Sábado, Outubro 25, 2008

Olha o homi aí de novo - a força ambígua do jingle

Ars Longa
Artigo

Um jingle é um gênero publicitário musical, criado nos EUA para vender produtos mediante uma penetração inconsciente. O Brasil se destaca pela criação de jingles. “Lula Lá”, de Hilton Acioli, não ganhou a eleição de 1989, mas seu efeito ajudou na campanha presidencial em 2002.
Nestas eleições municipais, muitos candidatos usaram o jingle da reeleição de Lula, do cantor Lázaro do Piauí, com o lema “Lula de novo com a força do povo”. Na época, a coerência musical (ritmo nordestino, candidato nordestino) refletia a congruência entre o autor da letra e o autor da frase política: “Me deixem trabalhar”, que Lula dizia sobre seu governo tão questionado, e de onde o compositor criou, no segundo turno de 2006, o “deixa o homem trabalhar”.

Agora, os bordões foram clonados por todo o Brasil: em São Paulo (deixa a Marta trabalhar), em Santa Cruz de Goiás (Diley e Chicão de novo), em Itamaracá PE (onde a cantora Gretchen foi candidata), e mais em Natal RN, Parauapebas PA, Parnaíba PI, Acopiara CE, Imperatriz MA, Curiúva PR, Ipatinga MG... Em alguns lugares o autor do jingle nem ficou sabendo.

Nesta onda de identificação com o governo federal, Pelotas foi um dos municípios “ajudados” por Lázaro do Piauí. O Marroni é realmente amigo de Lula, mas também “está com a gente” e quer “continuar o que já fez”. O forró conseguiu esse objetivo de relacionar os dois, mas a genialidade do músico nordestino parece ter levado, aqui, mais no sentido oposto:

1. O eleitorado pelotense tem seus próprios candidatos petistas, mas em geral não é igualmente fã do Lula, por motivos socioculturais.

2. O jingle já estava associado ao Presidente, que queria trabalhar sem tanta oposição. Marroni não estava “trabalhando” agora: significa que, como Lula, também prefere que o deixem tranqüilo? Ou seja: que o deixem onde está?

3. Lula não será reeleito de novo, ele mesmo já disse; então, o jingle com que ele ganhou o 2º mandato tem mais um efeito histórico e não tem hoje o poder de reeleição.

4. No dia-a-dia, aceitamos ritmos e pronúncia nordestinos, mas na política eles não ajudam a ganhar votos. Pela mentalidade pelotense, Marroni precisava remarcar seus traços gaúchos e desvincular-se dos nacionais.

5. A idéia da continuidade não favorecia a “reeleição” de Marroni, mas a de Fetter, que já estava na situação. Em 2006 a letra dizia: “Não troco o certo pelo duvidoso; eu quero o Lula de novo”. Se o inconsciente guardou a mensagem, foi um voto para Fetter.

Lula-Lázaro foi dupla ganhadora. Mas uma boa fórmula artística não se repete com o mesmo efeito.

15 comt.:

Léo Soares disse...

A eleição foi ontem? O Fetter ganhou? eu não sabia! Devo ter dormido por 2 dias e acordei segunda-feira...

Anônimo disse...

Creio que poderiam ser mais criativos e utilizar um jingle novo. Usar um ritmo nordestino num estado como o RS que valoriza suas raízes é, no mínimo, de mau gosto.Aparte,alguns "artistas" da cena local mostraram suas caras no programa do PT e se dizem compositores... (???...) Será que não tiveram idéias para compor um jingle personalizado para a campanha??? Mas, os "marqueteiros" turistas que se instalaram em Pelotas devem saber o que estão fazendo. Vamos esperar para ver.....

Anônimo disse...

Então tá. O rock do Fetter é genuinamente gaúcho, né? Ora, poupe-me!

Anônimo disse...

Que coisa bairrista e preconceituosa! Na hora da diversão os pelotenses dançam forró, sertanejo e não necessariamente ao som gaucho e tradicionalista. Acho que se trata de ridicularizar e menosprezar nossas raízes brasileiras.

Anônimo disse...

Que eu saiba aqui em Pelotas adoram um forrózinho!

Anônimo disse...

Boa analise da letra...

Anônimo disse...

A clientela petista é fixa; para ganhar, é preciso conquistar indecisos, os que não costumam votar na estrela ou no 13 ou no vermelho.
A música é um bom recurso publicitário, mas tem que haver congruência entre letra, ritmo e o candidato em si. Aí o analista tem que entender algo de música, mais que o publicitário visual. O cliente político "adquire" um produto por sua qualidade; é o que se analisa.
Musicalmente, Fetter apostou na sua imagem de caudilho local e relacionado com a globalização (congruente com ele). Por seu lado, Marroni anunciou no jingle: "quero ser como Lula" (desejo ainda não realizado, dependente de um caudilho maior). Isso convenceu os petistas, mas teria que convencer a maioria dos votantes locais.
Havia outra canção, coerente, bonita e amadurecida, mas parecia ter menos força; o candidato é que não estava pronto para ela (segunda incongruência).
Esta foi uma análise a partir da música; se é dolorosa, deve ser porque a realidade tb é.
Resta ver como manejar os índices de rejeição, que já não tem a ver com a arte mas tb requer frieza de análise (coisa rara na política).
Ars Longa

Anônimo disse...

"...uma boa fórmula artística não se repete com o mesmo efeito".

Meu amigo, isso são as urnas que dirão!!!

Niara de Oliveira disse...

Léo tem razão. A crônica é uma avaliação bem construída, mas baseada em suposto desenrolar da história. O Ars Longa se adiantou no tempo. O velho e bom Marx dizia que "o homem é sujeito de sua história", ou seja, a nossa história nós mesmos fazemos.
Ainda estamos fazendo, para o bem ou para o mal. E história, como H e I se conta depois dos fatos ocorridos, não antes.

Anônimo disse...

Não podemos acreditar que certas coisas serão apenas uma repetição de fórmulas - essa coisas são como as pessoas, ou seja, muito peculiares.

Certas coisas abarcam um campo comum, mas não é tudo que abarca, pois não surgimos de uma fábrica com mesmo número de série. Cada caso é um caso, inclusive encontraremos pelo Brasil afora políticos de partidos distintos com políticas muito bem avaliadas...

O Aécio Neves (PSDB)fez uma aliança informal com o prefeito Fernando Pimentel (PT) para apoiar o candidato Márcio Lacerda que poderá não se leger, mas cabe destacar que Aécio possui em suas secretarias pessoas do PT e PSB...

A generalização é formula mais simplória de se avaliar alguma coisa!

Anônimo disse...

Cada caso é mesmo um caso, pois a atual situação do PT em Porto Alegre se dá também pelo fato de Tarso quando prefeito ter abandonado para se candidatar a governador quando prometeu ficar até o fim na prefeitura da capital. Foi sistemáticamente criticado e lembrado de tal promessa, o que desencadeou a sua não eleição a governador (na minha opinião teria sido melhor que o Rigotto, Yeda, olívio, Britto e Collares e Simon). O que gerou instabilidade no eleitor da capital para uma nova gestão.

Mas no entanto o Serra se utilizou do mesmo artifício, porém com maiores agravantes, pois registrou em cartório o compromisso de ser prefeito até o fim. Portanto, penso que cada caso é um caso e depende da mentalidade de determinada sociedade regional.

Sendo que nesse pleito tivemos o Lula muito bem avaliado, enquanto Yeda amarga uma desaprovação maior que a aprovação e Serra possui índices menores comparativamente com Lula.

Alguem consegue explicar esse ornitorrinco?

Anônimo disse...

O materialismo dialético deu os primeiros passos de definição da caminhada humana e como se via o homem socialmente, sendo o homem "objeto" da história e da sociedade.

Os rompimentos com essa útil contribuição nos coloca como senhores de nossas leituras e interpretações, ou seja somos além do um mero fruto de classificação e influencia social, somos promotores desse mundo...

Anônimo disse...

Como foi colocado acima o materialismo dialético colocava o homem como "objeto" e é a partir da fenomenologia de Husserl que o homem passa a ser sujeito (a grosso modo) e não com Marx.

Anônimo disse...

A música nordestina não deu certo para o povo gaúcho.......

Anônimo disse...

As análises feitas por especialistas não são meras opiniões pessoais, baseadas em desejos ou emoções, e sim fruto do pensamento crítico. Podem ser feitas antes dos fatos, e depois dos fatos. Mas não são profecias sobre o futuro. Por isso dizer que as urnas é que devem falar é só uma frase de ordem para não ouvir as análises. Os políticos que escutam os bons analistas não cometem erros básicos.
Marx podia adiantar-se ao seu tempo, mas os analistas de hoje não podem falar? Como então há tanto marxista considerando seriamente o que ele disse há dois séculos?
A política também é uma arte, e requer sensibilidade e inteligência. Cada momento histórico é feito com arte pelos seus protagonistas, mas pode haver fatores comuns. Confundir tudo isso é erro comum no Brasil, onde ainda há muita intolerância e os analistas são desouvidos.
Ars Longa