Marieta CazarréColunista do blog
Correspondente em Madri
Hoje surdo, ele, com 91 anos, se lembra de sua juventude. Nunca conseguiu ser atrevido, fez tudo como manda o figurino: estudou, casou-se, teve filhos, netos, passou a vida ao lado de sua mulher... mas, pensando bem, não fez o que queria. Queria ter sido um aventureiro. Seu maior sonho era ter conhecido Marrocos, seus mistérios, sua gente, seus cheiros e sua música. Sua música, em especial. Durante toda a vida, além do trabalho cotidiano, aquela labuta necessária para alimentar os filhos, foi músico. Tocou de tudo, embora o violino sempre tenha sido sua maior paixão. Passava horas, dia após dia, dedicado àquele instrumento, seu grande amor.
Sua esposa, hoje uma senhora bem velhinha e um tanto quanto louca – falo da loucura saudável, aquela que liberta o ser humano de qualquer recalque social-, sempre amou a música. E foi esse, na verdade, o grande laço que os uniu. Quando jovem foi uma mulher bonita, mas nunca bela. Apaixonou-se por aquele rapaz elegante, de nariz fino e longo, que cheirava sempre à lavanda. “Ele foi um homem que se perfumava”, afirma, toda sorridente e orgulhosa. O amor daquele homem pela música a fascinava. Queria ser amada naquela mesma intensidade, e esse era seu maior desejo.
No entanto, aquele jovem rapaz tinha outros planos. Queria conhecer o mundo, construir uma obra grandiosa, deixar alguma herança ao mundo, fosse qual fosse. Mas tinha medo, não se permitia romper barreiras, não se deixava ser tomado por qualquer impulso juvenil. Era dedicado à família e à música. Nunca dedicou-se a si mesmo.
Durante mais de quarenta anos fez parte da orquestra sinfônica de Paris, era um dos violinistas. E, embora soubesse todas aquelas músicas de cor e salteado, nunca atreveu-se a solar. Queria ter sido solista. Achava que o solo, sim, era uma obra a ser deixada, nem que fosse apenas na memória dos que o assistiam. Mas era um jovem medroso. Ele se nega a falar de amor, mas confessa que amou a música com toda a intensidade que podia haver dentro de si. Agora ele escuta as sinfonias de sua cabeça. E hoje, recém chegado de Marrocos, conta que, durante toda a viagem, escutou sempre a mesma música. Não poderia explicar. Aquele país realmente...
Aos 91 anos, depois de haver realizado seu maior sonho, sente-se como rapaz novamente. Anda falante, sorridente e cheio de vida. Ele sabe que, agora, está livre. Enfim atreveu-se, enfim viveu. Sabe que pode ir, já fez o que tinha que fazer por aqui...
Marieta Cazarré é formada em Antropologia, pela Universidade de Brasília (UnB); em Jornalismo (IESB) e fez curso de Cine-documentário. Você encontra outros relatos de Marieta, que vive em Madri, no blog Filha de Iemanjá




1 comt.:
"Aos 91 anos (...) sabe que pode ir, já fez o que tinha que fazer por aqui" Só porque tinha 91 anos, não significa que não pode mais planejar e realizar sonhos.
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