Domingo, Março 29, 2009

Castelos de papel, tela e areia

Texto é meio longo, mas vale a pena. Autor diz que a crise dos jornais impressos avança nos EUA e na Europa, com o fim de publicações centenárias, obrigadas a migrar para a internet

Da Folha de S.Paulo
Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsman da FSP

OS TEMPOS são terríveis para os jornais impressos nos EUA e na Europa. A crise econômica acelerou o desgaste do modelo econômico dessa indústria nos países centrais do capitalismo e os efeitos são visíveis.

Na sexta-feira, circulou a última edição em papel do centenário e excelente "Christian Science Monitor". Na quinta, o "New York Times" anunciou corte de 5% por nove meses no salário de quase todo o seu pessoal, mais um gesto extremo para tentar melhorar suas contas, e o "Washington Post" deu partida a processo de demissões voluntárias.

Na terça, quatro cidades do Estado de Michigan, inclusive Ann Arbor, sede da Universidade de Michigan, souberam que este ano ficarão sem nenhum jornal impresso porque o único em cada uma delas (todos pertencentes a uma rede) vai deixar de circular.

Semanas atrás, dois tradicionais títulos, o "Rocky Mountain News" e o "Seattle Post Intelligencer" haviam deixado de rodar e passado a operar só na internet.

A Federação Europeia de Jornalistas, em atitude clara de desespero, pediu aos líderes dos partidos no Parlamento Europeu que os governos salvem os jornais impressos, "pedra angular da democracia europeia", segundo dizem no documento.

A administração Sarkozy, na França, já seguiu nessa direção com um pacote de 600 milhões de euros de socorro aos diários. Nos EUA, o senador Benjamin Cardin, democrata do Maryland, argumenta com seus pares que os jornais merecem tanto auxílio quanto os bancos.

Esse apelo ao Estado é um atentado contra o princípio essencial da independência, condição indispensável para o exercício do bom jornalismo. A sobreviver como apêndice de governos, é melhor perecer.

Apesar de todos esses indícios, e dos prenúncios sombrios para os jornais no mais recente relatório do "State of the News Media" (http://www.stateofthenewsmedia.org/2009/index.htm), o jogo ainda não está jogado nem lá nem muito menos aqui no Brasil.

Mas a tendência da migração do jornalismo do papel para a tela é irredutível, mesmo que as versões impressas se mantenham. Por isso, mais do que nunca, é preciso cuidar para que a qualidade sempre exigida no produto impresso se mantenha no eletrônico.

Esta semana, na cobertura da Operação Castelo de Areia, a versão on-line da Folha deu uma derrapada feia, em decorrência de vícios estruturais dessa plataforma: a pressa em colocar no ar informações e a frouxidão dos controles.

Das 8h41 às 10h30 de quinta-feira, a terceira chamada da página inicial da Folha Online tinha um título errado ("PT pode ser investigado por doações da Camargo"), sem nenhuma base nas informações disponíveis. O erro, que não apareceu no jornal impresso, foi corrigido e o título mudado.

O rigor e o cuidado imprescindíveis no jornal impresso devem ser obrigatórios no eletrônico. As sociedades democráticas podem até sobreviver sem jornalismo de papel, mas sem jornalismo independente serão castelos de areia.

1 comt.:

Anônimo disse...

Adoro ler jornal.
Após comprar meu apartamento em Porto Alegre, lá pelos anos 1990, assinava Correio e Folha de São Paulo.
Folha de São Paulo trazia muita informação e pontos de vista cosmopolitas para o leitor provinciano.
Isso foi até me encher com ela, pois as manchetes, os destaques, toda a editoria das matérias contrariava o texto escrito pelos jornalistas.
Ou seja: a edição brigava com o texto.
Cancelei a assinatura da FSP em 93 e de lá para cá outras 300 mil pessoas fizeram o mesmo e ela se arrasta com 200 mil de tiragem.
Surgiu a Internet, e hoje somos 24 milhões de pessoas que pagam uma assinatura doméstica para ter em casa mais do que o jornal nos dá, escolher a fonte, escolher a informação. E tem também os internautas de escritório e de lan-house.
Não diminuiu o número de leitores, aliás é bem maior que se pensava. E a mídia jornal não creio que tenha sido rejeitada, eu por exemplo adoro ler em papel.
Mas as empresas que comandam esse negócio perderam esses clientes.
Perde-se muito tempo cavando informação na rede mas frequentemente acha-se informação equivalente ou de melhor qualidade que no jornal.
Agora sabemos como as notícias são preparadas, temos muitas vozes fazendo a meta-notícia, muito jornalista virou blogueiro e comenta o jornal, a TV e o rádio. Ficamos mais vacinados contra cascatas, e outros bichos.
Os jornais são serviços extraordinários de informação, poderiam seguir escolhendo e colhendo notícias para nós, mas estão aí para nos vender sua ideologia, seus candidatos, manter os "negócios andando do mesmo jeito".
Se os jornais não estivessem a serviço de outros interesses que não apenas informar bem o leitor eu ainda assinaria vários deles além da internet.
Se falirem, teremos de fazer um para nós, mas esses daí não levam meu dinheiro.
Se ao menos as redações e editorias fossem ocupadas por jornalistas, fossem mandados embora os mercenários e os vigilantes dos interesses corporativos e partidários, e a informação ao leitor viesse em primeiro lugar, daria para salvar alguma coisa.
Então Rubens, tuas preocupações são fundadas.
Só que quem traiu o rigor e o cuidado, foram os jornalões que perderam seu público por faltarem com o respeito com ele bem antes da internet.