Nossa Feira ressurgiu e tem tido aceitação popular, mas ainda parecemos envergonhados por ser um foco cultural, e tudo indica que a organização oficial não está sendo bem conduzida
Livros interessantes, como Vampiros: mas falta à feira
efervescência cultural
Ars Longa
Colunista de Cultura
Nesta primavera tão amável, o encontro na praça Osório se faz amistoso, entre pessoas das mais variadas origens. Os livros são o ponto de partida para muitas conversas e contatos. No entanto, para ser uma feira cultural de verdade, ainda nos falta muito. Nossa Feira do Livro transcorre junto com a de Porto Alegre, mas não se conecta com a sua efervescência cultural. Pelotas fica com sua própria vida artística, que tem bom número de escritores próprios, músicos e artistas plásticos de bom nível, mas não consegue, ainda, dar coesão a todo seu material humano e, muito menos, gerar um foco atrativo dos talentos da Zona Sul. Nossa Feira nem chega a ser um evento artístico completo, nem uma boa feira literária.
Passo Fundo tem até hoje, segunda 10, sua 22ª Feira na praça Marechal Floriano, com uma dúzia de bancas. Em Farroupilha, ontem domingo 9 concluiu a 23ª Feira do Livro, que durou dez dias, com uma palestra por dia e o patrocínio do escritor Moacyr Scliar. Caxias do Sul organizou em outubro sua 24ª Feira na praça Dante Alighieri, e lá esteve autografando e palestrando nosso Vitor Ramil. A de Erechim é focada como atividade educativa, em salões da universidade local; foi em setembro, com cinco dias de duração. A de Bento Gonçalves foi em maio, durante doze dias, com 25 livreiros e 30 escritores.
Nossa Feira não tem sessenta sessões de autógrafos por dia, como Porto Alegre, mas conta com a produção mais expressiva do interior do Estado, com Academia de Letras, grupos poéticos, tradição literária, cursos de Letras, livrarias, sebos e editoras. Chegamos ao número de trinta bancas expondo na praça Osório, e temos suficientes escritores locais para patrocinar o evento a cada ano. Podemos dizer que temos Feira do Livro desde 1960, pouco após o início da iniciativa porto-alegrense, e que, depois de um período desértico, nossa Feira ressurgiu e tem tido aceitação popular, mas ainda parecemos envergonhados por ser um foco cultural, e tudo indica que a organização oficial não está sendo bem conduzida.
Precisamos de uma feira literária onde a leitura seja um fenômeno vivo, de interesse permanente, e relacionado com todas as áreas humanas. Não precisamos desta espécie de museu-loja ao ar livre, onde há boas vendas, mas com maioria de livros antigos e onde o espírito do povo não fica edificado pela arte e pela educação. Precisamos de uma administração com ampla visão cultural, que dê liberdade e coordene a criatividade dos pelotenses. Precisamos de uma Feira cultural que nos enriqueça e não nos envaideça.

Com seu jeito caladão, o pesquisador Ars Longa circula pelos espetáculos, analisando a Cena Cultural. A coluna de Ars sai toda sexta. Mas ele sempre dá jeito de oferecer mais de seu talento observador, mandando textos para outros dias.




14 comt.:
Não necessitamos apenas de uma feira literária onde a leitura seja um fenômeno vivo, mas, também de uma feira que ocasione maior inclusão das classes menos favorecidas de Pelotas. Não há dúvidas de que nos atuais moldes, a Feira do Livro de Pelotas é elitista, reflete toda a arrogância de uma burguesia falida que vive das histórias do passado, que se alimenta de sobrenomes pomposos, que nada mais são do que um grande conjugado de sílabas e consoantes. Somente com um evento literário inclusivo, com preços acessíveis, é que Pelotas caminhará rumo ao futuro da inclusão social.
Discordo do anônimo das 11:32.
A Feira do Livro não é elitista. O acesso é livre, há livros de todo preço, coleções pockets, saldos, etc. Há shows gratuitos, alimentação com preço acessível.
Por que reflete a arrogância de uma burguesia falida? Não entendi essa. Parece frase feita.
Vive das histórias do passado??? Favor dar exemplo, porque não vejo nada disso.
Se alimenta de sobrenome pomposo? Certamente devem ter alguns, mas a Feira não é uma coluna social do Pelotino. Longe disso.
Prezado Anônimo: quanta má vontade com a Feira do Livro!
É bom lembrar que a feira de porto alegre recebeu,só do governo do estado,mais de 700 mil reais.Aí facilita...
Má vontade não só do anônimo, mas do próprio colunista. Gostaria de saber onde está sendo mal conduzida, porque eu faço parte desta organização e me interesso a respeito dos pontos onde temos deficiência, para poder corrigir.
Pobre colunista...a cegueira causada pelo excesso de arrogância da classe dominante pelotense não os deixa ver sequer "um palmo a frente do próprio nariz". É bem verdade que o acesso à feira é livre, contudo, o abismo que separa as camadas sociais de Pelotas é tão profundo e extenso que não há que se falar em livre acesso à feira. Os espetáculos gratuítos não refletem a realidade social de Pelotas e região, muito pelo contrário, pois aqueles que passam pela referida acabam por acreditar que Pelotas é um grande paraíso onde todos são iguais e não existem os dominados e alienados sociais. Quando a realidade é bem diferente do imaginado. Meu caro colunista, sobrou até para o senhor...mas o que esperar da pseudo-burguesia?!
Também gostaria de ver aqui críticas mais construtivas, com propostas ou sugestões claras para melhorar a feira.
Participei do evento de Porto Alegre nos últimos quatro anos e vejo o abismo que divide as duas feiras.
O problema é apontar culpados, sem se ter idéia de onde está o erro.
Eu não sei o que é... mas em Porto Alegre existe uma filosofia de feira cultural... de quem compra, de quem vende, de quem participa.
As melhores lembranças que tenho de Porto Alegre estão ligadas à feira. Grandes amigos que fiz lá. Conheci pessoas incríveis, pessoas que contavam histórias do passado também, e que sabem que esse país tem futuro... gente que acredita na melhora e por isso luta para manter viva a feira do livro. Aqui em Pelotas é assim também, mas temos um longo caminho a trilhar, RESPEITANDO OS QUE ACREDITAM E FAZEM ESSE EVENTO.
Salvo decisão contrária, havia uma resolução do COMPAM proibindo a realização da feira do livro na Praça Cel. Pedro Osório devido aos danos causados às árvores do local. Na época foram sugeridos outros locais como o Largo Edmar Fetter ou Parque da Baronesa. Eu pessoalmente sou contra esta decisão deste Conselho, mas... seria um ponto a ser esclarecido.
Encontro dezenas de superestimadas estrelas locais e quase nenhum escritor com obra capaz de extravasar os limites regionais.
Fico triste.
O objetivo parece ser a festa, e não a literatura.
Pô gente, mas não se pode falar mais nada! Acho que o Rubens está certo qdo. faz a crítica em relação a nossa Feira, qual o problema? E não existe nada com livre acesso nesta vida! Gente, não existe nem o direito de ir e vir que tantos juizes gostam de se respaldar. Com a prática de cobrança de pedágio até este direito já foi pro brejo. É um evento elitista sim, não tenho dúvidas disso, mas nem por isso não deve acontecer. O colunista apenas apresentou alguns fatos que são verdadeiros, não é preciso pisar nos calos de ninguém por isso.
Esclarecendo, a crítica não foi feita por mim, mas por Ars Longa, nosso colunista que escreve com heterônimo. Mas eu concordo com ela. Ao me manifestar assim, não me sinto ofendendo ou menosprezando ninguém, mas contribuindo, com minha modesta opinião, para fomentar o debate das idéias. Um abraço.
O último parágrafo assinala direções (v. também o post que escrevi quarta-feira passada). Nas denúncias, estão implícitas soluções, e tentarei não deixá-las muito explícitas, ou a autoridade as implantará verticalmente, como gosta de fazer.
A inclusão social do povo leitor é um tema real, se reflete na Feira, mas é muito mais amplo; ou seja, escapa à minha análise.
O que quero dizer é que a Feira não inclui os produtores de literatura enquanto artistas; somente os inclui como produtores de objetos comerciais. Assim, a Feira até será um sucesso de vendas, mas não será fonte de cultura ou educação.
O primeiro anônimo reflete também um preconceito antielitista, que gostaria de excluir alguns criadores. Se a arte está viva e livre, então inclui a todos.
Os livros poderiam ser grátis, ou até poderia não haver livros. O problema entre nós é que as idéias não fluem em diálogos e novas criações. Manda-se e desmanda-se.
Farei mais críticas e darei menos soluções. Olhos mais abertos tomarão melhores decisões.
ARS LONGA
Acabei de escrever uma resposta enorme e minuciosa em relação ao último parágrafo que, ao meu ver, não aponta direcionamentos, mas põe pontos que deveríam ser discutidos em busca de uma solução substancial. Desisti e apaguei.
Fiz isso porque eu mesmo me reconheço por uma enorme falta de tato, que me faz passar vergonha.
Apenas quero dizer que é tremendamente injusto dizer que a organização da Feira está sendo mal conduzida. Tenho que dizer, porque acompanhei e acompanho o processo de que faço parte. Estamos dispostos a discutir idéias firmes e colocá-las em prática.
Quero que possamos abrir aqui uma discussão que poderá mapear todos os problemas reais da Feira e tudo o que foi proveitoso desse percurso, sem criticas embasadas apenas em como "parecemos" e no que, por isso, "tudo indica". É sempre bom pensar um pouco onde se está pisando antes de disparar ofensas públicas.
Esqueci: não temos muito dinheiro. O cachê para trazer escritores e artistas vem dos cofres públicos e é cada vez menor, porque a prefeitura anda sempre em contenção de gastos, apesar de uns gastos que não concordo.
E não sei se pagaram a casa da Barbie. Até onde eu sei, não.
A feira do livro a cada ano está mais fraca. a de PoA entrou na LIC. A de Pelotas quase conseguiu entrar (em 2003? 2004?). Agora, infelizmente, não poderia nem tentar.
Fico com pena do pessoal que trabalha com boa vontade para a feira acontecer, masisso não basta, nem nunca bastou: precisa haver estratégia cultural, e isso tem de vir da proposta do governo do município: é uma ação integrada a política cultural.
Não há política cultural, como poderia haver melhora da feira?!
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