até agora R$ 1,2 milhão aos cofres públicos e colocou
Iphan e UFPel em conflito judicial. Ministério Público
e Tribunal de Contas da União investigam o caso e as
transações feitas pela Fundação Simon Bolívar
No final de 2006, o reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), César Borges, atual candidato à reeleição, obteve do governo federal R$ 700 mil para comprar o Casarão 8 da Praça Coronel Pedro Osório. O imóvel neoclássico, tombado pelo "patrimônio histórico", pertencia à família Antunes Maciel, cujos herdeiros moram no Rio de Janeiro. Negócio fechado, Borges mandou pendurar uma faixa no prédio, agradecendo ao presidente Lula pelo $$. Na seqüência, prometeu que a UFPel salvaria a propriedade da destruição. Quase dois anos depois, as obras de restauração não foram iniciadas, e não há previsão para tal. Deteriorada pelo tempo, a faixa que agradece Lula tremula ao vento, sem perspectiva, como o imóvel centenário.Outros problemas rondam o casarão, além dos possíveis fantasmas. Legalmente, a compra do imóvel é questionável, bem como o valor (R$ 700 mil) pago por ele. Por ora, os únicos beneficiários da transação são os herdeiros da família Antunes Maciel, que saboreiam, sob sol forte e mornas temperaturas, os benefícios privados propiciados pelo investimento público de R$ 1,2 milhão feito no imóvel herdado dos antepassados.
Mesmo na "derrota", as antigas famílias tradicionais de Pelotas continuam a se dar bem. Os Antunes Maciel, por exemplo. Na prática, a família fez um gordo pé de meia, comercializando um esqueleto. O valor de venda do casarão foi de R$ 700 mil, avaliado como ótimo diante das condições do prédio. O imóvel só não estava no chão, reduzido a entulho e pó, por causa de escoras colocadas pouco tempo antes, e pagas com dinheiro público pelo próprio governo federal, ao custo de R$ 500 mil, valor este considerado elevado por uma fonte do ramo imobiliário.
O governo acariciou as duas faces da família Antunes Maciel: quando pagou para salvar o imóvel da queda e quando, depois, comprou as ruínas escoradas.
Negócio provoca luta
judicial entre dois órgãos
do governo federal
O dinheiro para escorar o prédio foi conseguido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/RS), órgão do Ministério da Cultura. Em 2002, o Ministério Público Federal ajuizou uma ação obrigando o Iphan/Nacional a realizar obras para evitar o desabamento do prédio. O dinheiro (R$ 500 mil) foi liberado e o escoramento das paredes, feito.
Quatro anos depois, a pedido do reitor César Borges, o governo federal, por meio da UFPel/Fundação Simon Bolívar, arrancou mais R$ 700 mil dos cofres públicos para comprar o prédio. Custo da operação casada: R$ 1,2 milhão, sem falar no valor da restauração do prédio em si, ainda sem previsão.
A transação, uma vez consumada, causou mal-estar dentro do governo federal. Tanto assim que até hoje o Iphan tenta reaver na Justiça o dinheiro liberado para escorar o casarão. Até aqui, porém, não teve sucesso.
Como a UFPel/Fundação Simon Bolívar comprou o casarão, o Iphan passou a tentar reaver os R$ 500 mil não mais da família Antunes Maciel, mas da UFPel. “Criou-se uma situação em que dois órgãos federais se viram em conflito, com um cobrando do outro”, explica o procurador federal em exercício no Iphan/RS, Oscar Monteiro de Barros.
Para tentar sanar o conflito, diz Barros, a Advocacia Geral da União (AGU) instalou uma Câmara de Conciliação, da qual participam o Iphan e a UFPel. Até o momento, porém, não se chegou a entendimento definitivo. Segundo o procurador, há a predisposição de o Iphan perdoar a dívida de R$ 500 mil, caso a UFPel assuma integralmente a realização das obras de restauração do imóvel. “Nesse caso, o Iphan poderá vir a considerar que a recuperação de um bem público tombado, caso do casarão 8, valeria o investimento feito para escorar o prédio”, diz Monteiro de Barros.
Por enquanto, adianta ele, os projetos de restauração do imóvel enviados pela UFPel ao Iphan não foram aprovados. Duas versões preliminares desrespeitavam características arquitetônicas e funcionais exigidas pelo Iphan e foram recusados. “Estamos aguardando que nos enviem a terceira versão do projeto de restauração, para fazermos nova avaliação”, diz Barros.
Transação mostra
falta de comunicação
entre UFPel e Iphan
Já que a UFPel persistiu na idéia de comprar o prédio, poderia, se tivesse procurado o Iphan para um entendimento, ter reduzido a oferta de compra do casarão, evitando desperdício de dinheiro público. Caso os R$ 500 mil liberados pelo Iphan tivessem sido descontados do preço de compra do casarão (R$ 700 mil), o preço final do imóvel teria sido de R$ 200 mil. Ou seja, o governo teria economizado R$ 500 mil, dinheiro que poderia ser empregado, por exemplo, na reforma definitiva do prédio.
As investigações, a cargo do Ministério Público Federal, vêm sendo realizadas em torno de três pontos-chave. São eles:
1) Por que, na compra do casarão por R$ 700 mil, não se descontou os R$ 500 mil pagos anteriormente pelo escoramento?
2) Porque, no processo de captação de recursos para comprar o imóvel, a UFPel não se entendeu com o Iphan, de onde já haviam sido liberados R$ 500 mil para escorar o imóvel?
3) Por que realizar a compra do imóvel através da Fundação Simon Bolívar, já que poderia ter sido feita pela UFPel?
TCU e MP investigam
negócios suspeitos na
Fundação Simon Bolívar
Além do Ministério Público Federal, o Tribunal de Contas da União (TCU) está investigando de perto a gestão do reitor César Borges e as ações da Fundação Simon Bolívar. Tanto que o TCU anunciou, há pouco, abertura de auditoria na Fundação. Entre outros pontos, MP e TCU investigam a razão da transferência crescente de recursos públicos da UFPel para a Simon Bolívar, criada há mais de dez anos pelo próprio Borges, quando foi reitor pela primeira vez (1994-1997).
Fundações de Apoio a universidades, como a Bolívar, deveriam ser utilizadas exclusivamente para “desenvolver projetos de pesquisa e de ensino”. Este é seu papel. Na prática, porém, não é isso o que vem ocorrendo, como demonstra a aquisição do imóvel, típico negócio de corretagem. O dinheiro da transação veio da UFPel, mas o negócio foi celebrado pela Fundação. “Temos contestado junto ao TCU este tipo de repasse, já que fundações de apoio não foram criadas com a finalidade jurídica de realizar negócios para a universidade, como a compra do casarão 8", explica Palombo.
Segundo o procurador, causa preocupação ao MP o fato de a Simon Bolívar ter suas funções progressivamente alargadas, ao ponto de servir, hoje, como repassadora de recursos financeiros do governo e até mesmo como corretora de imóveis, como se viu na compra da antiga residência dos Antunes Maciel.
O desvio de finalidade da Simon Bolívar preocupa o MP principalmente porque, segundo Max Palombo, dificulta a fiscalização do TCU e de outros órgãos do governo sobre a gestão da universidade, além do fato de enfraquecer a administração da instituição. "O volume expressivo de repasses feitos pela universidade à fundação afeta o trabalho dos órgãos controladores da administração pública, que passam a enfrentar maiores dificuldades de identificar o caminho dos recursos e sua aplicação final. Além disso, as fundações que agem assim acabam se tornando ricas e as universidades nem um pouco", afirma Palombo.
Para investigar essas situações, o MPF tem realizado parcerias em número crescente com outros órgãos da administração. Foi assim, por exemplo, quando o MP se juntou à Receita Federal e à Polícia Federal para desarticular uma organização criminosa que desviava recursos de Detrans usando empresas administradas por fundações de apoio universitárias e laranjas. A quadrilha, descoberta na Operação Rodin, envolvia a Fundação de Apoio da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Outro caso semelhante, descoberto na semana passada, envolve a Fundação do Cefet do Rio de Janeiro (Funcefet). Segundo a PF, a fundação era utilizada por integrantes do grupo do ex-governador Anthony Garotinho, para o repasse de verbas estaduais da saúde a programas que nunca existiram.
Estátuas de 50 quilos,
feitas de mármore,
desaparecem do casarão
pela porta da frente
O desencontro e o atraso nos procedimentos prejudicou o trabalho da Polícia Federal, que investiga o sumiço das estátuas. O inquérito da PF só foi instaurado depois que o Iphan de Porto Alegre solicitou-o ao delegado, em 31 de janeiro de 2007, um mês depois. Até agora o caso não foi elucidado.
Demora nas obras é
uma marca da gestão
do reitor César Borges
A demora na execução de obras é uma característica do reitor César Borges. Ele se mostra ousado nas transações. Mas patina na hora de dar viabilidade aos empreendimentos "alicerçados". Há vários casos assim. Um deles é o do prédio conhecido como "paliteiro", atrás da rodoviária, depois da ponte sobre o canal Santa Bárbara. Borges começou a construí-lo em sua primeira gestão como reitor (1994-1997). A obra ficou parada por anos na fase de fundações e pilastras - daí o apelido. Nesta gestão, dez anos depois, o reitor terminou o prédio, mas faltou planejamento e dinheiro para os equipamentos.
Outra obra que parece estar cada vez mais longe da inauguração é o campus da UFPel no antigo frigorífico Anglo, onde o reitor cedeu área para construção de um shopping, batizado de Porto Shopping. Logo depois da compra do prédio do Anglo, Borges anunciou a inauguração do novo campus para 2007. Recentemente, o jornal Diário da Manhã anunciou novo ano para a inauguração: 2009. Ou seja, não será possível inaugurá-lo para a campanha atual do reitor à reeleição, como ele prometeu. Por sua vez, as obras do Porto shopping andam lentas, e plácidas, como as águas do São Gonçalo.
NOTA DO BLOG
Ontem de manhã mandei e-mail com perguntas sobre a matéria acima para a Secretaria de Comunicação da UFPel. Telefonei para saber se haviam recebido. Sim, receberam. Hoje de manhã telefonei de novo. O coordenador de Comunicação, Claiton Rocha, me disse que o assunto seria resolvido pelo próprio reitor. Esperei até há pouco por contato da reitoria - em vão.
As perguntas que fiz à reitoria
1) Por que realizar a compra do imóvel através da Fundação Simon Bolívar, já que poderia ter sido feita pela UFPel?
2) Por que, no processo de captação de recursos para comprar o imóvel, a UFPel não se entendeu com o Iphan, de onde já haviam sido liberados R$ 500 mil para escorar o imóvel?
3) Por que, na compra do casarão por R$ 700 mil, não se descontou os R$ 500 mil pagos anteriormente pelo Iphan pelo escoramento?
4) Por que o atraso nas obras de restauração do casarão? Há previsão e dinheiro liberado para a obra?
5) A UFPel tem explicações sobre o roubo de três estátuas do casarão? A informação que tenho é de que as estátuas estavam lá quando a UFPel pegou as chaves do prédio.
6) Quando o posto de saúde do paliteiro começará a funcionar? Por que não entra em operação? Por que construiu-se um centro de atenção básica (que é atribuição da prefeitura) e não um pronto-socorro (média e alta complexidade), que é atribuição de universidade?
7) Quando o campus da UFPel começará a funcionar no Anglo? E o prédio da reitoria, igualmente no Anglo, qual a previsão para ser construído e começar a funcionar?




16 comt.:
Espero que essas questões não fiquem sem resposta por muito tempo. Embora eu tenha minhas dúvidas quanto a respostas satisfatórias.
Parabéns pela matéria. Completa!
Excelente reportagem.
Sempre tive muitas duvidas a respeito do negocio entre a familia antunes maciel e a fundaçao simon bolivar (ufpel).
Parabéns pelo trabalho realizado.
Ainda bem que temos esse tipo de informações através do blog.
Se depender da imprensa pelotense...
Boa tarde, Rubens. Parabéns pela matéria. Por que será que a imprensa local não tem interesse em produzi-las?
Será que existe alguma relação extra entre a UFPel e o DP? Ou a informação não é de interesse do veículo?
Em relação a alguma manifestação da UFPel, espere, meu caro, deitado. Por que ela não deverá vir. Aliás, como parece ser praxe na assessoria de Comunicação da UFPel.
Mais uma vez, parabéns ao trabalho realizado pelo blog. Sem ele, com certeza, estaríamos relegados à total desinformação e, o pior, à manipulação centenária.
É a nova tendência da Administração Pública. Receber as verbas que tem direito e repassá-las a uma ONG/OSCIP/Fundações para administrá-las para assim fugir da responsabilidade e da fiscalização da sociedade, do TCE/TCU, Câmara de Vereadores/Deputados. Assim dá muito menos trabalho.
...e quanto ao "Shopping UFPEL" esse sim eu acho que vai sair, ao contrário dos outros tantos que foram prometidos, já que esse será construído com dinheiro público. Em Pelotas, só assim mesmo!
Alguém sabe quanto da obra do shpping será bancado pela empresa gestora e quanto será responsabilidade da Simon Bolivar? Tenho curiosidade, pois a proposta que a empresa em que trabalho recebeu para alugar uma loja no shopping é absurda, totalmente proibitiva para pequenos empreendimentos em Pelotas. Parece que tomaram aulas de administração e mercado com a UCPel, que cobra preços extorsivos em uma região empobrecida...
Por falar em desperdício de dinheiro público ... existe um prédio comprado - antigo hospital -totalmente reformado e adaptado com todo o suporte para ser um moderno Hospital Universitáro. Pronto o "Hospital " , o ´prédio é utilizado p/ outros fins ...
NUnca vi uma matéria da mesma categoria nesta cidade. Bem escrita, com várias fontes. E fechando os fatos. Parabéns.
Oi, Rubens! Demorou um pouco a matéria mas não decepcionou. Nunca entendi as transações mobiliárias entre a Simão Bolívar e a Ufpel, assim como nunca entendi bem porque há tantos "contratos" para preencher cargos que deveriam ser ocupados por meio de concursos. "Empregar" funcionários sem haver concurso público da União também é uma das funções da Fundação? Poderias investigar? Há pessoas desempregadas aguardando a possibilidade de abertura de vagas para concursos.
"Mistério sempre há de pintar por aí...!"
Mais uma vez, agradeço a matéria e te parabenizo. Aguardo mais esclarecimentos, ok?
Bjs!Teresinha Brandão
Oi Teresinha. Só para que tu entendas melhor o que acontece na UFPel: está passando um documento para que seja preenchido e devidamente assinado por todos os trabalhadores concursados da UFPel pedindo informações sobre o número de parentes que estes tem empregados na Fundação Simon Bolivar. Deve ser devidamente preenchido e entregue a Pro-reitoria de recursos Humanos. Pelo que me disseram, o MP está na cola do amigo Cesar pois (quem trabalha na UFPel sabe) a garantia de reeleição do atual reitor existia justamente pela categoria dos técnicos-administrativos que tem filhos, sobrinhos, acho que até o cachorro da vizinha empregados nas Fundações. Às vezes tenho a nítida sensação que tá todo mundo em festa familiar mesmo. Ah, os professores tbém tem sua cota de aparentados não concursados trabalhando na Universidade. Eles empregam sem nenhum tipo de seleção. É indicação do Rei mesmo.
é Rubens, posso e espero estar enganado, mas acho que nos próximos quatro anos ainda vais continuar a dar muitas notícias como essa da Ufpel.
...e assim caminha a humanidade...
Como diria o Boris.. "É uma vergonha."
Quanto mais eu leio o blog, mas me desiludo com a politica e poder.
Alguem é parceiro pra fazer o "Amigos de Pelotas" em versão impressa? Se a população lesse informações assim, a casa ia abaixo.
Parabens, Rubens.
Ótima matéria Rubens.. é uma pena que coisas como as narradas prejudiquem nosso patrimônio histórico. A memória de Pelotas não pode ser vítima. Continue produzindo. Um abraço.
Escrevo aqui para fazer um pequeno acréscimo nas questões tangentes à Simon Bolívar. Não que eu seja complacente com esta fundação, mas não esqueçamos da FAU (bendita FAU!), que deveria ser distinada EXCLUSIVAMENTE para o aporte da saúde nas suas contratações (enfermeiros, médicos..). Pois bem, são contratados com salário de R$ 1.200,00 mensais desde secretários(as) trilíngues(?) até assessores de administração em qualquer setor administrativo (esqueçam a saúde!). Qualificação?! Esqueçam também! Grande parte dos contratados "emergenciais e essenciais" de ambas fundações (sejamos justos com a Simon Bolívar) mal possuem o ensino médio completo (quando possuem..................), lembrando que o salário pago pela
Fundação SB não passa dos R$ 600,00 mensais. Quais são, então, as contratações mais fedidas?
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