Crítica Cultural
Com o retorno a Pelotas da jornalista Kátia Reichow, em 2005, surgiu a cidade o restaurante-livraria-cibercafé Dom da Palavra, na paradoxal esquina da Dom Pedro II com a Quinze de Novembro, para valorizar a identidade pelotense, tanto através da alimentação como da palavra escrita, falada e cantada, alimentos do espírito. O “dom” do título era o nosso último imperador, que, além de ter seus próprios dons, foi derrubado justamente no dia Quinze de Novembro (119 anos amanhã sábado).
Após alguns dias fechado, o Dom da Palavra reabriu nesta quarta 12, sob nova direção, mantendo o nome, o objetivo de valorizar Pelotas com seu cardápio cheio de nomes típicos, e a identidade de barzinho que consolidou neste tempo. Os usuários não deram suficiente força à livraria, mas bastante aos shows musicais. A casa ocupou uma banca na Feira do Livro de 2007 e quis também estar presente na praça de alimentação, mas a duplicidade da proposta, mesmo coerente, não vingou na terra da cultura, do charque e dos doces. Na ocasião, o Instituto Simões Lopes Neto acolheu as mesas do Dom da Palavra, num gesto poético e humano, como o Capitão teria feito (outro que gostava de diversificar iniciativas).
A livraria não teve sucesso comercial e o restaurante sofreu aquele tropeço, ao tentar integrar num só local as duas vertentes que a Feira do Livro pretende reforçar, ainda que num funcionamento paralelo: leitura e música. E a Dom da Palavra ainda acrescentava vantagens sobre a Feira: mesas para ler grátis, uso de internet, sala para reuniões artísticas e debates com escritores. Uma grande idéia, generosa e factível, foi rejeitada pela indiferença do povo e pela rigidez da autoridade. Ninguém queira competir com a vetusta Feira sem enfrentar resistência. Dom Pedro foi expulso de sua própria terra da noite para o dia, sob razões de conveniência social.
Após as recentes eleições, o deputado federal Tarcísio Zimmerman elegeu-se prefeito em Novo Hamburgo; a sua vaga em Brasília, como sabemos, foi ocupada por Fernando Marroni. Kátia havia trabalhado com Zimmerman na Câmara, e agora está por iniciar nova etapa de sua vida, como jornalista, junto à Secretaria de Comunicação de Novo Hamburgo. Não abrirá um restaurante, mas seguirá exercendo seu próprio dom da palavra. Pelotas conserva o restaurante da Dom Pedro, mas esta ex-livraria ficou sem palavras.

Com seu jeito caladão, o pesquisador Ars Longa circula pelos espetáculos, analisando a Cena Cultural. A coluna de Ars sai toda sexta. Mas ele sempre dá jeito de oferecer mais de seu talento observador, mandando textos para outros dias.


15 cmt.:
"paradoxal esquina" ? eu gostaria de saber o que tu quiseste dizer com isso. Olha, to quebrando a cabeça e não estou encontrando um sentido para tal...
Katinha, querida! Vou sentir muita saudade de ti, do Farias e de teus filhos, pessoas que conheci ao freqüentar a Dom e que, hoje, estão muito bem guardadas no meu íntimo.
Já te desejei sucesso na nova empreitada, mas gostaria de reiterar: sentirei falta de todos vocês!
No entanto, num último gesto de extrema generosidade, característica que emana sempre de ti, "deixaste-nos" pessoas igualmente queridas, gentis e atenciosas como são os teus funcionários, agora, proprietários da Dom.
Sucesso aos que vão!
Força, vontade e confiança aos que ficam para dar continuidade ao projeto inicial da Dom!
Te adoro, Katita!
Bjs! Tê!
Teresinha Brandão
Para uma coluna semanal, esta até que é bem diária.
Paradoxal esquina: (para o Anônimo que não entendeu) é um paradoxo uma homenagem e uma "desomenagem" na mesma esquina.
Sobre "Ninguém queira competir com a vetusta Feira sem enfrentar resistência.", mais uma oportunidade para alfinetar a prefeitura.
Pô, paradoxal esquina foi ótimo! E isso que foi explicado depois (nem precisava), mesmo assim teve gente que não entendeu...que coisa.
Não me convenceu !!!
Vamos ler bem o que ele escreveu:
...em 2005, surgiu a cidade o restaurante-livraria-cibercafé Dom da Palavra, na paradoxal esquina da Dom Pedro II com a Quinze de Novembro...
ele já considerava tal esquina paradoxal antes do surgimento do estabelecimento.
Mas não faz mal, ficou bonito.
Sim, a esquina é paradoxal em si mesma: o imperador, mesmo tão longe, se encontrou aqui com outro Quinze de Novembro. Mais de um século depois, o outro Dom teve outra caída, sugerindo a influência de vibrações históricas.
O certo é "surgiu na cidade" (o editor do blog faz sua revisão também, após a minha).
O amigo da SeCult gostaria que a crítica cultural não tivesse alfinetadas; somente elogios à competência dos artistas? Sem alfinetadas duras, um elefante não reage (não; não é você o objetivo delas). Elefante pode ser a mentalidade do governante, ou também a do povo inteiro que elege um elefante. Se este não entende uma crítica para que ele faça seu dever de casa, então as alfinetadas gerarão um fato político que ele, sim, entenderá.
ARS LONGA
Dando continuidade ao debate que ainda está amistoso e espero que continue...
"O amigo da SeCult gostaria que a crítica cultural não tivesse alfinetadas; somente elogios à competência dos artistas?"
Não é isso. Mas foi oportunista, do meu ponto de vista. Falei porque criticas muito a Feira do Livro. Às vezes suspeito do propósito. Nada pessoal.
Confesso que as criticas me fizeram freqüentá-la bem mais. Fui para procurar os tais problemas com o olhar mais crítico que eu conseguisse ter. Encontrei coisas para mudar, mas vi uma Feira bem mais integrada com a população do que eu pensava que fosse. E bem menos apagada do que eu mesmo estava vendo. Vi um aglomerado de pessoas em uma das livrarias e perguntei a um vendedor: "não roubam?" Ele disse que sim. Foi aí que a lembrança das críticas me levou a outro "espaço da mente", que subitamente se interessou por um livro... Outra história, que não vem ao caso.
Mas continuêmos discutindo, é muito importante.
E os que não entenderam o paradoxo podem ler e reler o texto. Está muito nítido.
Saudosa Dom da Palavra...
Vitor, achas a feira perfeita e não sujeita a críticas simplesmente por ter o dedo da prefeitura na organização? Impressionante!
Não, Léo Soares, basta ler o que eu escrevo para ver que não penso isso.
O mais importante ninguém fala. Mais uma pessoa de qualidade chegou em Pelotas para oferecer cultura e a cidade disse: NÃO! Vá exercer o seu talento noutra comunidade. A propósito, alguém sabe dizer quem proibiu a participação da da "Dom" na feira do ano passado? Deve estar feliz! Aqui em Pelotas parece que é crime alguém ter uma empresa. Para alguns grupinhos intelectualóides - que passam a vida mamando nas tetas do Estado- fica fácil falar de quem quer empreender! Para criticar tem mil. Para oferecer ajuda ´conta-se nos dedos! Boa sorte Katia! Mais um pelotense desgarrado!
O anônimo que assinou "pelotense desgarrado" acertou em cheio.
Essa é a questão maiúscula de Pelotas hoje.
A imagem do imperador pode servir para entender que aquela minha frase não se referia especificamente à Prefeitura. Substitua "Feira" por "Pelotas":
"Ninguém queira competir com a vetusta aristocracia local sem enfrentar resistência".
Nem o imperador se salvou.
Não, Pelotas não gira em torno à Prefeitura. Há mais vida além do nosso umbigo.
ARS LONGA
Muito bem colocado, Teresinha. Voz amorosa de mulher. Sorte, Kátia!
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