Marcos MacedoLiterárias
É comum termos a sensação de que não estamos conseguindo acompanhar a velocidade das mudanças que ocorrem a nossa volta, de que estamos cada vez mais defasados e nos tornando dispensáveis, e de que precisamos, como nosso lixo caseiro, de reciclagem. Marx escreveu: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.
Em nosso tempo, em busca do lucro, o capital financeiro vai de um lado a outro em busca das melhores taxas de lucro. Não é porque está estabelecido em um determinado lugar hoje, que amanhã estará ali. Ele procura ficar o mais líquido possível, isto é, o mais disponível, para migrar de um investimento a outro. Se hoje a taxa de juros no Brasil é favorável, ele vem para cá; se surge algum sinal de que poderá perder valor, ou um investimento melhor em outro lugar do mundo, esse capital voará para melhor oportunidade.
Keynes chamava isso de preferência pela liquidez. Quando escreveu, nos anos 1930, a preferência pela liquidez era praticamente oposição a manter o capital investido. Para ter a possibilidade de usar o dinheiro a qualquer momento não era possível mantê-lo investido, porque a desimobilização era demorada. Em certos momentos, escreveu ele, as pessoas guardavam dinheiro vivo. Hoje, após 30 anos de reaganismo, de desregulamentação financeira, a liquidez tornou-se a regra dos investimentos. É possível investir e ao mesmo tempo manter a liquidez. O capital financeiro não investe onde não possa desinvestir quase que instantaneamente: bolsas de valores, derivativos etc. Mesmo o investimento em ativos reais, em fábricas e negócios, tornou-se de rápida desimobilização através do mercado financeiro e das bolsas de valores. Nós mesmos, em Pelotas, vivíamos há pouco a expectativa da instalação de uma fábrica de celulose, cujas florestas já estão até plantadas. O colapso financeiro mundial evaporou o capital que pretendia construí-la, que procura agora recompor-se com ajuda do governo federal.
É desse aspecto do termo “liquidez”, aplicado a nossas vidas, que Zygmunt Bauman trata em seus livros. Segundo ele, vivemos uma vida líquida. Assim como o capital financeiro sem regulamentação globalizou e mudou o mundo nos últimos 30 anos, nossas vidas também foram mudadas. Não são só nossos empregos que estão constantemente ameaçados.
Nossas vidas, em quase todos os aspectos, mimetizaram o capital financeiro, em nossa busca incessante por não aprofundar raízes, por estar livres para aproveitar as próximas oportunidades, para desinvestir e reinvestir em outro lugar. Temos dificuldade de escolher, pois enquanto não decidimos ficamos com a ilusão que todas as possibilidades estão abertas para nós, de que não estamos presos a nada e que podemos ter tudo que as oportunidades proporcionarem. Na vida amorosa, a fidelidade tornou-se um fardo, a regra é “ficar”. Pouco nos apaixonamos, e até mesmo a paixão acaba.
Como num mercado de commodities, pode surgir a qualquer momento um objeto de maior valor, e precisamos estar livres para aplicar nele, e descartar o antigo, como fazemos com nosso lixo. Nossas vidas são uma sucessão de reinícios e finais. O importante é a velocidade com que pulamos de uma satisfação a outra, sua duração não importa. Esse é o retrato de nossa vida atual. Mas como serão os próximos anos, agora que o mundo está num ponto de inflexão, em que o capitalismo enfrenta a crise provocada pela excessiva especulação e liquidez, pela evaporação dos ativos que não estavam lastreados em nada real, aceitos por cotações irreais e infladas?
Agora que os Estados Unidos vêem-se obrigados a recolocar de pé sua indústria, a tornarem-se realmente competitivos, a aumentarem sua poupança em vez de viverem de empréstimos e de papéis sem valor, o capital da maior potência do mundo terá de ser aplicado na produção. Terá de manter-se lá por muitos anos para tornar novamente competitivas indústrias como a automobilística, e assim recuperar a hegemonia ameaçada, agora que apenas um sistema financeiro dominante não garante mais a liderança mundial
Como o capital, agora por necessidade se solidificando, afetará nosso estilo líquido de vida? O que tanto perseguimos em nossas vidas líquidas, assim como os papéis dos bancos americanos, também se revelará sem nenhum valor?
ONDE COMPRARLeia mais
Livraria Mundial
Vida Líquida.
Zygmunt Bauman.
Jorge Zahar Editor. 210 pág. R$ 39,00.
- Livro legal: Madame Freud




2 comt.:
Bauman é muito bom, denso, masmuito bom...
Olá,
Meu nome é Bruna e trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor.
Parabéns pelo blog!
Aproveitando o tema do post, gostaria de deixar uma dica para os leitores de Bauman. Seu último lançamento foi A arte da vida, já conhecem? Acesse o site da Zahar http://www.zahar.com.br/catalogo_detalhe.asp?id=1266 e conheça um pouquinho sobre mais um obra desse grande autor!
Abraços
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