Segunda-feira, Outubro 27, 2008

Diário de bordo 7 (médico gaúcho navega no Pará)

Até a primeira semana de novembro publicaremos relatos de viagem do médico Paulo Kelbert, morador de Pelotas. Paulo (foto ao final do relato) envia textos e fotos de um barco do Ministério da Previdência Social que navega pelo Pará. Dentro da embarcação, médicos e outros profissionais de vários pontos do País atendem populações ribeirinhas que necessitam ser periciadas para obtenção de auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez

PrevBarco: menores
de idade grávidas
por necessidade


Paulo Kelbert
Médico Perito do INSS e Psiquiatra

Diante da falta de oportunidade na vida, jovens com 16 anos e 10 meses são candidatas à gestação. Comportamento perigoso, em busca de dinheiro. Para isso, aos 16 anos, elas ingressam numa atividade econômica, lavoura ou pesca neste lugar. Isto, somado a título eleitoral e filiação a sindicato, dá direito a Segurado Especial.

Engravidar com o objetivo de obter salário-maternidade, pago pela Previdência Social durante quatro meses, se tornou uma "epidemia" por aqui. Uma rápida amostra em um dia de trabalho: de 50 requerimentos, 48 tinham esta finalidade. A sala de espera do Prevbarco está inundada de jovens com filhos no colo, amamentando, algumas novamente grávidas, esperando o próximo filho, pensando no lucro.

Valor do benefício: R$ 1.660. As oportunidades de trabalho, raras neste e em outros lugares, não produzem valor tão alto em ganho. Daí uma explosão demográfica que os programas de assistência não terão controle. Mas os filhos seguem sendo criados em situação precária, a mortalidade infantil é expressiva, a assistência médica não dá conta de tanta doença por desnutrição.

Fui conversar com algumas destas jovens mães, menores de idade, com pelo menos dois filhos. A necessidade imediata de dinheiro criou um costume. Se requerido no INSS, o benefício no ano seguinte ao parto vem em valor único. Todas sabem disso, e a fila cada dia fica maior. Os filhos, porém, pouco usufruem do dinheiro do governo, que serve à vaidade: comprar um barco, motor novo, TV, celular etc. Indaguei sobre educação sexual, paternidade responsável, diálogo doméstico sobre cuidados pessoais, comportamento de risco. As respostas revelam custos sociais e geração de situações que os governantes precisam enfrentar.

Outro dano social grave é o abandono do lar. Homens maduros desprezam as mulheres. Abandonam o lar, somem com uma mulher mais jovem no primeiro barco, e deixam os filhos ao Deus dará. É uma tragédia diária, que resulta em miséria e seus males. A passividade é uma marca registrada. Violência doméstica, alcoolismo, prostituição de jovens, impotência dos pais em prover sustento da família, empurram filhos a destinos trágicos. Este é um lado triste que se situa atrás da bela paisagem do norte...
A Lei de Malthus é clara.
Quem persiste na cegueira?
Educação eficaz é uma saída.

Leia outros relatos
de Paulo Kelbert (foto)

- Diário de bordo 1
- Diário de bordo 2
- Diário de bordo 3
- Diário de bordo 4
- Diário de bordo 5
- Diário de bordo 6

3 comt.:

Anônimo disse...

Belo trabalho, tema contundente, retrata o Brasil que não queremos ver.
Que se pode esperar de pessoas que se criam nestas condições terríveis, igual aos dos Alagados, Favela da Maré, Brasilia Teimosa do Recife, Ilha das Flores aqui em Porto Alegre.
é isto aí Dr. Kelbert, nos mande notícias do Norte, pois nossa miséria é menor que a deles, por enquanto.

Mahlena Borges disse...

Chocante , Dr. Kelbert.
Espero que, diante dos fatos e números que o senhor nos apresenta, as autoridades responsáveis tomem providências para que a assistência social não caia nessa vala do mero assistencialismo produzindo distorções como essas.
Educação, é claro é a saída, mas sugiro já medidas mais drásticas e práticas como o cancelamento do benefício para menores de dezoito anos. Caso elas engravidem, terão assistência do Estado, mas não dinheiro. Esse dinheiro poderia ser usado para se promover uma verdadeira educação para a vida nessas áreas que podemos chamar de risco.
Talvez assim a Lei de Malthus possa ser contrariada.

Sandra disse...

Que realidade dura, que nos arranca das descrições deliciosas que vinhamos compartilhando com o Paulo:uma paisagem tão linda e vidas que valem tão pouco!
Este parece ser,tristemente,ainda,o resumo do Brasil.Concordo com o Paulo,que precisamos de muito ensino,investimento em educação para mudar este quadro e modificarmos esta matemática perversa,este desvalor passado de geração a geração.Parabéns Paulo pelos teus relatos tão sensíveis.