Quinta-feira, Janeiro 08, 2009

Inflação capilar

Egídio Pizarro
Colunista do blog

Basta ter alguns poucos minutos de convivência comigo pra saber que eu prezo muito o meu cabelo. Eu sou praticamente a reencarnação do Sansão - o da Dalila e não o coelhinho da Mônica. O mais bacana disso é que ninguém tem coragem de me chamar metrossexual, afinal metrossexual nenhum teria o par de sobrancelhas que eu tenho.

O medo que tenho da calvície é comparável ao medo que grandes empresários têm da atual crise mundial. Meu cabelo, aliás, é um reflexo da crise. Não é só de queijo, tomate ou juros que vêm os recados da inflação. Por sinal, foi através do meu cabelo que eu tive a noção exata do tamanho da crise e da situação da sociedade atual.

A inflação capilar não se resume a xampu. Aplica-se também ao meu cabelo na forma mais direta. Não foram poucas as propostas que já me fizeram por ele.

- Egídio, que cabelo bonito! Te dou 70 pila nele.
- E não ganho nem um beijinho?

- Rapaz, esse teu cabelo é demais. Se um dia resolveres vender ele, consegues uns 200 ou 400 reais, tranqüilo.
- E com 400 reais eu passo férias no Caribe com a Catherine Zeta-Jones?
- Bem, não, mas...
- Tchau. A gente se fala.

Antes da crise, a variação financeira era nessa faixa Até que outro dia eu estava na delegacia, registrando mais uma trivial perda de documentos, quando me fizeram uma proposta indecente, em alto e bom tom:

- Bonito cabelo.
- Valeu.
- Quer vender? Te consigo dois mil reais nele, fácil. Tem uma mulher em Porto Alegre que compra pra fazer peruca e...

Dois mil reais. Fácil. Se eu não me tivesse me segurado, minha calça teria ficado imprestável, já que o borrão seria visível da lua a olho nu. Uma proposta daquelas, feita em uma delegacia cheia de gente, tinha um único significado: ladrões de alta periculosidade estavam de olho em uma capilar oportunidade de ganhar dinheiro fácil.

Mais tarde me disseram que eu estava errado:

- Ladrões em uma delegacia, Egídio? Te liga: os que não estão em Brasília tentando controlar a crise estão aqui, recebendo o IPVA e construindo casarões.


Egídio Pizarro, estudante de História da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), escreve crônicas saborosas na seção Olho de Lince . Escritor dos bons, irônico como ele só, não deixa pedra sobre pedra. Toda quinta.

2 comt.:

Anônimo disse...

parabéns, campeao! legal, hein!!

Cintia disse...

Uh-hú. Muito divertido.