
Ars Longa
Crítica cultural
Fala de tua aldeia e falarás do mundo. (Tolstoi)
Satolep, lançado no início deste inverno, tem um ponto de partida clássico, o do homem que volta a sua terra natal após uma longa ausência. O retorno é um detalhe biográfico do autor, Vitor Ramil, mas também é o meu caso, é o do Rubens, do atual prefeito e certamente de muitas outras pessoas.
Ao redor desse ponto inicial cruzam-se tantas linhas – psicológicas, históricas, espaciais – que a leitura se faz emocionante e necessária, inclusive para quem não é pelotense ou nunca vivenciou o desterro. Claro, ela terá um efeito ainda mais poderoso se for feita aqui em Pelotas... e no inverno.
O início é meio confuso, mas na página 9 já estamos identificados. Aos poucos, o texto nos faz co-autores; às vezes nos parece tê-lo escrito, ou que o narrador fala de nós, como se nos conhecesse. O personagem central testemunha: “Me senti dentro do argumento” (p.86). Tolstoi diria então: “Fala de tua aldeia e falarás de cada um de seus habitantes”.
Puxão de orelhas carinhoso: falar demais do mundo e pouco da aldeia pode, paradoxalmente, ter algo de narcisismo. “O senhor me contou de muitas cidades sem contar de nenhuma pessoa, reparou? Que cidades desertas são essas?” (p.64).
O retorno faz o exilado refletir sobre a natureza de seu lugar. Temos a cidade mais úmida? Qual a Graça de morar aqui? Que presente recebemos? Na decadência há algo que sobreviva? A tradição leva a algum futuro? Ramil não só tem boas respostas: ainda as reúne sob um novo paradigma, a Estética do Frio (Sul-melancolia-umidade-penumbra), e nos oferece a esperança da auto-estima, a do Patinho Feio que se descobre belo em sua re-visão.
Quem tiver o conhecimento verá tantas referências literárias, que em momentos poderá não saber que autor está lendo: Ramil, Lopes Neto, Lobo da Costa, Luis Borges, todos andam por ali, em citações ou como personagens. Estamos sim nas ruas de Pelotas, mas esquecemos que o tempo é bem outro (1920?), perdoando e até agradecendo alguns anacronismos.
O que eu mais agradeço é que o relato explique, com extrema gentileza e elegância, o porquê do anagrama invertido de “Pelotas”. Eu pensava: é contraposição à estética tropical? Oposição ao estabelecido, como as páginas negras do livro? Ácida crítica à mentalidade regressiva? Alusão ao movimento de ir e voltar? Se você for leitor de livraria, que não compra os livros, terá a resposta na página 36 e na 63, que se aludem mutuamente. Até nesse detalhe a inversão se faz coerente e bela. Repare também na foto de capa: é a mesma na contracapa, mas parecem locais diferentes. Pelotas-Satolep?
O livro é da editora paulista Cosac Naify, com preço fixo de 39 reais. Vale como ficção, como documento histórico e como forma de autoconhecimento. Dá vontade de relê-lo e de comentá-lo. Se você for leitor de livraria, quererá comprá-lo.
NOTA DA REDAÇÃO
A partir de hoje, todas as sextas-feiras, Ars Longa escreverá aos leitores do blog sobre assuntos relacionados à cultura - da produção à apresentação de espetáculos. Estamos felizes de poder contar com seu olhar, a um só tempo, crítico e amoroso.


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1 comentários:
A menção a Luis Borges não se refere ao professor pelotense Luís Artur Borges Pereira (n.1963), estudioso de Simões Lopes Neto e de Lobo da Costa, mas sim ao escritor argentino Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (1899-1986). Este último escreveu em 1944 o conto "El Sur", que é uma das referências de Vitor Ramil neste livro.
Os dois Borges têm em comum a inclinação para a literatura, inclusive no gênero ensaio e poesia. Também são virginianos, com 4 dias de diferença (Luisinho 28 de agosto; Jorge, 24 de agosto).
Ars Longa
arslongasatolep@hotmail.com
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