Enquanto eu fotografava a cena, Santin, que vinha de bicicleta, parou do meu lado para observar a movimentação.
"Eles não precisavam interromper o trânsito para fazer isso; podiam ter parado o caminhão sobre o passeio central da avenida e fariam o mesmo trabalho", disse-me ele, movendo ao alto seus vivazes olhos azuis, como quem pensa no que acabou de falar.
"É verdade", concordei.
Um pouco mais de conversa e descubro que Santin nasceu na colônia - zona rural. "Naquele tempo, não tinha invasão de terra, tudo era muito diferente. Meu pai, minha mãe e nós morávamos e trabalhávamos em terra cedida pelos proprietários, paga com uma parte da nossa produção". Santin conta que, quando completou 20 anos, veio morar na cidade. "Nunca mais voltei pro campo", disse.
Perguntei se usava a internet. Ele disse que não muito, só quando as netas fazem questão. Aproveitei e estendi a ele um cartão de apresentação do blog Amigos de Pelotas (foto).
Perguntei a ele seu nome, ele perguntou o meu.
"O Sr. é filho do seu Rubens, da sapataria Solimar?"
"Sou, respondi. Agora está aposentado".
"Conheci muito o seu pai; eu trabalhava num colégio de freiras e levava os sapatos delas para consertar na sapataria. Teu pai me fazia rir, imitando os sermões do padre Farina com sotaque religioso. Ele está bem?"
"Está com 80 anos como o senhor, e bem, obrigado".
"Ele anda de bicicleta?"
"Não, mas caminha bastante".
Antes de partir, Santin falou: "Mande um abraço para ele"...




4 comt.:
Linda conversa, Rubens. Parabéns!! Se todas as pessoas desse o real valor aos idosos, o mundo seria bem melhor e muita gente aprenderia muita coisa importante como respeito, dignidade, honradez etc.
Maturidade e sabedoria são mais comuns nos mais velhos que nos mais jovens (as virtudes dos jovens são outras, mas é bom que saibam ouvir o que diz a experiência). É uma forma de se preparar para subir essa escada ao céu. Indício de que o Rubens está amadurecendo: dialoga com o idoso e o inclui no blog com carinho. Pelotas permite isso; a cidade te acolhe e te ensina, como diz Ramil em "Satolep".
Conheço o Sr. João Santin. Fui seminarista e ele trabalhou durante muitos anos como mordomo do seminário de forma voluntária. Adorávamos ajudá-lo a descarregar as doações de diversas caixas de frutas e legumes que o seminário ganhava do Bonnow, todos os sábados de manhã.
Seu João tem um espírito esportivo e jovem invejável. É um pescador de primeira mão. Já fui pescar várias vezes com ele.
É um típico italiano que preza pelos valores familiares e cristãos. Tenho orgulho de te-lo conhecido, ouvido seus conselhos e compartilhado diversos momentos de alegria nas pescarias, numa época em que eu vivia longe dos meus pais.
Grande abraço Seu Santin. Nunca me esqueço de uma vez, que o senhor, na ânsia de chegar logo no açúde, despencou barranco abaixo, e eu aproveitei a clareira aberta e fui atras.
Grande abraço ao seu João.
Charles
Ah, se todos os cidadãos "senis" fossem como o seu Santin...
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