Terça-feira, Outubro 07, 2008

Machado de Assis e Pelotas (Parte 3)

No último dia 29 de setembro fez 100 anos da morte do escritor Machado de Assis. Embora vivesse longe do Rio Grande do Sul, o autor carioca ambienta algumas de suas histórias em Pelotas. O conto abaixo, Diana, é um exemplo. Ele está sendo publicado em quatro partes. A última sai amanhã. O conto é de 1866, primeira fase de Machado. Veja as partes iniciais no final do texto



Diana (Conto)
Machado de Assis

Alberto não respondeu à carta de Luís por não ter certeza do lugar em que estaria este, se em Porto Alegre, se em Pelotas.
Esperou que da parte do amigo lhe chegassem comunicações necessárias.
Mas esperou em vão.
No fim de dois meses resolveu escrever uma carta em duplicata, mandando uma para cada uma das cidades onde Luís podia ser encontrado.

A carta de Alberto dizia assim:
"Alberto a Luís. - Resolvi escrever-te depois de esperar em vão uma carta tua. Esta vai em duplicata, uma para Porto Alegre, outra para Pelotas. Onde quer que estejas lá te há de achar.
Devo crer que estejas em Pelotas, e que o silêncio se explique pelas ocupações em que estás realmente com a procura desse segredo do teu finado padrinho.
Eu já sabia de quanta excentricidade era capaz esse sujeito, mas esta é de mestre, e eu não atino com o fim de toda esta meada.
Por isso mesmo é que é segredo.
O que for soará.
Peço-te que não te esqueças, se for possível, de me comunicares os progressos do trabalho, e, quando chegar a ocasião, a natureza do segredo que faz condição do legado.
Segredo em casa que se não abre há cinco anos... deve ser coisa misteriosa!
Olha lá; não vás esbarrar com alguma daquelas surpresas das fantasias alemãs... Quem sabe se o teu padrinho não tinha comércio com o diabo?
Disse uma tolice, perdoa-me.
Enfim, escreve-me. Sou curioso, como uma criança. Dize-me o que houver e continua a votar-me aquela amizade antiga".

Alberto escreveu as duas cartas, subscritou-as e remeteu-as para o correio. Feito o que, esperou resposta. Dai a algum tempo recebeu uma carta de Luís.
Dizia ele:

"Luís a Alberto. - É segredo e segredo do diabo. Mas não é por ora o que pensas. O do padrinho ainda está por descobrir, pela razão de que ainda não fui a Pelotas. E não penses que é porque não possa. Não; tenho podido ir. Mas que me prende? perguntas tu.
Vais saber..
Prende-me um anjo...
Não te rias, lê até o fim.
Prende-me um anjo com formas de mulher. Ou anjo ou o diabo, que tanto importa esta criatura que conseguiu transtornar-me a razão e fazer do meu coração uma verdadeira ruína a respeito de todos os outros sentimentos.
Amo, meu Alberto, amo!
A primeira vez que a vi foi em uma noite... ah! até agora só a tenho visto à noite, pelo que já lhe e pus um nome simbólico: Diana.
Mas, como dizia, foi em uma noite que a vi pela primeira vez, noite de sexta, noite de luar, noite de sedução: estava linda, como a irmã que então atravessava a planície celeste, calma e suave influindo amor, inspiração, poesia.
Dessa noite para cá fiquei perdido. Bem sabes como nasce o amor; é de súbito. Eu senti que naquele momento o anjo encarregado de escrever no céu a minha biografia (porque eu acredito que há anjos biógrafos no céu) adicionou ao capítulo do amor o nome de Diana.
Diana! sabes tu que beleza é esta? Como encanta, como fascina, como seduz? Tu não sabes nada, pobre lorpa, nessa cidade de lama e de prosa, cativo da prosa e da lama. Aqui, sim; aqui resido com este serafim, a luz, a vida, a poesia.
Reli o que tinha escrito até aqui e tive idéia de rasgar. Não irás tu pensar que eu estou doido ou caí na pieguice? Não creias nada que não seja isto: amo. É a palavra da criação, diz o poeta das 'Orientais'.
Mas deixe-me contar como foi que eu vi e amei esta mulher.
Costumava eu ir tomar chá em casa do major O... meu parente afastado, bom velho que possui filhas bonitas e de excelentes qualidades.
Ia às oito horas e voltava à meia-noite para casa.
Ouvia lá falar muitas vezes da viúva Caldas, mas nunca prestei maior atenção a essa referência, e ouvia como se não ouvisse.
Uma noite, em que fui mais cedo, disseram-me as filhas do velho que esperavam a viúva Caldas para tomar chá.
Perguntei quem era essa viúva Caídas que eu não conhecia. Disseram-me que era a viúva de um homem do norte que para ali fora há um ano, o qual tinha falecido cinco meses antes. A viúva desde que eu lá cheguei andava doente e por isso não tinha ido à casa do major.
Mas achava-se boa e ia lá naquela noite, pela primeira vez que saía depois da convalescença.
Não se trocou a este respeito uma só palavra mais.
Daí a bocado, estávamos assentados na chácara cujo portão dava para uma rua, aparecem a alguma distância uns vultos brancos. Era a viúva e a mãe.
As moças correram a ir buscá-las e eu acompanhei-as por delicadeza, não podendo supor que essa viúva Caídas fosse a mulher destinada a mudar completamente o meu destino.
O luar estava claro, suave, límpido.
Quando me aproximei da viúva e troquei com ela um olhar, senti uma comoção inexprimível. Estive alguns segundos sem desviar os olhos dos olhos da moça. Ela também não desviava os seus.
Tudo se preparava para que este encontro fosse decisivo da minha sorte: a noite era das mais adoráveis noites do sul.
Conversou-se, tomou-se chá e a meia-noite fomos eu, o major e as filhas deste, acompanhar as visitas até à casa.
Diana (não quero dar-lhe outro nome) pareceu não ser indiferente aos sentimentos que me inspirou. Também ela parecia impressionada, comovida. Pela minha parte não sei se disse coisas acertadas naquela noite.
Daí para cá já a vi dez vezes, e sempre de noite. Imagine se a impressão produzida durante a noite podia enfraquecer; tem aumentado antes com força redobrada.
À quinta noite não me pude ter. Procurei um instante em que lhe pudesse falar a sós, e declarei-lhe indiretamente o que sentia por ela. Diana, ou respondesse do mesmo modo, ou fosse ilusão minha, o que é certo é que me disse algumas coisas indiretas assaz explícitas.
Olhe este specimen da nossa conversação:
Dizia eu:
- Quisera ser um coração viúvo.
- Por que? perguntou ela.
- Porque os corações viúvos se consolam, respondi.
- Ah!
E suspirou.
É claro ou não?
Ah! eu creio que estou dizendo alguma extravagância, mas perdoa-me tu que sabes o que é amar, e conheces o meu coração nestas matérias.
O que te posso afiançar é que nunca amei como agora, nem mulher alguma se gabou ainda de possuir o meu coração como esta possui.
Quem dissera, meu Alberto, que vindo buscar uma fortuna e um segredo, levaria uma mulher, isto é, outro segredo e outra fortuna? Não estranhes a frase; estou disposto a casar com Diana, haja o que houver. É paixão doída...
Enfim o vapor está a partir, não posso demorar mais a carta. Adeus.
Dentro de poucos dias vou para Pelotas para ver se descubro que segredo é este de meu padrinho.
Olha, se é alguma fortuna enterrada!
Talvez a felicidade me queira proteger agora de uma vez. Adeus".

(Continua amanhã)
* Este conto tem mais uma parte. Ela será publicada amanhã.

OUTRAS PARTES DO CONTO
- Machado de Assis e Pelotas (Parte 1)
- Machado de Assis e Pelotas (Parte 2)

NOTA DA REDAÇÃO
Joaquim Maria Machado de Assis foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo. Mulato e pobre, além de gago e epilético, ele nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio, em 29 de setembro de 1908. Viveu durante o longo reinado de d. Pedro II, assistiu à proclamação da República e testemunhou os primeiros anos do século XX. É fundador da Academia Brasileira de Letras.

1 comt.:

Anônimo disse...

Machado de Assis, nasceu de família humilde, mas tinha uma madrinha muito rica que o levou para sa companhia. Seus pais, mestiços(negro e poetuguês), conseguiram despertar nele o gosto Pela Leitura.
Quando menino, absolutamente incapaz, viu sua madrinha,irmã e mãe morrerem em seus braços, o que o deixou um adolescente tímido e voltado para seu interior, passando para o papel suas emoções.
Passou a se interessava pela vida intelectual da Corte, onde trabalhou como caixeiro de livraria, tipógrafo e revisor, antes de se iniciar como jornalista e cronista.
É sem dúvidas o maior escritor do Brasil