Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Livro legal: Madame Freud

Marcos Macedo
Literárias

Martha Freud é uma figura histórica pouco conhecida, coadjuvante de um homem notável, seu marido Sigmund Freud, o criador da psicanálise. Na biografia escrita por Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo, ela é apresentada como a esposa perfeita e companheira ideal, que se colocou em segundo plano para que seu marido se dedicasse a seus pacientes e à pesquisa.

Em Madame Freud, a psicanalista francesa Nicolle Rosen cria sobre as lacunas da história uma Martha Freud que desmonta a versão de mulher feliz de um homem notável.

Por meio de cartas fictícias trocadas com uma jornalista norte-americana, revela-se uma viúva Freud, aos 85 anos, descontente com o rumo que sua vida tomou, rancorosa de um marido indiferente e autoritário, insatisfeita por ter de dividir a atenção de Freud com seus sucessivos interlocutores masculinos, como Wilhelm Fliess, e com as mulheres de sua família, como a irmã, Minna Bernays, e a filha Anna Freud.

Sabe-se que Freud era muito ciumento de sua esposa. Durante o noivado, ele exigiu que Martha não tratasse um primo pelo primeiro nome; ela devia empregar formalmente seu sobrenome. Também deveria romper com sua mãe e seu irmão Eli Bernays, que viria a se casar com uma irmã de Freud. “Certamente tenho uma tendência à tirania”, reconheceu ele em uma de suas cartas (verdadeiras) à futura esposa. Também era sincero a ponto da crueldade. Em resposta à noiva, escreveu que era “obrigado a admitir que você não é uma beldade”, acrescentando que apreciava nela outras qualidades, como a doçura, a generosidade do coração, a razão.

Também sabe-se que Martha Freud era de fato dedicada à sua família, e não tinha o mesmo pendor intelectual de seu marido: era uma mulher de espírito prático e senso do concreto, o que não a faziam uma boa interlocutora para seu marido quando ele estava imerso em suas pesquisas.

O próprio Freud ressaltou essas diferenças, que a seu ver faziam de Martha o complemento ideal para o criador e explorador de terras desconhecidas que ele era. O casal Freud teve seis filhos em nove anos. Quando tinha tempo, Freud era um pai ativo e interessado, mas a carga principal da vida doméstica recaía sobre sua Martha.

O que é ficção e o que é verdade no livro de Nicolle Rosen? O livro enfureceu a Academia Francesa de Psicanálise, que o considerou ultrajante.

É natural imaginar uma Martha Freud, viúva, aos 85 anos, fazendo um balanço sincero de sua longa vida, falando de si num exercício próximo da psicanálise, como quer a autora. Mas é difícil concluir, como a autora propõe, que a viúva de Freud se ressentisse de ter renunciado a pensar por si mesma para devotar sua vida à execução de uma obra que não era dela. Faltou a Nicolle Rosen reconhecer que Martha Freud é uma vida de outro tempo.

Madame Freud:
um retrato íntimo e revelador do pai da psicanálise pelo olhar de sua esposa
.
Nicolle Rosen. 2008.
Verus Editora. 210 pág. R$ 27,90.


Freud: uma vida para o nosso tempo.
Peter Gay. 1989.
Companhia das Letras. 719 pág. R$ 68,00
Onde comprar
LIVRARIA MUNDIAL
Rua Quinze de Novembro, 564
Tel: 3225-2699
E-mail: lmundial@terra.com.br

2 comt.:

Ana Clara disse...

Parece cantiga infantil: "marcha soldado cabeça de papel / quem não marchar direito vai preso no quartel / o quartel pegou fogo, francisco deu sinal..."

Victor Albaini disse...

Quanta sensibilidade, Ana Clara. Ouvi o caminhão de bombeiros acompanhado de outra sirene que não consegui identificar, porque passaram muito rápido por onde eu trabalho. Então foi este o motivo. Muito grande o estrago?