Domingo, Outubro 26, 2008

Diário de bordo 6 (médico gaúcho navega no Pará)

Até a primeira semana de novembro publicaremos relatos de viagem do médico Paulo Kelbert, morador de Pelotas. Paulo envia textos e fotos de um barco do Ministério da Previdência Social que navega pelo Pará. Dentro da embarcação, médicos e outros profissionais de vários pontos do País atendem populações ribeirinhas que necessitam ser periciadas para obtenção de auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez

Dona Teca: competência no
preparo do baião de dois


Paulo Kelbert
Médico Perito do INSS e Psiquiatra

Dia lindo na cidade de Oeiras.

Como não há segundo turno por aqui, e portanto nem lei seca, a cidade consumiu as cervejas possíveis na noite de ontem. O ruído dos "inferninhos" durou até as 2h de hoje. Existem dois inferninos, com DJ que anunciam as maravilhas da noite. No Jango´s, um tal de Príncipe Negro, anunciado num cartaz elaborado com papel de embrulho e pincel atômico.

Hoje, tomei café cedo com Dona Teca, bem-humorada cozinheira do navio. No desjejum, mamão papaia, banana, pão de leite, frios, café. Coloquei na mesa uma pessegada que costumo comprar na feira da Princesa Isabel, em Pelotas. Os doces cristalizados vão sendo provados pelos presentes. Pelotas se faz representar nos potes. Minha tarefa é de contar um pouco desta cultura admirável.

Depois do café, voltei ao consultório, a boreste do barco, contíguo à cozinha, separado por uma parede metálica. Enquanto atento os ribeirinhos paraenses, sinto chegar - por algum conduto - os aromas do preparo dos alimentos do almoço. Perfumes de especiarias: alho, cominho verde, cebola, pimenta, e sinto uma torturante salivação.

Ontem Dona Teca preparou o prato Baião de dois, o melhor que já provei. Vou tentar conseguir a receita e repassar aos amigos de Pelotas.
Teca, de 64 anos, cozinheira de embarcações, exala simpatia. Emocionei-me de súbito. Ela me lembrou Cecília, empregada de minha infância, que ficou 35 anos trabalhando com minha família, em Porto Alegre. Já não vive mais, uma doença reumática a levou. Está sepultada em São Leopoldo. Associei dois sabores, o do pudim da D. Teca e o da Cecília. Ambas colocam raspas de limão. Cecília era torcedora do Grêmio. Se tinha tempo, ia até assistir aos treinos, via jogos dos juvenis e dos aspirantes e declarava quem seriam os craques. Em seu quarto tinha uma foto do Renato Gaúcho, de encarte.

Dona Teca na cozinha cantava o Trem das Onze. Cecília, devota da Santa de seu nome, costumava fazer suas orações naquela Igreja em Porto Alegre. Incluia em suas preces as vitórias do Grêmio. Se bem a conheci, deve estar preparando um pudim para o menino de Belém. Boa semana para todos.

PS: De presente, envio a receita de Dona Teca.
Minduim, que nota dás a D. Teca?

Receita do baião de dois
(PorDona Teca)










Ingredientes
1/2 kg de arroz
1/2 kg de feijão carioca ou fradinho
1/2 kg de charque gordo cortado miúdo, em molho de véspera e escaldado no dia seguinte para reduzir o sal.
1/4 kg de toucinho picado miúdo para preparar torresmo
1 cebola grande
1 tomate sem sementes
1 pimentão
1 envelope de sazón, pimenta, cominho moido a gosto
1 colher de chá de cúrcuma(açafrão)

Preparo
Derreter o toucinho para separar o torresmo, e reservar. Fritar o bacon e reservar, deixando a gordura na panela. Colocar a cebola, o tomate, pimentão e o charque já escaldado e escorrido. Refogar. Adicionar o feijão escolhido e lavado. Cozinhar em pressão. Quando o feijão ficar quase macio, adicionar o arroz e após 15 minutos de fervura em fogo baixo, temperar com Sazón. Desligar o fogo, e deixar a panela tampada ou enrolada em jornal por cerca de 20 minutos. Adicionar o torresmo, misturar e servir.
Bom apetite. D. Teca bota para tremer o "voltaremos"...


Leia mais
- Diário de bordo 1
- Diário de bordo 2
- Diário de bordo 3
- Diário de bordo 4
- Diário de bordo 5

4 comt.:

minduim disse...

Freud não ousaria explicar, Jung então nem sonharia!
Um Judeu pisquiatra gaúcho, degustando comidinhas embarcado no Amazonas, se aquerenciando com cozinheiras e pescadores e ainda por cima freqüentando inferninhos...
Só aqui no Amigos de Pelotas!
Grato pela da receita, só faltou a manteiga de garrafa e a pimenta arretada do nordeste para autenticar em cartório!
Boa viagem doutor.
Minduim

Isabela disse...

Olá Dr.Paulo Kelbert
Que alegria em ver que está fazendo parte deste "mutirão". Imagino a sua satisfação em estar aí, podendo ajudar estas pessoas que não tem como se locomover até uma Agência mais próxima. Lembro do meu tempo, qdo fiz parte da Unidade Móvel em 1996, indo para Canguçu e atendendo as pessoas de lá, principalmente as pessoas mais idosas, ou com problemas físicos para se locomover. Ficava gratificada, só em ver a alegria e a gratidão no rosto daquelas pessoas. É um sacrifício,pque temos que deixar o nosso conforto, mas vale a pena. Lembro disso até hoje. E o mesmo vai acontecer ao senhor. Parabéns!!! Estou adorando o seu Diário de Bordo.
Felicidades...Ahhhh, eu sou a Isabela (com apelido Bela),já aposentada, que trabalhou no Gabinete do Sr, Tomaz.
Abraços

Anônimo disse...

Bacana, Paulo, lembrares de alguem que faz parte da tua formação de convivio com o mundo... pessoas as vezes desprezadas pelo dia-a-dia fazem muito por nossas impressoes, melor seria que pais e mães acompanhem esse processo, pois hoje em dia que "educa" é a tv... depois reclamam!

Anônimo disse...

O diário do Dr Kelbert está me proporcionando uma terapia sem custos. Com seus relatos , ele está nos dando uma lição, aliás, um baile.
Feliz é quem consegue fazer um baião de dois com a vida: trabalhar e encontrar prazer naquilo que faz. Lá no Pará, num lugar onde muita gente consideraria o fim do mundo... o lugar onde Judas perdeu as botas, o doutor Kelbert cumpre a sua missão de médico e encontra prazer em "se aquerenciar" com os locais e a cozinheira e descobrir o valor e a beleza das coisas simples.