Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

Cá entre nós


Pílulas da felicidade
Quarta, 7

Uma amizade sólida e duradoura só se conquista na derrota.

Anos de convivência me provaram isso: que as pessoas não se conectam umas às outras pela exaltação das próprias qualidades, mas sim pela confissão de mútuas debilidades. O infortúnio mais trivial tem esse condão. “Você ganhou duas pontes de safena? Relaxe. Carrego sete Golden Gates* no peito. Sou um canteiro de obras e continuo fazendo fumaça. Aliás, diz aí, já experimentou Viagra, o absinto do momento? Não? Tudo bem. Vou te presentear com dois comprimidos para as experiências-piloto.”

O bem-estar advindo da ruína dos mitos explica, talvez, outra comunhão. Em certas rodas ao menos, compostas de gente letrada, um antigo segredo hoje flui lépido como um regato na primavera. Refiro-me ao consumo de antidepressivos.

Quase todo mundo que conheço fez ou faz uso desses campeões de venda, e anuncia. Podem ser estimulantes, calmantes, soníferos, álcool e outros psicotrópicos, como fé, consumo, esperança ou chocolate. Pode ser por breve período ou até a sepultura. O certo é que viver não costuma ser um plácido passeio de barco no remanso de um lago dourado de sol. Não é nada fácil investir a vida de sentido.

Perdoe-me se gasto tempo ao anunciar que a água é molhada. É que cultivo a esperança de suscitar uma gota de autocrítica naquelas pessoas cuja ambição é ostentar sorrisos permanentes, a indicar que alçaram patamares de espiritualidade superior. Das duas, uma: quem vive rindo, “feliz”, ou é estúpido ou foi vítima de operação plástica mal feita. Talvez os dois juntos em um personagem só, como Coringa, o vilão de Gotham City, com sua bocarra de batom.

Tive um amigo que se vangloriava de "usar as cápsulas da felicidade” de uma maneira peculiar. Ele as utilizava como artifício para se livrar de namoradas.

Quando queria se ver livre da dona, ele a levada a um local público, um bar, por exemplo. Então, de repente, retirava do bolso uma pastilha branca, um drops de menta qualquer, e o ingeria com água na frente da moça. Intrigada, ela perguntava o que ele havia tomado.

Ele então se demorava em explicações complicadíssimas. Dizia que estava tomando antidepressivos, ministrados por seu psiquiatra, acrescentando que no último mês passara a tomar outro medicamento complementar, um composto de pronúncia difícil, arrastando-se em detalhes técnicos sobre seu efeito potencializador, destinado a equilibrar-lhe o humor. Feito isso, a mulher desaparecia de sua vida.

Com igual êxito, se a mulher o interessasse, ele curiosamente fazia uso da mesma técnica (a confissão do uso daqueles medicamentos). A teoria dele: se, após sua “confissão”, ela permanecesse a seu lado, "era pessoa de bem, valia a pena".

Essa história do amigo me fez lembrar do teste automotivo, menos sofisticado, mas igualmente eficaz. Por exemplo, a mulher mais fascinante que conquistei nunca reclamou do carro velho que eu tinha. Também nunca perguntou, como algumas têm o hábito, se o apartamento em que eu morava “era meu ou alugado”.

Por algum tempo, procurando ser verdadeiro, eu me confessava locatário e pagava o "preço da sinceridade". A maioria sumia, às vezes antes de...

Com o tempo, mudei de conduta. Quando essas donas vinham com a "lorota imobiliária", passei a dar falsa fé da escritura, acrescentando que era proprietário de mais três apartamentos, que alugava para engordar meus investimentos. Então, depois de mostrar as fundações sobre as quais eu edificara minhas muitas residências, remexia na gaveta do criado-mudo em busca de um drops de menta.
A seção Antes que Anoiteça é publicada diariamente, de segunda a sexta. Eventualmente, no fim de semana.

4 comentários:

da ilha disse...

é meu caro Rubens,creio que são as mesmas pílulas do "Nada admirável e senil mundo" de Aldous Huxley...temos muita "razão", muita "ciência" em nossas vidas...façamos como Alberto Caieiro...não a "razão total"...
"eu não tenho filosofia tenho sentidos"...diria...
saudações

Anônimo disse...

Belo texto ! Parabéns tua escrita é muito boa mesmo.

Anônimo disse...

Paraabéns Rubens!!!
Adoro o que escreves!
Lendo esta crônica, me atrevo a perguntar: Já pensastes em um novo livro? "Drops de menta" seria um bom nome por suas múltiplas interpretações...
...afinal, não é(ou era)servido por uma conhecida cia. aérea antes da decolagem para 'dissipar'a ansiedade dos passageiros?
Um novo livro de Rubens Amador, repleto de crônicas inteligentes e politicamente apimentadas faria as oligarquias pelotinas consumirem muitos 'drops' para se acalmarem.

Floresta.

Anônimo disse...

É necessário dizer que os medicamentos cumprem uma função importante, se usados de forma indicada, adequada e atenta por profissional especifico da área de atendimento, pois não tem sido incomum qualquer médico clinico geral receitat as pílulas da felicidade ou outra aplacadora de tristezas.

O fato mais preocupante se dá pela própria inabilidade de quem nesse caso não é psiquiatra.

Ainda sim, observando os atendimento psiquiatricos é possível dizer que há abuso, devio ou mesmo menor interesse de indicação psicoterapeutica.

Problemas tyodos temos, mas poucos tem a coragem e interesse de radicalmente resolvê-los...

Cuidado! É possível tomar uma série de medidas, mas cair na pura e simples medicação antidepressiva pode em alguns casos ser uma cilada de consequências imprevisiveis e disastrosas.

Tentar resolver problemas, pode levar certo tempo e posterga-los a auxiliado por uma "anestesia" pode ser ainda mais sofrível com o tempo.