta-feira passada, o jornal Folha de S.Paulo publicou um artigo que deixou de olhos arregalados todos os que o leram. Intitulado "Os filhos do Brasil", o texto é assinado por César Benjamin, um dos mais célebres militantes da esquerda brasileira.

Entrou para o movimento estudantil ainda adolescente. Por sua militância política, ficou preso por cinco anos e foi expulso do Brasil em 1976. Quando voltou, empenhou-se na fundação do PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006, foi candidato a vice-presidente pelo PSOL. Hoje, está sem partido.

Cesinha, como é conhecido, relata o que teria sido uma revelação devastadora feita por Lula a ele em 1994.

Na ocasião, o petista iniciava sua segunda campanha a presidente. Benjamin estava na equipe de marketing do candidato. Ele relata: "Lula puxou conversa: ‘Você esteve preso, não é, Cesinha?’ ‘Estive.’ ‘Quanto tempo?’ ‘Alguns anos...’, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: ‘Eu não aguentaria. Não vivo sem b...’.

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos trinta dias em que ficara detido. Chamava-o de ‘menino do MEP’, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do ‘menino’, que frustrara a investida com cotoveladas e socos".

Segundo Benjamin, o diálogo foi presenciado pelo publicitário Paulo de Tarso da Cunha Santos. O publicitário, cujos contratos com o governo federal montam a 300 milhões de reais, negou em nota lembrar-se do episódio.

Por liderar greves no ABC paulista, Lula passou 31 dias preso no Dops, em São Paulo, em 1980, com outros sindicalistas. VEJA ouviu cinco de seus ex-companheiros de cela. Nenhum deles forneceu qualquer elemento que confirme a história de Benjamin. Eles se recordam, porém, de que havia na mesma cela um militante do Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP).

"Tinha um rapaz com a gente que se dizia do MEP. Tinha uns 30 anos, era magro, moreno claro. Eu não o conhecia do movimento sindical", diz José Cicote, ex-deputado federal. "Quem estava lá e não era muito do nosso grupo era um tal João", lembra Djalma Bom, ex-vice-prefeito de São Bernardo do Campo. "Eu me lembro do João: além de sindicalista, ele era do MEP mesmo", conta Expedito Soares, ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

O João em questão é João Batista dos Santos, ex-metalúrgico que morou e militou em São Bernardo. Há cerca de três anos, ganhou uma indenização da Comissão de Anistia e foi viver em Caraguatatuba, no Litoral Norte de São Paulo. Por meio do amigo Manoel Anísio Gomes, João declarou a VEJA: "Isso tudo é um mar de lama. Não vou falar com a imprensa. Quem fez a acusação que a comprove".

O Palácio do Planalto reagiu com indignação, qualificando o relato de Benjamin de "loucura". O chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, disse que o artigo de César Benjamin era ato de um "psicopata". Carvalho afirmou também que Lula havia ficado "triste, abatido e sem entender" as razões que levaram o militante histórico a fazer um ataque tão destruidor contra sua honra.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Tribunal condena um pela morte de Gilberto Bonow

O Tribunal do Júri condenou Carlos Alexandre Lúcio Ferreira, 29 anos, a 15 anos de prisão, pela morte do empresário Gilberto Bonow. Outros três réus foram absolvidos por falta de provas. E outros dois aguardam julgamento.

O empresário, de 62 anos, foi espancado na saída de um jogo de futebol entre Pelotas e Brasil. A agressão ocorreu em outubro de 2003.

Ao todo, 20 homens espancaram Bonow e seu filho na esquina das ruas Argolo e Almirante Barroso porque os dois estariam vestindo camisetas do Esporte Clube Pelotas.

Além de espancados a socos e pontapés, os agressores golperam pai e filho na cabeça, com pedras e tijolos, e os arrastaram pela rua até perderem os sentidos.

Bom fim de semana

Voz do leitor: Via pública, estacionamento "privado"

Leitor anônimo informa: "Caro Rubens, encaminho (com fotos) desabafo e denúncia de um flagrante caso de apropriação de espaço público de estacionamento. Na rua Sete de Setembro, entre Gonçalves Chaves e Félix da Cunha, em pleno centro da cidade, há 15 dias um senhor utiliza para isso de cavaletes. Este recurso lhe garante vagas a dois veículos dele (um Corolla e uma caminhonete). Ambos se alternam naquele ponto, manhã e tarde, no horário comercial. Quando o cidadão sai, os cavaletes são colocados para que ninguém ouse estacionar ali.

Quando volta, tira os cavaletes e estaciona tranquilamente, sem nenhum constrangimento. Comuniquei os agentes de trânsito. Ao comentar que o local está em obras, a resposta do atendente foi de que "o secretário deveria ter autorizado o proprietário a usar cavaletes, para permitir a carga e descarga de material". Ocorre que (como mostram as fotos) o local não está sendo usado para esse propósito. Quando pára caminhão para descarga de material, o faz no meio da rua, interrompendo o tráfego de quem quer passar... Durante esta semana, como tinha uma coletora na frente da obra, reservou espaço para os carros e a coletora...".

Banquete Cívico


Luiz Minduim
Da equipe do blog

Escrevo de Brasília, onde participo do Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, coisa pequena para 15.000 brasileiros de todos os estados. Poderia pautar esta coluna pelo sucesso do grupo Tholl na abertura, precedendo o presidente Lula. Ou falar de como se come mal aqui em Brasília, a não ser que você tenha algum padrinho ou cargo no parlamento.

Vou falar do que mais me emocionou, a sessão solene da anistia de Paulo Freire.
Na quinta, 26, foi declarada a anistia do educador Paulo Freire.

A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que analisou o requerimento feito pela viúva Ana Maria Freire, em 2007, sob a ótica da perseguição política sofrida pelo educador à época da ditadura, também pediu desculpas pelos atos criminosos cometidos pelo Estado.

Toda a cerimônia foi marcada por aplausos e lágrimas que iniciaram com a fala do relator do processo, Edson Pistori, que resumiu:

“Esse pedido de perdão se estende a cada brasileiro que, ainda hoje, não sabe ler sua própria língua”. Para ele, a perseguição a Paulo Freire pela ditadura se traduz no impedimento à alfabetização de milhares de cidadãos e, principalmente, à conscientização de cada um deles sobre a própria condição social.

Paulo Freire nasceu em Recife, em 1921, e morreu em São Paulo, em 1997. Ficou conhecido pelo empenho em ensinar os mais pobres e se tornou uma inspiração para gerações de professores. Freire desenvolveu um método inovador de alfabetização, a partir de suas primeiras experiências, em 1963, quando ensinou 300 cortadores de cana a ler e a escrever em 45 dias. Com este projeto o governo de Jango Goulart pretendia alfabetizar e conscientizar cinco milhões de brasileiros. O que não foi permitido pela ditadura militar.

O educador sofreu perseguição do regime militar (1964-1985), ficou preso por 70 dias e foi exilado por 16 anos, considerado traidor. Paulo Freire iniciou o exílio na Bolívia, depois Chile, daí para Harvard, nos EUA. Rodou o mundo e se instalou na Suíça, sempre com salvo-conduto, pois o passaporte que lhe garantiria a cidadania brasileira foi sempre negado pelo governo golpista.

A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça existe desde 2002, para revelar à população de todo o país os fatos arbitrários praticados durante o regime militar e pedir desculpas, publicamente, às pessoas que resistiram à ditadura e sofreram os atos de violação dos direitos humanos feitos pelo Estado.

Esta anistia não é apenas simbólica, pois resgata o brasileiro e grande educador filósofo que foi Paulo Freire e, que cada vez mais é percebido, estudado e referenciado como um dos mais importantes expoentes da educação popular no mundo.
Fico com o brado de um participante durante o evento: “Paulo Freire não está e nunca vai estar morto!”

Outros pratos e crônicas de Minduim

Ivan Duarte diz que Mesa da Câmara desrespeitou regimento e que sessão que aumentou IPTU pode vir a ser anulada

O vereador Ivan Duarte (PT) informou há pouco ao Amigos que a Mesa da Câmara de Vereadores desrespeitou o artigo 132 do Regimento da Casa, que a obriga a emitir parecer formal sobre pedidos de afastamento de parlamentares por doença.

Duarte entrou ontem com pedido de informações, perguntando se a Mesa havia ou não emitido o parecer em relação ao caso do pedido de dispensa apresentado pelo vereador Zequinha dos Rodoviários, por meio de "atestado médico".

O atestado foi aceito e Zequinha acabou substituído pelo suplente Velocino Cardoso, que votou a favor do projeto de aumento do IPTU.

"Acabo de receber um documento da Mesa da Câmara, admitindo que não houve a emissão do parecer. Ou seja, o regimento da Casa foi desrespeitado", disse Ivan.

"Com isso, legalmente, é possível que algum cidadão entre com Ação Civil Pública questionando o fato na 6 Vara Cível, alegando ainda prejuízo à população na votação do aumento do IPTU, já que Zequinha foi substituído por Velocino, que votou a favor do projeto da prefeitura. Se isso ocorrer, a Mesa da Câmara terá 15 dias para responder judicialmente e a sessão que aprovou o aumento do IPTU pode até mesmo ser anulada e reconvocada outra sessão", explica Duarte.

Duarte votou contra o aumento do IPTU. O governo, que queria ver a matéria aprovada, saiu vitorioso por um voto. 8 vereadores votaram a favor do projeto, 7 contra.

Leibniz, Voltaire, Camus: da razão ao absurdo

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.”
(Albert Camus, O Mito de Sísifo, 1942)


Welington Silva Rodrigues
Da equipe do blog

Na história do pensamento ocidental, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) é um dos nomes mais relevantes do racionalismo moderno. Ele é o criador da teoria das mônadas: substâncias simples, semelhantes aos nossos átomos, criadas por Deus e dotadas de certa força vital que são a matéria do universo. Segundo Leibniz, Deus criou cada mônada de modo que elas sejam perfeitamente adequadas umas às outras; donde derivamos a ideia de uma harmonia preestabelecida em tudo. Deus, ao criar as mônadas e a harmonia perfeita entre elas, cria o melhor dos mundos possíveis, em que nada seria por acaso.

Voltaire publica Cândido ou o Otimismo em 1759. Trata-se de uma sátira a Leibniz, que aparece na história de Voltaire como Dr. Pangloss, professor de filosofia. Se Leibniz diz que vivemos no melhor dos mundos possíveis, Cândido, ao contrário, vive no pior. Para Cândido, a vida é uma sequência de fatos que não estão de acordo com as idéias leibnizianas defendidas por Pangloss, para quem tudo há de ter uma razão, uma boa razão. Entretanto, Cândido, como o próprio nome já diz, é puro, ingênuo, inocente e vai vivendo aquela realidade que precisa ser muito racionalmente manipulada para compatibilizar-se com a teoria panglossiana.

Sísifo:
sacrifício



Sem utilizar-se do recurso da ficção satírica, Albert Camus vai direto a um dos maiores tabus humanos: o suicídio. Segundo Camus, o homem vive num completo absurdo e a vida não tem sentido. As coisas não têm razão de ser, não há harmonia, nem arquiteto. O que há é o fardo, a repetição caótica e a finitude. Donde o nome da obra a que me refiro: O Mito de Sísifo.

No mito grego, Sísifo morre, não é sepultado pela mulher e, por isso, vai para o inferno. Com a permissão de Hades, volta ao mundo dos vivos para castigá-la por não tê-lo sepultado; mas Sísifo deveria voltar para o inferno. Ao sentir o sabor da vida, do sol, das águas mediterrâneas, Sísifo foi ficando, ficando... Hermes veio, pegou-o da goela e levou-o ao inferno onde, como castigo, teve de passar a eternidade a empurrar uma grande pedra ladeira acima. Quase ao chegar ao topo da ladeira, a pedra rola ladeira abaixo e Sísifo deve repetir a operação indefinidamente, sem objetivo algum, por acaso e capricho dos personagens envolvidos.

O livro de Camus é de 1942. Vão dizer que ele é resultante da mente de alguém que está no meio de algo que lhe parece um enorme absurdo: a Segunda Grande Guerra. Isto é correto, pois é um fato histórico. Mas e nós, hoje? Há algum sentido nessa coisa toda ou teremos de dar razão a Camus e Cândido?

Mas são interessantes as frases finais dos livros:

Camus: “O que resta é um destino cuja única saída é fatal. À margem dessa fatalidade única da morte, tudo, alegria ou felicidade, é liberdade. Surge um mundo onde o único dono é o homem.”
Voltaire: “(...) mas é preciso cultivar nosso jardim.”

Welington S. Rodrigues é doutor em Filosofia
Outros textos de Welington
E-mails para o autor: wsrcg@yahoo.com

O Natal e Bedeuzinho


Manoel Magalhães
Da equipe do blog

Acompanho os preparativos de Natal com enfado. A certa altura da vida nada mais significa, sendo, apenas, bulício. Meio a trama do tempo, que se esvai como preguiçoso rio em demanda do precipício, procuro divisar o menino que, às vésperas de Natal, sonhava ganhar de presente uma bola de verdade, de couro, luzidia, que substituísse a de pano, tão maltratada e gasta.

Um sonho que eu alimentava dia após dia. Imaginava-a aninhada em meus braços, na manhã de Natal, presa do meu afeto um tanto egoísta. Tinha verdadeira atração por seus caprichos de prima-dona, teimosa e faceira, recendendo a traiçoeiros perfumes. A fim de estar bem perto dela, entregue aos mistérios do futebol, candidatei-me a gandula e, claro, visando também um contato maior com os craques que tentavam amansá-la, nas tardes de domingo na Boca do Lobo. Imaginava o dia em que, no amanhecer de Natal, teria em meus braços um balão tão nervoso e erradio como aquele que, às pressas, entregava aos jogadores áureo-cerúleos.

Evidentemente que não abandonaria a bola de pano. Sou conservador até a medula óssea. Como poderia refugá-la? Não. Jamais! Até por que me fazia feliz nas vazias tardes, quando, mesmo sozinho, disputava inesquecíveis Brapéis no quintal de minha casa, invariavelmente ganhos pelo Pelotas, cuja torcida, enlouquecida, berrava à roda do campo.

Era uma correria danada, arrancando o fôlego do narrador. Valter mata a pelota no peito... Passa a Toquinho, que se livra de Pintinho, passando a Bedeusinho, que invade a área deixando Osvaldo Barbosa sentado no chão, e chuta... Golllllllll! Gol do Pelotas. Cronos bocejava de tédio, sonolento, vitima do próprio veneno, olhando os ponteiros do velho relógio que, inexoráveis, ditavam as regras de um jogo que não era exatamente o Brapel...

Disso, entretanto, não me dava conta. E nem queria. A passagem do tempo não contava àquela idade. O importante, mesmo, era o “tempo” da bola de pano, elétrica e endiabrada, quicando frouxamente no gramado de terra batida, chutada em direção à baliza – que poderia ser de lata, de tijolo... Ou feita à base de sonho bem sonhado, cuja rede branca, em contado com a bola de pano gemia de amor. Golllll! Gollll do Bedeusinho!

Deixo para trás as árvores de Natal, colorindo a noite que se debruça sobre Pelotas, diluindo-se meio a bruma. Apesar do mal-estar, e da certeza de que o Senhor do tempo, como a gente imagina às vezes possa descuidar-se de sua pantagruélica fome, retardando seu eterno peregrinar, não estava infeliz, pois, mercê dos arcanos da memória, o menino driblava os adversários, conduzindo o bolão em direção à baliza, chutando-o com toda sua força, fazendo-o aninhar-se no fundo da rede. Gollll! Gollll! Gol do Bedeusinho!

Bem, jamais ganhei um balão de verdade. Porém, mais de uma vez apertei junto ao peito bolas de borracha, as quais, como dançarinas do Cancam, eram difíceis de amansar. Não fui menos feliz por causa disso.

Afinal, Bedeusinho era craque. Dava-se bem com qualquer tipo de bola, fosse de pano, de borracha ou de couro.

Manoel Magalhães é escritor e artista plástico
Outros textos de Manoel
E-mails para o autor: magalhaes.manoel@bol.com.br