
Olhem para as orelhas, o problema está nelas!
Não adianta tentar fugir disso. Você assumiu a responsabilidade de ser “você mesmo”, agora agüenta. Todos os laços que atamos e desatamos não são por acaso. O tiozinho da padaria que já sabe a marca do teu cigarro, quantos pães quer e o tipo de queijo, só sabe isso porque convive contigo há muito tempo, sem tu mesmo perceber. Somos observados, sempre, e sem querer observamos todo mundo.
Por isso que me agradam as vitrines das galerias. Queria eu viver numa vitrine. Já reparou como raramente olhamos para uma vitrine? Tentamos olhar através dela, não para ela, o que está em frente aos nossos olhos não nos chama atenção, queremos o difícil, o inalcançável. Talvez por isso Deus exista. Por estar tão longe de nós que nem ao menos sabemos se ele é real ou só o nosso medo, tentando achar alguma coisa em que possa se segurar para não nos fazer cair.
Estão tentando nos separar, fazer cada um de nós viver em mundo particular. Olhem para as orelhas das pessoas, elas comprovam. Seus fones brancos e prateados estão dando trilha sonora para nossas vidas, porém a voz das pessoas é cada vez menos ouvida. Os contatos se dão muito mais por meio de uma máquina fria, sem sentimentos, que já pode ser considerada como uma extensão de nosso corpo. Um novo órgão, quase independente. Pessoas se falam sem se conhecer, se amam sem se ver. É tudo tão perto e tão longe ao mesmo tempo. E os tais laços acabam ficando invisíveis. Desliga-se a tela, vai para a cama e deita. Até amanhã.
Então, como é que podemos “ser nós mesmos” nos dias de hoje? A verdade é que cada um pode ser o que quiser, as máscaras foram distribuídas há algum tempo. Na verdade sempre existiram, só que agora elas estão em maior oferta e abundância no mercado. Todos os tipos e tamanhos, é só esticar a mão para pegar, como uma maçã madura no galho. Porém, mais cedo ou mais tarde, vamos pagar por isso. Não é possível viver sozinho por muito tempo. Acaba-se enlouquecendo, somos todos autistas involuntários. Vivendo em nossos mundos particulares, onde nós somos o nosso próprio Deus. Então faça um milagre!! Duvido algum de nós amanhã conseguir dar oi para a primeira pessoa desconhecida que passar na rua.
Os desconhecidos me fascinam. Quantas mulheres da minha vida já passaram por mim e nem sabem. E quantas outras passaram e sem querer eu me abaixei para amarrar os sapatos. Depois reclamamos que o mundo é um ovo de codorna mas ele pode ser bem menor. É só esticar um pouquinho mais os olhos, abrir a boca. Nosso monólogo diário está ficando chato, patético. Vivemos sobre os méritos de outros, por isso dizem que bom mesmo era antigamente. Claro, as pessoas conversavam.
* E-mails para o autor no endereço alexbrazv@yahoo.com.br
NOTA DO BLOGNo último mês, comecei a realizar antigo sonho meu: publicar novos autores no blog. Gente de Pelotas que tem o que dizer e deseja se expressar. Incomoda-me um hábito pelotense de exaltar exclusivamente grandes nomes do passado, como Machado de Assis, Lobo da Costa, Guimarães Rosa ou Simões Lopes Neto. Todos têm grande valor. Mas sinto falta de ouvir falar dos autores contemporâneos que anseiam pela oportunidade de apresentar suas produções. Quem tiver vontade de enviar seus trabalhos para o blog, estamos receptivos. Mande-os pelo e-mail amigosdepelotas-blog@yahoo.com.br



4 comentários:
Esse é o Gordinho!
esse gordinho é especial!! vale ver tocando... uma maravilha!!
ótima a iniciativa do blog e melhor ainda o texto!!
obrigada aos dois: Rubens e Alex!
abraço,
Liza Gutierrez
excelente texto! a gente pensa tanta coisa e às vezes não consegue dizer o que quer. muito bom ler um texto que fala sobre o que a gente pensa e vai além. valeu, alex.
valeu, rubens. estou ficando fã dessa coluna.
Alex, o novo boca do inferno.
^^
Na pleura, Alberto!
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