
Casais ribeirinhos: seis filhos por família
Paulo Kelbert
Médico Perito do INSS e Psiquiatra
Sala de espera do Prevbarco. Olho aquelas mulheres jovens, pacientemente sentadas no deck do navio. Carregam filhos no colo, amamentam com seios fartos do leite da esperança. Atendi uma mulher de 40 anos, parecia ter 70 pelo desgaste da vida e da enfermidade, queimadura de 3º grau. Concedi um prazo de dois anos de benefício, devido à severa limitação de movimentos. Mãe de seis filhos (média local), perdeu a conta dos que perdeu ou abortou.
Há pouco atendi uma mãe de 43 anos, 11 filhos vivos. Veio receber auxílio-natalidade. A criança em seus braços está anêmica, desnutrida, sofre de Síndrome de Down. A elevada natalidade progride em proporção geométrica nesta região; na sala do navio, nutrízes e gestantes, todas jovens, aguardam a chega dos médicos de bordo. Um contraste com o que vivemos no RS, onde os casais são mais cautelosos em relação ao destino dos filhos. Sofrer nestas áreas do Pará é natural. Criam-se os filhos de qualquer jeito.
O lugar onde estou chama a atenção por gente esfarrapada em contraste com gente engravatada. Religiosos obesos e de gravata, neste calor, pregando palavras divinas aos que possuem aqueles dedos magros da pobreza, na obra de José Mauro de Vasconcelos, o gênio da literatura de Meu Pé de Laranja Lima. Minha impressão é de que quem segura a Bíblia engorda a mão.
A sala do Prevbarco segue cheia. Esperar é uma virtude de nosso povo. Ainda bem que aqui estamos, há tanta gente doente, miséria a ser combatida. Procriar é importante, mas com segurança. O exército dos dedos magros aumenta a cada dia.
* Continua amanhã.
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- Diário de bordo 1




2 comt.:
Bem pertinente a exposição que o Paulo está fazendo da Nau-previdência, pois acaba sendo um relato esclarecedor embora não surpreendente. Navegar é preciso... Não tem sido poucas as ações que buscam adentrar o Brasil e devem ser mesmo reconhecidas e ampliadas.
Dr. Paulo, eu a a Luana nos emocionamos com suas descrições, e com as fotos! Estamos leitoras assíduas, esperando sempre o próximo dia! Abraços, Valéria
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