Sábado, Março 21, 2009

75 quilos de músculos e fúria

"Tinha um pacto de felicidade com a vida. Pouco importava que a vida não cumprisse a sua parte. Eu interpelava os astros: de quem foge Tarso de Castro? Que persegue Tarso de Castro? Ele ria. E o riso apagava no rosto o vinco das noites boêmias. A vida jogada fora, num gesto de desdém e de rebeldia. Mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança? Na vertigem com que vivia, no seu furor, havia, sim, um sinal de maldição. Sua morte nos punge como um remorso. Tantas imposturas, tantos vencedores! Adeus, Tarso."

Otto Lara Rezende, escritor e articulista da Folha de S.Paulo,
sobre a morte do colega e amigo, o jornalista Tarso de Castro

Tarso e Candice: "Herói da revolução cubana"
Rubens Filho
Direto do Notebook

Tarso de Castro foi o último jornalista romântico do Brasil. Morreu cedo, é claro. Aos 49 anos, de cirrose, em São Paulo, em 21 de maio de 1991. Gaúcho de Passo Fundo, cresceu entre as rotativas do jornal O Nacional, de propriedade de seu pai, nos anos 50.
Para amenizar os efeitos do chumbo derretido sobre os pulmões dos linotipistas, Múcio de Castro, o pai, passou a distribuir a cada empregado um litro de leite.

Quando se descobriu que a bebida na verdade potencializava os efeitos nocivos do chumbo, Múcio substituiu-a por outra 'solução': a cachaça. A partir daí, Tarso, então com 13 anos, e funcionário das oficinas, nunca mais bebeu leite.

Nos anos 60, ele foi morar no Rio de Janeiro, onde arrumou emprego no jornal Última Hora. A ironia de seus textos lhe trouxe broncas e a admiração do chefe, Samuel Wainer. Na Última Hora, começaria sua carreira. Carreira mesmo, no sentido da pressa.

Brizolista, debochado, beberrão, irônico e irascível, acabou criando o Pasquim, semanário que revolucionou o jornalismo brasileiro, em plena ditadura militar. Namorador, e sem saber falar inglês, conquistou o coração até mesmo da atriz norte-americana Candice Bergen, que, em sua autobiografia, confessou que
"Tarso havia sido o grande amor de sua vida".

Quando Candice e Tarso se conheceram, no Rio, o jornalista mostrou a ela algumas fotos. Numa, ele aparecia ao lado de Che Guevara, numa solenidade. Ela perguntou o que ele fazia ali. Ele respondeu que lutara ao lado de Fidel e Guevara na revolução, acrescentando detalhes dos apuros pelos quais passaram na Sierra Maestra, semanas antes de entrarem triunfantes em Havana.

Essa história aparece na autobiografia de Candice, que relembra sua grande paixão, referindo-se a Tarso como "um homem que, na juventude, havia participado da revolução cubana". Na verdade, Tarso jamais pegou num fuzil. Ele aparecia na foto com Guevara numa conferência na Argentina, a qual comparecera como repórter.

A biografia Tarso de Castro: 75 quilos de músculos e fúria (269 pág., Editora Planeta), de Tom Cardoso, pode ser encontrada ou encomendada na Livraria Mundial.