Lucio Vaz
Correio Braziliense
Para preocupação dos ambientalistas, a indústria de celulose está em franca expansão no país. A produção alcançou 11,8 milhões de toneladas em 2007, um crescimento de 5,5% em relação ao ano anterior. O valor total das exportações da polpa de celulose passou de US$ 4,7 bilhões em 2007 para US$ 5,3 bilhões em 2008. Parece muito, mas é pouco perto do mercado mundial: US$ 190 bilhões. E também esse mercado está em expansão constante, em média 2% ao ano.O Brasil quer mais um pedaço desse bolo, passando da sexta para a quarta colocação. "Na China, temos 1,3 bilhão de pessoas que não usam papel higiênico e não lêem", afirma o presidente da Veracel, Antonio Sergio Alipio, empresa que ocupa 10% do mercado nacional.
Os consumidores em potencial também entusiasmam as papeleiras. Nos países desenvolvidos, como Estados Unidos e Japão, além dos europeus, o consumo de papel atinge 350 quilos por habitante ao ano. Nos países em desenvolvimento, como Rússia, Brasil e China, fica em 35 quilos por habitante.
O crescimento da indústria é impulsionado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que tem uma carteira de operações com financiamentos de R$ 12,1 bilhões para a indústria de papel e celulose. No ano passado, houve um desembolso de R$ 1,89 bilhão para as papeleiras.
O BNDES é, na verdade, financiador e sócio do setor. Conta com 12,5% das ações ordinárias da Aracruz, empresa com faturamento anual de R$ 2,8 bilhões. Os sócios majoritários da empresa são a Votorantim (28%), o Banco Safra (28%) e o grupo norueguês Loretzen (28%).
O grupo Loretzen anunciou interesse em sair da empresa. A Votorantim fez uma proposta de compra, mas o Banco Safra tem prioridade na aquisição das ações. Uma das alternativas em estudo, segundo fontes da Veracel e do próprio banco, é a divisão das ações do Loretzen entre Votorantim e Safra.

Loteamento no RS
A Aracruz tem 50% das ações da Veracel. A outra metade pertence à sueco-finlandesa Stora Enso, multinacional com faturamento anual equivalente a R$ 40 bilhões. Às vezes aliadas, às vezes concorrentes, as papeleiras se entendem.
No Rio Grande do Sul, mercado em expansão, o território está loteado da seguinte forma: a Aracruz ocupa a região central, nas proximidades de Porto Alegre, a Stora Enso fica com a Fronteira Oeste e a Votorantim está instalada na Zona Sul. No extremo sul da Bahia, há espaço para plantações de eucaliptos da Veracel, Aracruz e Suzano.
A maior parte da produção de celulose é destinada à exportação. Assim acontece com 98% da produção da Veracel. A Aracruz destina cerca de 93% da sua produção ao exterior. A Suzano é das poucas papeleiras que realmente produz papel, um total de 1,1 milhão de toneladas por ano (41% para exportação). A empresa produz mais de 800 mil toneladas de celulose (80% para exportação).
A Stora Enso produz papel, mas na Suécia. Essas exportações ajudam a melhorar a balança comercial brasileira, mas incomodam os governos estaduais. A Lei Kandir concede isenção de impostos nas exportações.
Negócio eterno
Questionado pelo Correio sobre denúncias de degradação ambiental, dia 14 deste mês, o presidente da Veracel argumentou: "Imagina se faz sentido investir US$ 1,2 bilhão numa fábrica e depois transferir tudo porque destruímos o solo. Cuidar de água é a natureza do nosso negócio. Uma fábrica de celulose é 'imexível', como diria aquele ministro. Esse é um negócio eterno. A Stora Enso tem 750 anos de registro. É a empresa mais antiga do mundo".
Alipio tem outro argumento para contestar quem aponta os dados ambientais causados pelas papeleiras. "Floresta plantada não é coisa de país subdesenvolvido. O maior produtor mundial é o Canadá, com 25% do mercado. Depois, vêm Estados Unidos, Japã e, Suécia. O único pobre desse grupo é o Brasil, na sexta posição, com apenas 2% do mercado mundial".
Questionado sobre o avanço das plantações de eucaliptos em vários estados, responde que a indústria de celulose conta com apenas 5 milhões de hectares atualmente, enquanto a pecuária ocupa 70 milhões.
Controvérsia até sobre cheiro
A visita a fábricas de celulose, do Uruguai ao sul da Bahia, possibilitou comparações e, em conseqüência, desmistificações. Uma delas é que seria impossível reduzir quase a zero aquele cheiro de ovo podre na porta da fábrica.
A Aracruz e a Suzano afirmam que utilizam filtros modernos. Não é o cheiro da antiga Borregard, que empesteava Porto Alegre na década de 70. Mas fica sempre um odor forte, talvez de repolho podre. Na Veracel, o cheiro é mínimo, mesmo perto do alto da chaminé de 120 metros.
Os números sobre geração de empregos são, muitas vezes, meros palpites. O governo gaúcho, por exemplo, anuncia aos quatro ventos que a implantação de 450 mil hectares de eucaliptos no estado, com a construção de mais duas fábricas, num prazo de cinco anos, abrirá cerca de 800 mil empregos diretos e indiretos.
Também entrariam no cálculo os postos criados na cadeia produtiva. Ganham o dono do posto de gasolina, o borracheiro, o dono do restaurante, o pipoqueiro etc., argumentam empresários, parlamentares e prefeitos da região.
A Aracruz tem fábricas e plantações no Rio Grande do Sul, Espirito Santo, Bahia e Minas. No total, conta com cerca de 400 mil hectares de eucaliptos, incluindo os fomentados.
A empresa informa que mantém 12 mil empregos, dos quais apenas 3 mil diretos. A Veracel ocupa uma área de 209 mil hectares, sendo 95 mil com eucaliptos. Informa que gera 3.134 empregos, sendo 725 diretos. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas concluiu que a tal cadeia produtiva sustenta 30 mil postos de trabalho no país. O número ainda está muito distante dos 800 mil anunciados pelo governo de Yeda Crusius.
Em relatórios de sustentabilidade, as papeleiras publicam textos e fotos que mostram uma suposta relação de parceria, quase de irmandade, com índios, quilombolas, trabalhadores rurais e pescadores. Mas a indústria tem enfrentado disputas por terras com toda essa gente. Povos indígenas já asseguraram a posse de terras ocupadas pela Aracruz durante décadas.
Série de reportagensAmanhã o blog concluirá a publicação de uma série de reportagens sobre a "ocupação" do solo gaúcho e brasileiro pelas companhias papeleiras Votorantim, Aracruz e a filandesa Stora Enso. Esta é a 13ª matéria.
O material foi produzido pelo gaúcho Lucio Vaz, repórter especial do Correio Braziliense (foto). O jornalista, amigo do blog, percorreu o Rio Grande do Sul e outros estados, onde a paisagem muda rapidamente. Ele entrevistou empresários do setor, autoridades, além de populações rurais e indígenas afetadas pelas plantações de eucalipto.
.MATÉRIAS DA SÉRIE JÁ PUBLICADAS
- A nova paisagem dos pampas (1)
- Stora Enso criou empresa em nome de brasileiros (2)
- Empregos, renda e o medo da seca (3)
- Invasão dos eucaliptos começou pelo Uruguai (4)
- Desertos na fronteira (5)
- Geógrafos apontam danos causados por eucaliptos (6)
- Papeleira diz que eucalipto não produz danos (7)
- Reserva indígena degradada (8)
- Terras passaram de empregados à Aracruz (9)
- Quilombolas vivem de sobras (10)
- Papeleiras distribuem R$ 8,6 milhões a políticos (11)
- Veracel deixa rastro de destruição (12)




5 comt.:
Então é isso.
Não se trata de repor as madeiras que derrubamos na Amazônia. Trata-se de fornecer papel higiênico, para o traseiro de quem pagar mais.
Vamos vender água e saúde de nosso solo para limpar a bunda do mundo.
Vamos não, a VCP vai vender.
Mesmo se eu fosse acionista não participaria dos lucros dela, pois costumeiramente os acionistas recebem migalhas em dividendos, tão mexido são os balançetes para se evitar pagamentos de dividendos e IR.
Coloquei 100 m2 de "ipe tabaco" lá em casa.
O nome comercial "ipe tabaco" é uma fachada para dezenas de madeiras nobres e mais duras vendidas por alguns trocos a mais que o "ipe champanha", designação que acoberta madeiras mais claras e macias.
É mais barato que piso de porcelanato.
As duas marcas comerciais não tem nada a ver com ipê obviamente. Se quisermos que o fornecedor separe por cor, fica mais caro, evidente.
O baixo preço e a mistura de espécies são sinais de uma exploração descontrolada, com baixa qualidade e provavelmente sem consideração com reposição, solo, natureza, nada.
Apareça numa madeireira e destrua seu pedaço da amazônia por R$ 39,50 o metro quadrado.
Ou destrua o pampa gaúcho por R$ 1,20 o rolo.
O Brasil quer? ou são as empresa estrangeiras ou assossiadas que querem? Parece-me que é uma nova ou mais atualizada função da economia nacional na divisão internacional da produção! Ou seja agora é escoar riquezas através da celulose submetendo mais ainda os recursos naturais e a dependencia rural aos lucros e deleite das elites!
Eu conheço um ex-plantador de arroz que nunca deu bola para o eco-sistema do Taim até o dia que o Banco deixou de emprestar dinheiro para ele comprar carro zero com nota fiscal de trator. Agora ele critica as plantações de eucaliptos. É, o mundo da voltas.
Pessoal , sou Pelotense mas moro longe de Pelotas há muitos anos . Toda vez que retorno 'a região para visitar parentes e amigos me dá uma tristeza muito grande : nossa região está doente , pobre e só faz "andar prá tras " . Qdo surge uma oportunidade de desenvolvimento o que fazem os "intelectuais" ? Dão palpite furado sobre o que não entendem apenas tentando passar uma imagem de "ambientalistas preocupados com o meio-ambiente " . Se são tão preocupados assim com o cheiro das papeleiras , porque não vão atrás de recursos para eliminar aquele cheiro de podre daquele canal na entrada da cidade ( diga-se de passagem quase morri de vergonha qdo amigos me relataram isso qdo foram visitar a Fenadoce no ano passado - que aliás o que menos tem são doces uma vez que a grande maioria das industrias de doces já faliram há muito tempo ! . Porque não vão então procurar recursos para despoluir as águas do Laranjal ? E o que falar da falta de água , calçamento , rede de esgoto por toda a cidade ? POr favor , acordem , deixem o progresso e o desenvolvimento chegar ! Pior do que está não dá para ficar ! Votorantim , Aracruz , Stora Enzo não são empresas do porte das que a região está acostumada . São sim empresas gigantes , com história , com dominio de tecnologia para fazerem o que fazem ! Por favor , não sejamos tolos a ponto de "espantar" esta oportunidade . Não conheço ninguém destas empresas mas , como uma Pelotense que quer ver muito o progresso da nossa cidade , convoco a todos a fazerem justamente o contrário : oferecer benefícios , infraestrutura , isenção de impostos para quem vem trazer o progresso e emprego pra nossa gente !
Amigo anônimo, concordo.
Muita gente abusa do que é ser ambientalista para emitir palpites furadíssimos sobre as coisas. Como neste exemplo dos eucaliptos e da celulose. O jornalista Lucio Vaz, numa tentativa de polemizar, diz que a Borregard fedia... Isso foi nos anos 70, MEU DEUS! Esse pessoal ainda vive naquela época???? Não percebe o avanço da tecnologia, inclusive na agricultura, que antes lavrava toda a terra e hoje investe no plantio direto. Esses ambientalistas não veem isso??? Silenciam sobre a poluição do Laranjal, em peloyas, do Arroio Dilúvio, em Porto Alegre, sobre uma série de coisas, mas querem travar investimentos.
Assim é, em POA, com o tal pontal do Estaleiro. Os caras chegam ao absurdo de dizer que "temos o direito ao por do sol, os prédios vão mudar a direção dos ventos blablabla". Um monte de asneira. Esses caras misturam meio ambiente com ideologia política, mas fazem de conta de que em Cuba está faltando até papel higiênico para o povo. O Sr. Lucio Vaz é um péssimo jornalista. Amontou parcialmente alguns chavões da esquerda contra empresas, e recebe os aplausos dos ditos ambientalistas que não prestam atenção no Laranjal nem no Dilúvio.
Não aguento mais burrice
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