Egídio PizarroOlho de Lince
Todo mundo sabe o que é trânsito. A gente aprendeu isso fazendo trabalhinhos sobre trânsito na segunda série. O que poucos sabem é que existem vários tipos de trânsito, a saber: trânsito calmo, trânsito movimentado, trânsito caótico e trânsito bailarino - ou circense. Em 1900 e Hebe Camargo jovem, meu pai era motorista da Princesa do Sul e rodou por vários locais do Brasil. Ele dizia que se toda a população de Pelotas se mudasse ao mesmo tempo para Porto Alegre, metade morreria atropelada no primeiro dia. Apesar da distância temporal entre aqueles dias e os de hoje, isso não mudou muito. Costumo pensar sobre a frase do meu pai e acabei chegando à conclusão que ele estava coberto de razão.
Creio não haver uma ligação com a fama da cidade, mas é fato: o trânsito de Pelotas é do tipo bailarino. E, ao contrário do que se pode interpretar pela pretensa escala progressiva que fiz no primeiro parágrafo, o trânsito bailarino não é o pior de todos. É, na verdade, o mais evoluído e próximo da perfeição. É onde motorizados, meio-motorizados (como carroças e bicicletas) e desmotorizados convivem na mais completa harmonia - daí o "bailarino".
Motos dançam entre os carros, que trocam de pista como trapezistas treinados pelo Cirque de Soleil. Carroças e bicicletas representam o romantismo da ausência tecnológica em meio ao progresso, enquanto pedestres fingem estar perdidos em meio ao espetáculo. Apenas fingem. Desviam por instinto de seus colegas de espetáculo sem precisar enxergá-los - instinto adquirido com anos de treinamento e apresentação. Não correm risco de atropelamento, embora aconteça de vez em quando. Errar é humano.
Buzinas e gritos recheados de xingamentos, ao contrário do que se pensa, não são a raiva: são a empolgação de quem pede aplausos por desafiar o perigo e a morte. É o exato momento que uma carga de adrenalina atravessa o corpo do bailarino, quase um artista circense, quando ele apresenta uma manobra mais arriscada.
Nosso prefeito crê que pode acabar com essa arte, jogando meio quilo de asfalto em nossas ruas. Sonha, prefeito. Essa vil atitude não bastará para acabar com nosso trânsito bailarino, o concorrente natural do Tholl, que diferem sutilmente. O trânsito bailarino se apresenta todos os dias, em qualquer lugar, e por vezes cobra uma injusta multa. O Tholl se apresenta de vez em quando, em um determinado canto e cobra um justo preço pelo ingresso.
Papai estava certo: Porto Alegre não está à altura para receber nosso trânsito bailarino.

* Egídio Pizarro, 25, natural de Pelotas, é estudante de História na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Egídio escreve as quintas-feiras no blog. Seu texto, antenado e criativo, tem no humor sua característica mais marcante. Humor dos bons, daqueles que não deixam pedra sobre pedra.




14 comt.:
Que loucura! Vil atitude jogar asfalto na rua...
Admira-me a coragem...ou falta de autocrítica.
Adorei o texto, exceto pela parte do asfalto. Prefiro pensar que o prefeito quis aperfeiçoar o nosso ballet, deixando todos deslizarem com maior facilidade e agilidade... Afinal, as apresentações continuam as mesmas. rss
Impressionante. Terminei a leitura do texto e saí de carro. Não havia dirigido três quarteirões e participei de uma coreografia que, tenho certeza, estava ensaiada pela pedestre/bailarina. Ela atravessou até metade da pista/palco e, numa fantástica performance de domínio espacial e corporal, parou. Foi a deixa para que eu cruzasse e ela se jogasse diante do carro, obrigando-me a desviar rapidamente. Que obra! Quem assistiu deve ter gostado, pois todos ficaram boquiabertos. Pena que não recebi cachê nem aplausos...
Bailarinos com certeza!
Contudo a coregrafia é perpetrada por motoristas que insistem em estar sempre na velocidade acima da adequada, protagonizando esta ópera espetáculosa.
Quando Kelbert voltar do seu périplo amazônico, vou pedir que el e nos faça entender, qual o aspecto freudiano desta compulsão por correr, chegar na frente, demonstrar macheza, etc...
Minduim
Parabéns!!! belo texto!!!realmente somos diferentes até no transito. Só não gostei da dose do ranço esquerdista(ultrapassado). Acho que é,ainda, efeito da terrota nas eleições.Mas isso passa, tão logo nosso presidente neo-liberalista começe a comprar bancos falidos.
Interessante o comentário anonimo - viva a democracia - das 18.25...
O ranço esquerdista ultrapassado ao qual ele se refere acaso é o mesmo "esquerdismo" ao qual o mundo inteiro clama neste momento de crise finenceiro-especulativa, esperando que OS ESTADOS APODEREM-SE DO SISTEMA FINANCEIRO PARA GERAR ESTABILIDADE?
Ora, ora... Marx já dizia - há muito tempo - que o capitalismo na sua forma bárbara provocaria sua própria implosão...
Gente pequena esta ainda preocupada com esquerda e direita, enquanto TODOS os representantes do povo em satolep sãp CENTRISTAS!!!!
A mediocridade da massa cidadã pelotina é só um dos fatores de estagnação político-econômica-cultural...
Para mim um trânsito "bailarino" é caótico (e pode ser considerado o pior de todos), pois nem todos foram ao ensaio e muito menos dançam no mesmo compasso. O pior de tudo é que no meio desse baile, pessoas morrem...
Eu faço questão de dar aquele intervalo na hora de atravessar com o sinal fechado. Se ele abrir no meio da minha caminhada, não acelero nem a pau!
Muito bom o texto, só faltou mencionar os ciclistas que transitam pela Osório em pleno horário de rush, havendo a ciclovia na Andrades. E alguns ainda vão lado-a-lado conversando, totalmente alheios a tudo. É uma maravilha! Você consegue realizar coreografias lindas, se espremendo entre eles e os ônibus que utilizam toda a pista.
Concordo o trânsito em nossa Cidade é um circo.Mas o que ocorre quando as pernas dos bailarinos não respondem mais?Para a omissa Secretaria(?) de trânsito,nada importa.É hora do prefeito (reeleito)consultar um engenheiro de trânsito,que por certo recomendará a colocação de semáforos na Gal.Osório e também lembrar as palavras de Einstein:"...assim é muito mais culpado,aquele que tendo a obrigação de fazer,não o faz"
Interessante que até quando se fala em trânsito os maragatos conseguem ser atacados pelos chimangos e os chimangos acham razões para falar dos maragatos... não importando de que lado da rua você esteja sempre há como ser caótico e não racional na princesa do sul. Claro! O sinal estava aberto para mim!
Parabens Egix!! grande! Não se abale pelos trogloditas que se acham poliglotas.
O Fetter já determinou - Azulzinho é para orientar e não para multar!!! Parece piada isso em Pelotas. O que não se faz para garantir uma meia dúzia de votos nessa cidadizinha falida...
orientar????? então a multa que recebi deve ser desconsiderada?????
aliás, impressionante a "agilidade" do azulzinho em me multar...
Eu estava infringindo a lei, reconheço, por isso não recorrerei...
mas durante a "campanha de prefeito", várias vezes isso aconteceu, comigo e com outros que presenciei, nas barbas dos azuis, e nada aconteceu...
no primeiro dia pós "campanha de prefeito", fiu multado, repito que estava errado, mas antes podia????
... você já notaram que só em Pelotas o semáforo (sinaleira) fica do outro lado da rua para que os que vem na transversal (perdicularmente) possam olhar quando o sinal está amarelo e possam partir?
triste.
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