Sexta-feira, Novembro 21, 2008

O melhor e o pior da Feira do Livro de Pelotas

Ars Longa
Crítica Cultural

Até ontem à tarde, seguiam na praça Osório a banca da Livraria Vanguarda e o estúdio da Federal FM, restos mortais da Feira. Resta a saudade, mas se requer a avaliação, pois os eventos populares se planejam todo o ano, e ficam sendo parte da mentalidade. A conclusão dos organizadores é comercial: a Feira foi um sucesso pelo alto nível de vendas. Mas as pessoas lêem mais, pensam melhor, amam a arte?

Nota A para o que já está bem: o profissionalismo dos atendentes nas bancas de livros e de alimentação, o respeito aos direitos do consumidor, a segurança de dia e de noite.

Nota B para o que tem melhorado: a produção literária local, o espaço para autógrafos, o som e a gestão no palco de shows, a preparação dos restaurantes, o website da Feira. O apoio da imprensa é de boa qualidade, mas ainda revela uma pobre cultura literária entre nós: a Feira é tratada como mais uma notícia local (90% dos escritores, nosso patrimônio humano, são ignorados pela mídia). Nota C para as falhas: nosso isolamento (quanto a lançamentos nacionais e a visitas de famosos), ausência das artes plásticas, trânsito de cães na praça de alimentação.

Nota média para o prefeito, que pertence à Academia Pelotense de Letras mas só esteve ali para os aplausos da inauguração; na reeleição, prometeu “revitalizar e popularizar a Feira do Livro” (Informativo Compromisso com o futuro), e vamos pedir que se cumpra essa meta. Reprovação para os grandes erros:

Por que se localizou o miniauditório defronte ao palco de shows e foi fechado de repente, prejudicando a programação já feita?

Por que houve um estande institucional vazio?

Por que se anunciaram homenagens e não foram trabalhadas?

Como chegou a ser autorizado um folheto cheio de erros e sem informação sobre as atividades paralelas?

Por que a desconexão entre a Câmara do Livro e as administrações de cultura, comunicação e turismo?

A função das cabeças não é impor autoridade, asfixiando a cultura, mas sim cuidar do que a comunidade precisa, com respeito pelos criadores. Pelotas pode e merece uma gestão cultural eficiente.


Com seu jeito caladão, o pesquisador Ars Longa circula pelos espetáculos, analisando a Cena Cultural. A coluna de Ars sai toda sexta. Mas ele sempre dá jeito de oferecer mais de seu talento observador, mandando textos para outros dias.

4 comt.:

Victor Albaini disse...

Amigo Ars Longa, venho novamente esclarecer algumas coisas. Não quero isentar a SeCult de qualquer responsabilidade, mas informar algumas coisas importantes.

O conteúdo dos estandes é, até certo ponto, de responsabilidade de quem os aluga. A organização da Feira e a Secretaria de Cultura intervém quando há alguma irregularidade.

A proposta para o Miniauditório era diferente do que acabou sendo executado e, por isso, por estar "concorrendo" com o som do palco, alguma coisa acabou sendo cancelada, de fato. Além disso, mais tarde, se optou por utilizar outras áreas, como o estande dos autógrafos, para ampliar o espaço da praça de alimentação.

O estande institucional vazio de que falas, imagino que seja o da UFPel. Bom... Como aluno, também fiquei indignado. Mas enquanto organização, não poderíamos deliberar sobre o que a Universidade realiza enquanto estivesse de acordo com as normas pré-estabelecidas.

Não entendi muito bem a parte das homenagens que citaste. A questão do folheto, acho que já discutimos bastante.

Sobre a desconexão, não me sinto nada a vontade para falar nisso, mas gostaria de dizer que fomos surpreendidos. Nos outros anos eu acompanhei de fora, ainda não estava na SeCult, mas sabemos que sempre deu certo. A diretoria da Câmara neste ano mudou, mas não quero apontá-los como culpados. Apenas acredito que faltou diálogo, quando se esperava que aquela diretoria cumprisse o mesmo planejamento de anos anteriores.

Mas todas as críticas estão sendo avaliadas e são muito bem-vindas, visto que não há agressões, apenas cobrança.

Abraço.

Francisco Antonio Vidal disse...

Os cães não lêem, mas mostram com sua presença pacífica que a situação é de encontro social. Eles próprios, em sua inocência, fazem a denúncia de nossa passividade iletrada.

Anônimo disse...

1.Faltou diálogo entre as partes para informar-se bem e não pressupor nada. Na área política é fundamental unir-se e não fragmentar-se.
2.Faltou planejamento, para saber colocar os estandes nos lugares adequados: autógrafos, artesãos e miniauditório (os artesãos tb tinham som próprio e concorriam com o palco oficial). Tb deixar uns 2 m de distância entre as bancas nas alamedas, e para o público se mover, pelo meio.
3.Faltou orçamento para melhores instalações (alimentação, miniauditório e autógrafos).
4.Faltou profundidade para elaborar as homenagens (Lobo da Costa foi lembrado no Sete de Abril; a Bossa Nova só foi mencionada).
5.O estande vazio não tinha identificação (não sei se seria da UFPel) mas faltava o institucional da UCPel.
6.Ouvi mais de uma reclamação de artistas pelo gesto autoritário de cancelar atividades. Não quis denunciar isso aqui, mas o Diário da Manhã publicou uma carta de alguém indignado pela atitude do Secretário. Mas as verdades terminam gritando sozinhas.
7.Senti falta de estandes dedicados à leitura, à imaginação, aos escritores, poetas (coisas que não dão lucro mas são o motor da arte). Isso é indício de falta de amor pela literatura (o negócio é vender).
8.A única "celebridade" era de Pelotas e palestrou fora dali, no Simões Lopes (Vitor Ramil).
9.Em 2005, o show que mais atraiu público foi o da Orquestra e do Coro Música pela Música. Pelotas tem muitos talentos e não estão se manifestando.
A cobrança não é só pela promessa eleitoral, mas porque Pelotas é um centro cultural na zona e não está valorizando-se. Santa Vitória do Palmar cancelou a sua Feira do Livro, que seria em dezembro próximo, por falta de orçamento. Nós, que não temos tanto isolamento geográfico, deveríamos estar em condições de apoiá-los (mas por ser os prefeitos de diferentes partidos uma aliança cultural fica impossibilitada).
ARS LONGA

Victor Albaini disse...

Não disse que a cobrança seja por promessas eleitorais, nem sequer pensei em questões eleitorais. Falo de trabalho. A UCPel achou muito caro o valor do estande e só colocou a Educat. Faltou verba? Não sei.

Na minha opinião, não devería haver tanta função em torno do palco. Infelizmente, essa já se revelou a maneira mais eficiente de chamar as pessoas. Gosto muito do Vitor Ramil, mas essa história de celebridade me deixa transtornado. A Feira é do livro, não de shows e celebridades.

"1.Faltou diálogo entre as partes para informar-se bem e não pressupor nada. Na área política é fundamental unir-se e não fragmentar-se." Que espécie de retórica é essa? Não contribui com nada. Indiretamente, estamos sendo taxados de incompetentes por não ter previsto o imprevisível. Bela distorção.

"4.Faltou profundidade para elaborar as homenagens." Verdade.

"6.Ouvi mais de uma reclamação de artistas pelo gesto autoritário de cancelar atividades." Conheço os dois, mas não posso usar seus nomes sem autorização. Os problemas que aconteceram dizem respeito à Lei Orgânica do Município. Por serem da prefeitura, eles não poderíam receber cachê, mas nada os impedia de se apresentarem.

"7.Senti falta de estandes dedicados à leitura, à imaginação, aos escritores, poetas (coisas que não dão lucro mas são o motor da arte). Isso é indício de falta de amor pela literatura (o negócio é vender)." Também senti falta.