Terça-feira, Outubro 21, 2008

Crise bate às portas da UCPel

Cercado por estudantes, reitor Proença prometeu
recebê-los em audiência. Alunos temem que enxugamento
do quadro e dos currículos afete qualidade do ensino

O reitor da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Alencar Proença, está vivendo dias de César Borges, outro reitor, este da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

O Diretório Central de Estudantes (DCE/UCPel) marcou para hoje às 18h, e amanhã, às 8h30, atos de protesto contra a reestruturação administrativa e curricular da instituição sem consulta ao DCE. Os dois protestos ocorrerão simultaneamente à reunião do Conselho Universitário da UCPel, que vai debater as mudanças propostas.

Com uma dívida trabalhista de R$ 40 milhões, negociada para ser paga em 15 anos, a UCPel passa por uma grave crise financeira há anos e luta para se manter de pé no mercado. Neste momento, a crise afeta gravemente a instituição, conhecida por cobrar as mensalidades mais caras da cidade e da região.

Na reestruturação, o reitor pretende mudar os currículos dos cursos (com o objetivo, segundo ele, de "rediscutir a essencialização das disciplinas e melhor formação do egresso". Esta explicação oficial, porém, encobre outro objetivo prático: a demissão de professores e a redução de carga horária, para possibilitar a redução de preços das mensalidades e viabilizar a UCPel como empreendimento no novo cenário competitivo do ensino privado na região.

A redução de preços valeria somente para os alunos que ingressarem na UCPel a partir de 2009, uma situação igualmente difícil, pois a instituição teria de conviver com dois tipos de alunos - os que pagam mais e os que pagam menos pelo mesmo curso.
Protesto - Ontem, os estudantes, auxiliados por caminhão de som e vestindo camisetas pretas com dizeres "abaixo o canetaço" e "nosso futuro, nosso compromisso" (ironia ao slogan da UCPel "Seu futuro, nosso compromisso"), fecharam o trânsito na rua Gonçalves Chaves, entre D. Pedro e 3 de Maio, em frente do prédio central da UCPel. O bloqueio durou 20 minutos. A brigada militar apareceu, mas não houve conflito.

Os estudantes entraram na Católica, onde permaneceram mais meia hora silicitando que outros estudantes assinassem abaixo-assinado contra as reformas na UCPel a portas fechadas.

A principal reivindicação dos estudantes é a participação deles no processo de decisão da suposta redução de carga horária dos cursos e demissão de professores.
O reitor Alencar Proença foi cercado pelos alunos na entrada da UCPel, ontem. Sob pressão, prometeu que receberia uma comissão de alunos até a próxima quinta-feira. (RF)

* Fotos do protesto: Gilberto Carvalho.

NOTA DA REDAÇÃO
Cercado pelos estudantes, o reitor Alencar Proença explicou em parte o objetivo da reitoria: "Não queremos concorrer por um preço mais baixo que os grandes conglomerados da educação. Queremos adaptar nossos preços para uma realidade mais próxima dos nossos alunos".O reitor poderia ser mais explícito, não faria mal. É evidente que ele quer competir, o que isso tem de mais?
O Brasil tem uma tradição de convivência entre ensino superior público e privado.

O que ocorria, até pouco tempo, é que algumas instituições de ensino particular no país tantavam mascarar sua prática capitalista escondendo-se atrás de denominações como "instituições filantrópicas". Não assumiam sua verdadeira face, como se o ensino pago (não necessariamente caro) fosse pecado.

Quando o governo FHC abriu o mercado do ensino superior privado, política essa acentuada no governo do presidente Lula, as instituições superiores particulares "filantrópicas" se viram na obrigação de enfrentar uma nova realidade - e se adaptar à competição capitalista vigente no país.

Com o fim da reserva de "mercado do bem", e a decisão do governo de acabar com benefícios tributários para instituições falsamente filantrópicas, empresas-instituições com a UCPel precisaram - e estão precisando - ir à luta.

Quando o reitor Alencar Proença fala em "grandes conglomerados da educação" (leia-se Grupo Anhanguera), deixa trair um ressentimento com seu mais direto competidor local. Mas ressentimento não leva a nada. É preciso arregaçar as mangas.

Na verdade, por décadas, a própria UCPel sempre foi um grande conglomerado local. Mandava e desmandava, e, principalmente, ditava os preços. Ocorre que, para isso, sempre se beneficiou do fato de estar sozinha do mercado e de facilidades tributárias, amparada na aura de instituição religiosa e filantrópica, embora sempre tenha atuado como empresa capitalista voraz.

Mas o capitalismo avançou com FHC, vem avançando ainda mais no governo Lula, e não adianta mais apelar para Jesus ou para o governo. Ou se readapta para competir ou fecha. Rezar o Pai Nosso não ajudará o reitor, que, neste momento, parece um pouco confuso, como mostra a foto da bala comestível acima, embalada com papel-propaganda da UCPel. Para um homem que sempre criticou o "ensino-mercadoria", como o reitor Proença, a estética da peça de marketing (distribuída em teatros e cinemas), autorizada por ele, é uma prova de que o advogado Proença começa a rever seus conceitos. Não necessariamente da maneira mais elegante.(RF)

Ensino superior em Pelotas:
o novo cenário
A realidade do ensino superior no Brasil vem mudando radicalmente. E mudará muito mais nos próximos anos, para o bem dos estudantes e consumidores. Em Pelotas, não é diferente. Um dado novo é que acabou o monopólio regional privado exercido por décadas pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Hoje, com a entrada no mercado do Grupo paulista Anhanguera, que anuncia qualidade de ensino a preços compatíveis com o poder aquisitivo da população, a UCPel se encontra, pela primeira vez, pressionada por um cenário competitivo direto, em seu próprio território.

Oferta cresceu - Esse novo arranjo mercadológico é acirrado por outros fatores: a presença de outras faculdades privadas no entorno de Pelotas, a expansão do ensino universitário público e o crescimento da oferta do ensino a distância, ferramenta essencial em país emergente e que deve explodir daqui em diante.

A principal dificuldade da UCPel, que, em termos numéricos, está regionalmente cercada por cinco universidades federais e por pelo menos igual número de instituições particulares, é a falta de fôlego para competir.
Católica endividada - A Católica, que há oito anos quase viu a bancarrota, permanece endividada - com papagaios até a raiz dos cabelos com os bancos, situação que naturalmente lhe tira a ousadia e o poder de fogo e lhe obriga a redirecionar suas energias de orações e do marketing para ações concretas.

Em valores de hoje, a dívida da UCPel, oficialmente, é de R$ 40 milhões, negociada para pagamento em 15 anos. Enquanto a Católica concentrará suas forças em se manter de pé, seus concorrentes privados e públicos, livres do peso de problemas financeiros, vão correr soltos e turbinados na dianteira? (RF)
Compreenda melhor a crise da
UCPel, lendo as matérias abaixo.
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11 comt.:

Léo Soares disse...

A crise não está batendo as portas da UCPel, está lá dentro a muito tempo, impregnada, dos tijolos as mentes de todos por lá. Quando se entra na UCP diz-se: olá crise! heeheheheh

Anônimo disse...

Eu acho que se as mensalidades baixarem a católica não vai poder mais "patrocinar" o esporte local. Que lástima. Acho que o estudante não pode deixar isso acontecer, afinal o dinhgeiro vem do bolso deles mesmo...

TSB disse...

Não adianta baixar as mensalidades se a "mordida" da igreja católica nestes valores não diminuir. Ou ninguém sabia que uma parte considerável do valor recebido em mensalidades da UCPel vai pra Igreja?

Niara de Oliveira disse...

Vou colocar um pouco de lenha nessa fogueira.
Qual é o conceito de universidade? A primeira palavra a definir, até mesmo no dicionário, é universalidade. Uma instituição educacional que abrange um conjunto de escolas superiores destinadas à especialização científica e profissional. Ao pesquisar universalidade achamos: qualidade do que é universal, generalidade, totalidade, qualidade que abrange todos os conhecimentos. E ainda: o princípio da universidade, ou da universalidade do ensino, é baseado no tripé ENSINO, PESQUISA e EXTENSÃO. Sem esse tripé, não há universidade. Então, não podemos chamar o grupo Anhanguera de universidade. Eles são um conjunto de faculdades, ou seja, apenas ensino. É óbvio que assim, eles podem ser mais competitivos, eles não investem em pesquisa e extensão e nem na qualificação do seu corpo docente. Cada um que se vire por si.
Se os alunos da UCPel estão preocupados com qualidade de ensino temos que reconhecer, já é um grande avanço. No meu tempo de UCPel imperava um pacto de mediocridade: “eu finjo que aprendo e vocês fingem que ensinam, como estou pagando, no final quero apenas o meu diploma”. Claro, que existiam honrosas exceções. Professores muito rígidos eleitos como carrascos e insensíveis porque exigiam que os alunos estudassem, e nas provas, no mínimo, soubessem se expressar num português digno de quem pretende um diploma de curso superior. Honrosas exceções também entre os alunos, que não ficaram esperando apenas pelos professores e foram atrás dos seus interesses.
O reitor Alencar Proença deveria tentar reverter a seu favor essa manifestação dos estudantes da UCPel. Aproveitar que os alunos estão interessados na qualidade do ensino e os chamar, juntamente com professores e funcionários num grande “congresso” da UCPel, para discutir saídas e soluções para a crise. Por que não? Por que apenas a reitoria sozinha precisa encontrar as soluções para a crise? Claro, que é preciso resguardar as responsabilidades de cada um. Não foram os estudantes, nem professores e funcionários, que afundaram a UCPel nessa crise financeira. E acho que o Secretariado Diocesano de Pelotas (bispado) deveria contribuir com a sua parte também.
Apenas uma "opiniã" e uma "sugestã"!

Anônimo disse...

Muito obrigado Rubens por nos esclarecer que o capitalismo avançou com o FHC e mais ainda com o LULA. Não sei o que seria de nós. Afinal, não falarias mal do FHC sem dar uma alfinetada no LULA. Afinal, não poderias deixar mal teu ex-patrão, o ex-ministro e empresário Paulo Renato de Souza. Aliás, o mercado para a empresa dele deve ter se expandido bastante com este avanço do capitalismo.

Anônimo disse...

A velha patrulha...

Anônimo disse...

Boa sugestão da Niara. No meu tempo, que não é tão longínquo, os estudantes também não se interessavam muito, e coitado daquele que reclamasse de alguma coisa e ainda estressasse o professor, que viria então com uma prova cabeludíssima. Seria eternamente a escória da turma. E os que reclamam dos profs. que descontam português? Mas o fato é que o Alencar, apesar das cismas, não está sozinho na responsabilidade. Existe uma outra pessoa lá na reitoria, que manda e desmanda, e pelo menos no Direito, grande parte dos professores são todos amiguinhos dela, incluindo um parente beeem próximo. Ela sim, é a manda-chuva lá dentro, e essas reduções de carga horária e centralização das escolas... escrevam: esta senhora tem dez dedinhos nisso! Amém.

Anônimo disse...

Belo artigo sobre a reação estudantil que cerca esse processo de reestruturação vertical e anti-democrático. Algumas colocações: a reestruturação do currículo, com a "consequente redução" do valor pago mensalmente, seria aplicada também aos estudantes com graduação já em curso, dada a comprovada (por exemplos como o do curso de Psicologia, hoje com turmas cursando dois currículos diferentes) dificuldade operacional em manter, na prática, dois cursos diferentes para a mesma graduação - um destinado aos novos alunos, com currículo reformulado; outro ministrado aos alunos que já cursam a faculdade, com currículo intocado. Existe uma grande dúvida por parte dos alunos com relação ao currículo, visto que muitas disciplinas tiveram a carga horária reduzida ou foram assimiladas a disciplinas, segundo o conselho resposável pela adaptação, redundantes, enquanto outras foram simplesmente extintas. Ainda não foi dada uma explicação concreta sobre o futuro dos alunos que já cursaram uma das cátedras extintas ou assimiladas, ou que não cursam a faculdade em módulos, limitando-se os porta-vozes da reitoria a afirmarem que cada caso será estudado isoladamente. Resta aguardar a reunião dos estudantes com o reitor, mas sem grandes expectativas, já que não se espera muito de um diretor conhecido por ameaçar (nos corredores apenas, obviamente) cortar bolsas de estudo de alunos caso estes não "andem na linha".

Sobre as balas: fizeram parte da campanha de promoção "Escolha Certa", durante a qual foram visitadas instituições de ensino médio públicas e particulares, onde as balas foram distribuídas aos alunos, juntamente com material de divulgação dos cursos da universidade. Ouvi dizer que na nova campanha do vestibular, em parte frustrada pelas manifestações dos alunos durante a semana, serão distribuídos bombons. gostaria de saber onde encontraram os gênios responsáveis pelo marketing da universidade.

Anônimo disse...

Parabéns pela clareza de interpretação do que vem acontecendo no ensino de Pelotas.O mesmo monopólio foi mantido na educação média pelo São José e Gonzaga até surgir a escola Mario Quintana que apontou a indústria da nota e o cartel desses colégios.

Anônimo disse...

Os alunos reclamam porque não participaram das mudanças. A pessoa ideal para ser o elo entre o alunado e reitoria seria o vice-reitor Dr. Bachettini, pessoa jovem e mais tranquila que o reitor. Aliás, qual a razão de renascer a figura de vice-reitor? Só para acarretar mais gastos com a universidade?
Redução de carga-horária, demissão de professores, mas o que ninguém tem coragem de questionar é a redução dos salários da reitoria (que só aumentou com a figura de vice-reitor), sem falar no bando de ASSESSORES (professores que possuem 40h/a) que não têm para onde ir, mas são amiguinhos de batina ...

Anônimo disse...

Parabéns pela matéria. Gostaria de adicionar porque as medidas não começam com a redução do salário dos funcionarios da reitoria?