Sexta-feira, Outubro 03, 2008

Machado de Assis e Pelotas (Parte 1)

No último dia 29 de setembro fez 100 anos da morte do escritor Machado de Assis. Embora vivesse longe do Rio Grande do Sul, o autor carioca ambienta algumas de suas histórias em Pelotas. O conto abaixo, Diana, é um exemplo. Ele será publicado em quatro partes, de ontem a segunda-feira. O conto é de 1866, primeira fase de Machado. As outras partes estão abaixo deste texto.



Diana (Conto)
De Machado de Assis

Em certo dia do mês de março do ano da graça de 1863 encontravam-se na rua do Ouvidor, cidade do Rio de Janeiro, dois rapazes, ambos acompanhados de um criado carregando as respectivas malas.

- Luís!
- Alberto!
- Que é isso?
- A que horas chegas!
- Não pôde ser mais cedo. Venho do caminho de ferro neste momento. Mas tu, chegas também de Minas, ou partes para lá?
- Não chego nem vou para lá. Vou para o Rio Grande. Está a sair o vapor.
- Que volta tão repentina é essa?
- Assim é preciso.
- Isto só pelo diabo. Se eu soubesse de semelhante coisa tinha vindo mais cedo.
- De lá te escreverei. Adeus!
- Adeus!

E os dois amigos, depois de se abraçarem, separaram-se, tomando um para a hospedaria, outro para a praia dos Mineiros.

Alberto foi fazendo consigo as reflexões seguintes:
- Que diabo leva o Luís ao Rio Grande tão repentinamente? Este rapaz tem o juízo a arder...

Tempos depois Alberto recebia a seguinte carta de Porto Alegre, escrita pelo amigo Luís.

"Luís a Alberto.
- Prezado amigo. Só agora te escrevo porque só agora me é dado dispensar alguns minutos. Se fosses alguma destas suscetibilidades que tantas vezes encontrei dava-te outra razão, mentirosa decerto, mas suficiente para acalmar-te o espírito e consolar-te o coração. Mas prefiro a verdade. Eu te conheço, tu me conheces, nós nos conhecemos. Queres então saber que motivo me trouxe ao Rio Grande tão repentinamente? Um motivo simples: receber um legado. Tive notícia de que meu padrinho morrera e me deixara em testamento certa quantia assaz avultada para colocar-me acima das atribulações da vida. Que tal? É ou não uma tigela de maná que me veio do céu? Eu bem te dizia muitas vezes que tinha fé na minha estrela, e que estava certo de que não havia de ganhar fortuna pela simples posição de advogado provinciano. Mas já te ouço dizer contigo mesmo: Que tivesse um legado, concebe-se; mas que fosse ele próprio arrecadá-lo, isto é que eu acho esquisito.

Respondo à tua reflexão:

Podia dar procuração a alguém e ficar comodamente na corte à espera que lá me fosse ter às mãos a quantia legada por aquele chorado padrinho. Se não fiz isto foi por virtude de uma cláusula que o meu referido padrinho incluiu no testamento.

Esta cláusula é a seguinte:

Este legado só será entregue ao meu afilhado Luís depois que ele tiver, por virtude dos próprios esforços, descoberto em certo lugar, situado na casa tal, em Pelotas, um segredo que lá conservo. Deves compreender que eu não podia, estando na corte, descobrir o segredo de Pelotas. Por isso embarquei apenas recebi a notícia. Muitas vezes te falei neste padrinho como o mais singular e extravagante dos padrinhos. Sobre a condição que ele punha tinha eu a curiosidade de saber qual era esta nova excentricidade do velho. E parti. Ainda não fui a Pelotas, mas tratei de indagar que casa era aquela e quem residia lá. Disseram-me que a casa era propriedade de meu padrinho e estava vazia há cinco anos. Isto aguçou a minha curiosidade.

Decididamente temos um mistério neste negócio.

O que sobretudo me causa ainda maior assombro é não haver na cláusula a designação em que lugar da casa se acha o segredo. Será nas salas, nas alcovas, no terreiro, no teto ou no chão? Não sei. Mas o legado vale a pena, e eu tenho forças e tenacidade para levar a obra ao cabo. Disponho-me a partir dentro de alguns dias, munido de instrumentos e acompanhado do meu guasca. De tudo o que ocorrer dar-te-ei conta. Adeus. Não sejas preguiçoso. Escreve-me".

(Continua amanhã)
* Este conto tem mais três partes. A segunda parte será publicada amanhã. A terceira, domingo. A última, segunda-feira.

OUTRAS PARTES DO CONTO
- Machado de Assis e Pelotas (Parte 2)
- Machado de Assis e Pelotas (Parte 3)

NOTA DA REDAÇÃO
Joaquim Maria Machado de Assis foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo. Mulato e pobre, além de gago e epilético, ele nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio, em 29 de setembro de 1908. Viveu durante o longo reinado de d. Pedro II, assistiu à proclamação da República e testemunhou os primeiros anos do século XX. É o fundador Academia Brasileira de Letras.