Sábado, Outubro 04, 2008

Canto e emoções no Conservatório

Ars Longa
Crítica Cultural

Nesta sexta-feira, o Salão Milton de Lemos vibrou com um recital de canto lírico no velho estilo mas com um toque de saudade e de maternal carinho. A emoção à flor da pele pôde ser sentida pelos 70 assistentes, a maioria artistas que vinham apreciar o trabalho de um trio de mestres, proveniente de Florianópolis.
No contexto dos 90 anos do Conservatório de Música, a pianista Elisabeth Salles (ex-diretora da Casa, de 1989 a 1993), a cantora pelotense Rute Ferreira Gebler e o barítono catarinense Schäffer Júnior trouxeram a nossa cidade sua produção recente “Canções de Amor”, um conjunto da mais romântica música brasileira, italiana e alemã.
Com muito vibrato na voz mas com grande sensibilidade na expressão, soprano e barítono apresentaram catorze trechos em total, mais um extra. O programa incluiu muito do repertório que caracterizou os melhores anos da música em Pelotas, como a popular “Amapola”, “O doce mistério da vida” (de uma opereta americana) e o dueto “Là ci darem la mano”, do Don Giovanni de Mozart, que foi o extra que fechou o recital com chave de ouro.
Além do saudosismo musical, ficou evidente neste breve encontro de uma hora a maravilhosa beleza que era usual presenciar no nosso Conservatório em seus melhores anos, em vista da qualidade profissional e delicadeza humana destas artistas.
Entre os números, Rute explicou que havia deixado o canto e foi animada a retomá-lo, e se nota que ela o faz com muito amor e gratidão, ao voltar a apresentar-se em Pelotas depois de vinte anos. Nesta corda emotiva, ela contou que seu sogro, já falecido, costumava pedir-lhe que preparasse a melodia da “Serenata Rimpianto”, de Toselli, o que ela nunca fizera, até hoje, quando a dedicou a sua memória.
O ponto mais tocante foi a Canção de Anita, para solo de soprano, da ópera Anita Garibaldi, composta em 1939 pelo maestro alemão Heinz Geyer. Neste trecho, a letra em português, com melodia muito simples, é envolvida e adornada por frases do piano mais elaboradas que, não simplesmente apóiam, mas pretendem dialogar e contrapor-se com otimismo à melancolia do texto
O clima emotivo ganhou espontaneidade quando nos duos finais os cantores acrescentaram a seus habituais gestos expressivos o baile, o que fez brotar aplausos no meio da música e aumentá-los com entusiasmo no final. Para alegria da platéia, veio o extra, acima citado, e os cantores romperam de novo o “protocolo”: em vez de retirar-se do palco desceram a platéia para receber ali mesmo o carinho dos amigos.
Somente a confecção do programa escrito deixou a desejar quanto à perfeição nesta bela noite: a música não foi identificada quanto às épocas, a impressão ficou de baixa qualidade, com formatação descuidada, e o insuficiente número de cópias deixou algumas pessoas sem a informação.
Na próxima sexta, 10 de outubro, teremos outro concerto da maior qualidade, com o Trio Elas por Elas: mulheres interpretando composições de mulheres, em piano, violino e violoncelo. A formação do grupo estreou em Porto Alegre, em março de 2007.

* Se você quiser divulgar eventos ou conversar com o autor, escreva para arslongasatolep@hotmail.com