Segunda-feira, Março 02, 2009

Entrevista: Rubens Filho

Nos últimos meses, leitores levantaram questões sobre a motivação do blog Amigos de Pelotas e de seu idealizador, jornalista Rubens Filho. Organizei as perguntas e acrescentei outras. Como trabalho na equipe do blog, disse ao editor que só aceitaria entrevistá-lo se pudesse fazer perguntas sem censura. O resultado está logo abaixo, cuja isenção deixamos ao julgamento dos leitores.

Niara de Oliveira
Redatora e editora


ENTREVISTA
Pelotas forma todos os anos muitos e bons profissionais em todas as áreas. A maioria vai embora e a justificativa é sempre a mesma: quem quiser crescer profissionalmente precisa deixar a cidade. Tu fizeste isso, foste embora de Pelotas e construíste a tua carreira fora daqui. O que te fez voltar?

De fato, temos a tradição, em Pelotas e no estado, de exportar ótimos jornalistas. Há muitos exemplos, e quase todos se foram pelo mesmo motivo, acho. Quando fui embora de Pelotas, em 1986, o mercado era fechado, os salários, baixos, as chances de fazer um jornalismo aceitável eram nulas - ouvia histórias de jornalistas demitidos por fazer a coisa certa. Não mudou muito de lá para cá. Eu tinha ambições de fazer coisas maiores, trabalhar com pessoas que admirasse. Em Pelotas, meus ícones, como o professor Salvador Pinho, haviam abandonado o jornalismo e ingressado na academia. Então logo vi que, por essas bandas, não realizaria meus anseios. Além do mais, eu estava saturado daquela retrógrada mentalidade pelotense, aquele mundinho cor-de-rosa que resiste bravamente até hoje, apesar de estar fazendo água há algum tempo. Depois de quatro anos vivendo em Florianópolis, aonde tive a boa sorte de ganhar o Prêmio Esso de Jornalismo Regional-Sul, superando trabalhos de jornais dos três estados do Sul do País, inclusive os da RBS (Zero Hora e Diário Catarinense), passei um ano em Curitiba, outro em São Paulo, até chegar a Brasília, em 1992, para assessorar o senador Dirceu Carneiro (PSDB-SC), com quem trabalhei por três anos. Desde então se passaram 16 anos, um longo período. De repente, comecei a sentir vontade de redirecionar minha vida. O primeiro rolo do filme foi legal, mas o segundo queria que fosse diferente. Credito um pouco esse movimento à tal crise da meia idade de que falam os psicanalistas. Por exemplo, senti necessidade de voltar a estudar. Meu plano era esse: viver anônimo durante os anos do mestrado, estudando, comendo croquete no Cruz de Malta e namorando alguma gaúcha, que são muito mais bonitas na média do que as mulheres que vivem em Brasília (risos...). Achei que Pelotas seria ideal para isso, afetivamente falando, e porque não há croquete igual ao do Cruz em Brasília (risos...). A maioria das pessoas vive e morre onde nasce. Eu não fiz exatamente assim, e, embora tenha voltado, não sei se vou envelhecer nessa umidade. Considerando que uma pessoa possa chegar aos 100 anos de idade, vivi o primeiro quarto aqui, o segundo, fora, estou de volta para o terceiro. Se eu vou resistir até o último trecho, não sei. Por ora, meu plano é me estabelecer em Pelotas, viver do blog e retomar os estudos uma hora dessas.

Tu trabalhaste na Universidade Católica de Pelotas. Quanto tempo durou, por que e como saíste de lá?
Quando decidi me mudar de Brasília para Pelotas, uma pessoa me falou que precisavam de um coordenador para a assessoria de comunicação social da UCPel. Procurei por eles. Negociei um contrato com Alencar Proença, o reitor. Eu alugaria meu passe por um salário fixo, mais gratificação e bolsa de mestrado, na percentagem de 75%. Mês e meio depois, recebi um contracheque. Nele, para minha surpresa, aparecia só o salário, sem a gratificação. Além disso, fui informado de que a bolsa viria não em 75%, mas em 50%. Diante disso, mandei dois e-mails ao reitor, reclamando. Além de não me dar explicações, ele passou a me evitar no ambiente de trabalho. Pedi uma licença e procurei um advogado, que me aconselhou a requerer por escrito a devolução da carteira de trabalho assinada e o contrato com as cláusulas acordadas. Vale lembrar que eu estava trabalhando há mais de um mês, sem que essas obrigações trabalhistas tivessem sido honradas. Eles me devolveram a carteira, assinada como solicitei, mas estenderam sobre a mesa um contrato de “experiência”. Ponderei a eles que contratos do tipo só são válidos por lei se assinados no primeiro dia de trabalho. Logo, não era meu caso. Lembrei a eles também que “experiência” não se aplicava a um cara com 25 anos de estrada. Diante disso, aconteceu o que eu esperava e, àquela altura, desejava: a demissão; contudo, saí de lá como deveria - devidamente indenizado. No final sai bem caro para eles. Como se sabe, a UCPel tem um passivo trabalhista de quatro dezenas de milhões, e recentemente atrasou o pagamento. O que eles mais tem feito nos últimos anos é demitir pessoas, para equilibrar suas contas. No fim acho que foi bom para todos. Eles não serviam para mim, eu não servia para eles.

Eu ouvi um comentário de que tinhas sido “demitido por incompetência” da Católica. Tiveste alguma briga pessoal com o reitor, para esse boato ter se espalhado?
Enquanto estive lá procurei agir como profissional. Por exemplo, entreguei um relatório ao reitor, constatando graves problemas estruturais na assessoria de comunicação social. Um deles estava na empresa de publicidade que ele contratara, em substituição à agência Insight. Vi alguns produtos remanescentes da Insight e os achei excelentes, melhores que os oferecidos pela nova agência, cujo trabalho, logo ficou evidente, era de qualidade inferior. Tanto que rejeitei o anúncio de Páscoa, feito pelo novo contratado. A peça publicitária teve de ser resolvida internamente por nós, apesar de não sermos publicitários. A solução foi encontrada a partir de uma foto do Wilson Lima, fotógrafo de mão cheia, que trabalhou na revista Manchete, no Rio, o melhor quadro da UCPel na comunicação. Fiz uma frase de apoio à imagem e pronto. Esse anúncio, ancorado numa foto belíssima, plena do significado da ressurreição de Cristo, elogiado até pelo bispo Dom Jaime (Chemello), saiu publicado no domingo de Páscoa, no Diário Popular. Ou seja, além de ser franco com o reitor, assumi posições que podiam desagradá-lo. Mal sabia eu que era perigoso mostrar autonomia em Pelotas (risos...). Pelo visto, o reitor não gostou. C´est la vie. Mas o reitor atual é um homem que não vê problema no site de sua universidade publicar matéria sobre um doce feito em sua homenagem por uma confeiteira, como fizeram. Isso revela o tipo de comunicação que eles fazem. Não imagino caso semelhante nos sites da Universidade de Cambridge, da Universidade de Brasília, na UFRGS, sequer da UFPel.

O que te ficou de lição do episódio?
Depois que sai de lá, disseram-me que na Católica é assim: se o sujeito aguenta certas coisas por um tempo, passa a ser do “time”, que eu chamo de Caravana de Jesus. Se isso é verdade, enganaram-se comigo. No contrato que verbalmente firmei, não vendi meus princípios, aluguei minha capacidade de trabalho. Além disso, sou laico, não me escondo atrás de Jesus para me proteger. O que tentaram fazer comigo conseguem com boa parte das pessoas: querem que o sujeito se vergue aos nichos de poder local, onde prevalece uma mentalidade atrasada, coronelista, provinciana, baseada em compadrio e mediocridade. Lamento se passo impressão de soberba, mas, depois de 22 anos trabalhando a maior parte do tempo em Brasília e São Paulo, ficou difícil aceitar falta de profissionalismo, que é uma das razões pela qual, creio, a UCPel e outros setores da cidade vão mal das pernas. Resumindo: na minha cabeça, só fazem festa os pardais da praça, mesmo assim sem meu consentimento.

Como surgiu a idéia do blog e por que optaste por esse caminho?
De repente me dei conta de que teria de inventar meu emprego, a exemplo de outros jornalistas pelo país. Os urubus me diziam que um blog como o Amigos de Pelotas, disposto a fazer jornalismo como deve ser feito, não teria chance numa cidade conservadora como Pelotas. Sempre suspeitei disso, eu e meu amigo José Vidal (foto acima, à esq.), autor de uma série sobre a história do Movimento Maragato, publicada no blog. Cúmplice meu nas inquietações em relação aos rumos de Pelotas, ele me ajudou muito no começo. Achávamos que Pelotas carecia de um veículo isento. Havia essa demanda. A enorme aceitação que o blog vem tendo prova isso. De vez em quando me param na rua para cumprimentar, gente jovem, mais velha. Dizem-me que a cidade estava farta da manipulação das notícias e que estão “viciados” no blog. Eu acredito, e agradeço.

Quais são as dificuldades de se fazer um blog como o Amigos de Pelotas?
O novo sempre causa uma rejeição inicial. Curiosamente, não foi assim conosco. Desde o começo a visitação é crescente. Os números mostram que as pessoas estão compreendendo nossa proposta, que, afinal, não tem nada demais. Tenho claro que se o blog fosse feito no Rio de Janeiro ou Porto Alegre, onde a mentalidade é mais aberta e o profissionalismo é maior, talvez não tivéssemos o mesmo êxito, por causa da concorrência. O fato é que há uma saturação em Pelotas com a baixa qualidade da comunicação, embora a cidade possua bons profissionais. Acho que quem busca o blog está mandando uma mensagem clara: ou os veículos convencionais modernizam sua abordagem ou serão superados pela história.

O blog está no nível que desejas? Existem planos maiores para o AP?
Por ora fazemos um trabalho que considero bom, aceitável, calcado, em grande parte, na criatividade, na ousadia. Avançamos muito em termos gráficos, de conteúdo e de participação. Não é mais o blog do Rubens. Somos uma equipe de 13, e vários colaboradores. A maioria é composta por gente jovem, recém-formados que não encontram espaço na imprensa local, e evitam-na. Dia desses um novo colaborador me escreveu, dizendo que prefere trabalhar de graça para o blog do que ser pago pelos jornais da cidade. Ouvir uma coisa assim, uma generosidade dessas, aumenta nossa responsabilidade e nos incentiva. Além de contar com esse grupo, recebemos ajuda dos próprios leitores. Durante a enchente, por exemplo, alguns nos enviaram fotos de locais alagados. Com as facilidades da tecnologia, capturaram imagens com celular e essas câmaras fotográficas pequenas, e nos enviaram por e-mail. Eu respondi que o gesto deles retrata o espírito do blog Amigos de Pelotas. Esse afeto em relação às questões da cidade não tem preço que pague. Sou agradecido por esse acolhimento ao blog, que muitos leitores consideram um pouco como sendo seu. Então digo que vamos bem, embora possamos melhorar sempre.

Mesmo não estando acostumados a uma imprensa crítica, até os postes da cidade sabem que jornalismo aqui é do tipo "chapa branca". O que pensas sobre isso?
Eu tenho amigos na imprensa, no rádio e na televisão da cidade. Dois deles foram de grande valia no começo, ajudando-me a entender a mecânica das relações, já que estive fora por mais de duas décadas. É ridículo, mas não vou dizer o nome deles para que não sofram represálias. Mesmo esses concordam que o jornalismo em Pelotas, com exceções, está aquém das possibilidades. A maioria dos jornalistas vai até onde pode ir. Procuram fazer o melhor, mas enfrentam barreiras. Eu acho que a maior parte quer fazer um trabalho sério, mas como é difícil e precisam sobreviver, acabam sucumbindo. Não à toa os melhores quadros acabam indo embora de Pelotas, como acontece há décadas. O esquema é tão acachapante que alguns pedem as contas, fazem as malas e vão trabalhar em Porto Alegre, em São Paulo, em Brasília, até fora do país. Pelotas tem esse hábito: expulsa seus talentos em vez de prestigiá-los, o que, em parte, explica a baixa qualidade da imprensa tradicional, além do baixo número de profissionais competentes em outras áreas.

Por que é assim? Onde está o problema?
O problema são as direções, a mentalidade, e os jornalistas vendidos. Os donos do negócio são o principal problema porque mantêm uma relação umbilical com o poder público, basicamente prefeitura e Universidade Federal de Pelotas, cujo reitor possui orçamento maior e rivaliza com o prefeito em matéria de poder. A mesma dependência ocorre em relação a algumas empresas privadas, que financiam veículos com publicidade forte e exigem bom tratamento. Para os donos do negócio, o sagrado direito dos pelotenses à informação fidedigna e crítica tem menos valor do que a boa convivência com o poder local. Esse problema é maior porque Pelotas e a Região Sul vivem uma crise econômica crônica e, por ora, não vemos sinais de que a situação vá mudar, apesar da propaganda de que, no rastro do pólo naval de Rio Grande, seremos um novo El Dorado – uma nova Princesa pós-plástica e talvez com algum botox, como a ministra Dilma (Rousseff).

A imprensa pelotense é submissa?
A submissão jamais deve mediar qualquer relação, sobretudo na imprensa, que está aí para fiscalizar o poder. Por conta dessa postura, em que os nichos corporativos de sempre lutam para manter o status quo, Pelotas é conhecida em Brasília, entre jornalistas pelotenses, como “a mais longa decadência do universo”. É uma frase cruel, mas que reflete a mesma crueldade dos grupos que tentam continuar comandando o show, menosprezando valores republicanos, ou maragatos, como prefere meu amigo Vidal. Em parte, aquela definição é verdadeira. Digo em parte, pois vejo também uma Pelotas que não é notícia, mas que luta para transpor o atraso. Existem excelentes cabeças furando o velho esquema viciado, com inteligência, qualidade e trabalho. Há vários exemplos.

O jornalismo local poderia ser melhor no contexto atual?
A população anseia por isso. O êxito do blog até aqui é um sinal disso. Há um fator novo, além da baixa qualidade, que explica a queda livre do jornalismo tradicional na cidade. Hoje em dia as pessoas procuram informação confiável e crítica na internet, no blog Amigos de Pelotas, mas também em outros veículos estaduais, nacionais e internacionais. A internet realizou na prática o sonho anarquista, a democratização do acesso à informação vem provocando uma revolução na mídia em todo o mundo, pondo em xeque, sobretudo, os jornais impressos. Diante disso, a mídia local faz o de sempre: resiste às inovações. Até hoje não está na internet. Algo me diz que, se um dia aportarem na rede mundial, o tempo real seguirá sendo miragem. O fato é que ninguém mais se conforma com as práticas da mídia pelotense, em que o conteúdo editorial e o tempo real têm menos importância do que a veiculação de propaganda e o desespero por manter os assinantes do produto impresso. Agora, se vierem para a internet, de nada adiantará se mantiverem a postura editorial de hoje. O tempo real deve ser acompanhado por um tratamento jornalístico sério; do contrário, vão naufragar por completo - é uma questão de tempo. Na verdade, hoje em dia, em geral, a imprensa nativa virou uma grande seção de classificados. Diante dela, os consumidores não buscam se informar, somente conferir a oferta de produtos. A informação virou artigo de segunda classe, um disfarce para intenções comerciais. Não raro as próprias informações são veiculação comercial paga disfarçada de notícia.

Se existem jornalistas que se vendem é porque alguém os compra. A população contribui para esse estado de submissão, de subserviência, da imprensa?
Numa conversa com um forte anunciante regional, um cara de cabeça arejada, ele me confessou, surpreso, que um jornal local, tentando captar anúncios de sua empresa, ofereceu-lhe no pacote matérias simpáticas a sua firma. Isso é o descaramento total, e desespero por dinheiro (risos...). Esse empresário teria respondido ao jornal que não faz questão da matéria paga. Deseja apenas que, se um dia forem publicar alguma pauta desconfortável a ele, que lhe deem a chance do contraditório. Eis um exemplo louvável que, se por aqui é exceção, é a regra em cidades como Brasília, São Paulo, Rio, Porto Alegre etc. Por que aqui deve ser diferente? Eu gosto de ver Pelotas com os olhos da modernidade, sobretudo nas relações. Recuso a ideia de que a realidade por aqui deve se manter congelada. Para a vida valer a pena, temos de nos abrir para superar limites e vencer preconceitos. Do contrário, o sujeito cai num tipo de loucura, descrita pelos profissionais de saúde mental, que é essa tentativa que vejo em muitas pessoas da cidade de quererem ajustar a realidade às suas fantasias. Quando renegamos o movimento do pensamento, além de nos matricularmos num hospício a céu aberto, a vida enfeia, as possibilidades das pessoas e da cidade empobrecem junto com o espírito.

O que paralisa Pelotas dessa maneira?
Tenho dificuldade para compreender Pelotas. Eu me pergunto por que uma cidade com a tradição cultural e intelectual que temos, que deu escritores importantes, artistas plásticos, escultores, pintores, juristas de renome, gente para cinema, teatro e tevê, uma cidade que teve um banco e intensa atividade cultural e educação pública de qualidade até 25 anos atrás, e que fica próxima a Porto Alegre e a Buenos Aires, ainda não foi capaz de transcender o provincianismo nas relações. Algo nos prende a um cenário de mofo, bolor e limbo. Vivemos uma espécie de apogeu em plena derrota, um fenômeno a ser estudado. Os mais ácidos diriam esquizofrenia, fuga da realidade. Por exemplo, não entendo porque, mesmo depois da ditadura militar, a imprensa local tem tanta dificuldade de fazer um jornalismo sério, verdadeiro, que debata as questões da cidade com maturidade, abertamente. Minha sensação é de que Pelotas fica brincando de casinha, tentando congelar uma paisagem que não encontra correspondência na vida real. Aquele trecho da música do Cazuza, “tuas ideias não correspondem aos fatos”, cai como luva nos pelotinos.

Sim, mas a cidade não é um ente sozinho. Nós somos e fazemos de Pelotas o que é, e de certa forma estamos todos atados a essa paralisia, a esse comportamento "pelotino". Por que não conseguimos romper com isso?
O jornalista Luiz Lanzetta, pelotense que mora em Brasília, tem uma explicação interessante. Ele diz que os pelotenses têm resistência à crítica, por causa da insuportável fatalidade de conviver com a realidade. Alguns continuariam a olhar para trás, sonhando com milagres históricos (recriação do Banco Pelotense, Metade Sul, Petróleo na Lagoa dos Patos...). A situação não é mais crítica, diz ele, porque o Rio Grande do Sul candidatou-se a ser uma grande Pelotas. Está parado e sonha com a República Farroupilha. Para ele, Pelotas é o único lugar onde o padle deu certo porque é o único esporte em que a bolinha vai atrás do jogador, o que ele considera a metáfora pelotense. Não deixa de ser verdade.

Muitos leitores do AP criticaram aquilo que chamaram de “perseguição ao reitor César Borges”, e não raro insinuaram que os problemas eram de outra ordem. Tu tens ou tiveste problemas pessoais com César Borges?
Não tenho, nunca tive. Tento ver Borges (foto), contudo, na exata medida. O título de reitor ou quaisquer outros não me impressionam, não são eles que fazem a grandeza ou a pequenez de ninguém. Trabalhei com senadores, ministros. Tive minha fase de deslumbramento, mas passou. Nesse ponto, estou com os franceses, para quem o sujeito vale pelo que pensa e por seus atos, não pela alcunha que o reveste, seja quem for. Com diz Sartre, o sujeito se define nas escolhas que faz. Vejo Borges como um servidor público, seu cargo atual, além de ótimo neurocirurgião, embora não pratique a medicina. Aliás, eu o prefiro como médico a administrador (risos...). Respeito sua carreira e reconheço que ninguém se elege três vezes reitor se não tiver habilidades. Agora, eu também tenho amor próprio. Ou seja, o mesmo respeito que tenho pelos outros, gosto que tenham comigo. Sou jornalista, dirijo um espaço de comunicação. Nessa posição, preciso desempenhar meu papel, assim como o reitor, o dele. Se o blog publica matérias que o desagradam, e publicamos, lamento, mas não é pessoal, são os ossos do ofício. Ou do orifício, como dizem alguns.

Como e quando surgiram as denúncias de possíveis irregularidades na UFPel?
Uma das missões do jornalista é fiscalizar o poder público. As outras são buscar a verdade, ou a melhor versão dela, e exercer o espírito crítico. Quando cheguei a Pelotas comecei a ouvir histórias sobre processos contra a universidade no Tribunal de Contas, além de problemas no Ministério Público. Todo mundo falava, mas ninguém publicava essas questões, ao menos não com profundidade. Isso é a cara da velha Pelotas, acostumada a varrer para debaixo do tapete os temas delicados. Fiz o que minha profissão exige. Procurei o MP e o Judiciário e trouxe à luz aqueles assuntos. Procurei ouvir a posição da reitoria, mas, infelizmente, não me responderam.

Qual a repercussão que tiveram as matérias sobre a UFPel?
É difícil elogiar a si próprio. Mas é justo reconhecer que graças ao blog Amigos de Pelotas alguns problemas da Universidade Federal com a Justiça vieram à tona em rede nacional. No começo foi difícil, só nós cobríamos os casos, ninguém mais na cidade, nem a RBS. Ficamos sozinhos bastante tempo, o que pode ter provocado a sensação de perseguição ao reitor. Mas então a TV Nativa (Record), publicou matéria de três minutos em rede estadual. Logo depois o jornal Correio Braziliense, nosso Washington Post, publicou três reportagens extensas sobre os problemas da universidade que já havíamos abordado. O jornal Folha de S. Paulo, referência de informação do país, fez o mesmo, em sua versão impressa e na internet, como o Correio Braziliense. A repercussão do caso provou que nós, uma equipe de um blog do sul do sul do país, quase na fronteira do Uruguai, estávamos no caminho certo. É uma demonstração também do poder da internet, algo que alguns pelotenses, para não fugir à tradição, menosprezam, ao contrário, por exemplo, de Barak Obama, que teve na internet um aliado fundamental na sua eleição e, como já adiantou, continuará a ter na Casa Branca.

Tu divulgaste no AP um pedido de entrevista com César Borges. Qual foi a resposta da reitoria? Já marcaram a entrevista?
Recentemente mandei por e-mail um pedido de entrevista ao chefe da comunicação social da UFPel, jornalista Clayton Rocha. Ele me respondeu que o reitor estava de férias e que, assim que voltasse, nosso pleito seria encaminhado. Já faz mais de 15 dias. Continuamos esperando.

Na tua opinião, porque o reitor se nega a falar com o blog, já que é sempre tão solícito com o Diário Popular?
A resposta a esta pergunta já respondi quando falei da relação umbilical dos veículos com o poder. Nós fizemos a nossa parte, procuramos entrevistar o reitor mais de uma vez. Em jornalismo, há uma prática assim: damos um tempo para que as respostas aos nossos questionamentos cheguem; se não vêm, publicamos a matéria, informando aos leitores que o “outro lado” não quis se pronunciar. Em relação ao blog, o reitor parece se guiar pelo provérbio segundo o qual “a palavra é prata, enquanto o silêncio é ouro”. Em certos momentos aquele ditado é válido, mas nem sempre. Para mim, em se tratando de contato com a imprensa, o silêncio denuncia mais do que a palavra.

No começo, o blog publicava muitas matérias desconfortáveis à prefeitura. Ultimamente, não. Por quê?
Durante bastante tempo procuramos mostrar alguns problemas da Prefeitura, bem como da Câmara de Vereadores. Abordamos alguns casos de má conduta pública, acertos escusos, nepotismo etc. Quando veio a eleição, tivemos de abrandar, por causa da legislação eleitoral, que manda a mídia equilibrar o noticiário sobre os candidatos, sob pena de multas e outras penalidades. Pessoalmente, discordo da legislação. Como ocorre em democracias mais avançadas, como nos Estados Unidos, acho que a campanha eleitoral é o momento mais propício para que a imprensa mostre quem são os candidatos. No Brasil, a legislação faz o contrário, blinda os candidatos. Isso é o Brasil, o país da piada pronta, como diz o José Simão (da Folha de S. Paulo). De qualquer modo, durante a campanha eleitoral, houve um momento em que decidi que teríamos de tomar cuidado para não cair no denuncismo, uma praga que tomou conta da imprensa brasileira na redemocratização, a partir do governo Collor (Fernando). Depois de mais de 20 anos de ditadura e censura à liberdade de expressão no país, os jornalistas estavam sedentos. Para se ter ideia, chegaram a publicar que Collor, pressionado pelo impeachment, fazia uso de antidepressivos supositórios. Não acho que tenha feito isso na frente de ninguém, muito menos de repórteres. Passaram-se 16 anos desde então e a imprensa continua com sede, cometendo excessos aqui e ali, um erro que decidi não repetir. Recebemos muitas denúncias, principalmente contra a prefeitura e a câmara; algumas não se confirmam, outras estão sendo investigadas pelo Ministério Público Estadual, que tem um ritmo mais lento do que o Federal. Ou seja, é preciso cautela. O blog continuará a fiscalizar os atos do poder público e a fazer denúncias, mas não temos o direito de macular a honra de ninguém com acusações infundadas. Sempre digo que nosso trabalho não pode impedir-nos de frequentar o Café Aquários de cabeça erguida. Queremos o respeito do leitor, sobretudo dos que eventualmente virem notícia por motivos desconfortáveis.

Tu és amigo do prefeito Fetter? Qual a tua relação com ele?
Fetter Jr. (foto) me parece uma pessoa inteligente. Sei que é um estudioso das questões públicas, que invade madrugadas trabalhando e conhece todos os temas e números referentes à administração. Mantenho com ele uma relação cordial, como procuro fazer com todos os personagens passíveis de virarem notícia, e ele conosco. Tanto que cedeu-nos seu número de celular, prontificando-se a esclarecer qualquer assunto, e "confessou" ser leitor do blog. Quando me encontra, macaco velho, cumprimenta-me assim: “Como vai a imprensa crítica de Pelotas?” O fato de eu manter uma relação cordial com ele não quer dizer que concorde em tudo nem que venda minha consciência profissional. Quem acompanha o blog sabe que fazemos denúncias, a ponto de seu secretário da Qualidade Ambiental ser afastado do governo, e que continuamos a criticar atos da prefeitura. Recentemente, quando Fetter substituiu a secretária de Educação pelo ex-prefeito de Santa Vitória do Palmar, Artur Correa, nós publicamos artigo sobre os processos contra Correa na Justiça. Pergunta se alguém mais na cidade publicou algo semelhante. Ninguém... Dias depois, liguei para Correa, em busca de informações para outra matéria. Ele me atendeu cordialmente. O trabalho do jornalista é difícil, mas quando você não mente e trata as notícias com equilíbrio, o “atingido” acaba aceitando a convivência. Se Correa responde a processos judiciais, cabe à Justiça condená-lo ou absolvê-lo, não à imprensa. No máximo podemos contar sobre a existência dos processos e opinar sobre a conveniência de sua presença no governo.

Até onde vai a tua relação com o prefeito Fetter? Votou nele?
Trato-o com distanciamento profissional. Eu converso com ele esporadicamente, eu, como jornalista, ele, como prefeito. Acho isso normal. Por exemplo, eu me dou bem com meus irmãos, mas às vezes brigamos. Esses conflitos eventuais não nos impedem de voltar a conversar, porque no fundo há respeito mútuo, mas desses embates saímos todos um pouco melhor, e evitamos cometer novos erros por causa da chamada soberba dos egos. Não votei em Fetter. Não votei em ninguém. Quando me mudei para Pelotas, não consegui transferir meu domicílio eleitoral a tempo. Então, apenas justifiquei o não voto. Não acho que fez muita diferença. Se votasse, diante das campanhas que vi, anularia o voto.

Trabalharias na prefeitura?
Se em certo momento eu sentisse que meu trabalho poderia contribuir para o êxito da administração, para a efetividade das políticas públicas e o desenvolvimento de Pelotas, eu não teria problemas de emprestar meus serviços ao Executivo, desde que tivesse um mínimo de afinidade com a postura e o ideário do prefeito da vez. Nessa hipótese, por motivos éticos, eu me desligaria do blog, que passaria a ser dirigido por outra pessoa. Eu viveria então a estranha condição de prestar explicações ao blog que criei. Contudo, essa possibilidade é impossível, por três motivos. Primeiro, porque estou concentrado na consolidação do blog como espaço de comunicação. Esse é o meu sonho, a empreitada que escolhi. Segundo, porque, para aceitar um convite dessa natureza, teria de ser em um posto que hoje está ocupado. Terceiro, porque acho que o convite nunca seria feito.

E se o convite for feito hoje?
Não aceitaria. Como eu disse, meu projeto é o blog, que é uma espécie de segundo filho, que amo tanto quanto o primeiro, de carne e osso, com a diferença de que o blog me traz dinheiro enquanto o primeiro me tira (risos...).

Já ouvi alguém praticamente jurar que te viu entrar no Diário Popular com currículo embaixo do braço para uma reunião com a direção do jornal. É verdade? Tu pretendes ser editor-chefe do DP? Foi para isso que criasses o blog?
Isso nunca aconteceu. Pelotas é a cidade dos boatos, como se sabe. Temos muitos videntes por essas bandas. Deve ser por causa do pampa. O sujeito fica olhando para aquele infinito com o pensamento perdido em divagações. Quando cheguei aqui, a direção do DP havia acabado de demitir dois editores-chefes no espaço de ano e meio. Aí contrataram um novo, que acabou também demitido. Foram três diretores de redação postos na rua, o que mostra a desorientação do DP em termos administrativos e editoriais. Nenhum jornal que se preze demite pessoas naquela posição com essa velocidade. Com relação ao editor que estava aí quando criei o blog, nunca o critiquei diretamente. No começo, eu publicava textos críticos sobre a cobertura do jornal, tentando monitorá-los, já que o prefeito é um dos seus proprietários. A missão do jornalista de fiscalizar o poder público se estende ao jornal por único motivo - em conseqüência da relação acionária do prefeito com o veículo. Às vezes as pessoas se esquecem desse ponto. Então, nossa cobertura em relação ao DP jamais teve o propósito de atacar a concorrência, como se diz, até porque são espaços de natureza diferente e linhas editoriais opostas. A sensação de que eu pudesse ter interesse em trabalhar no jornal surgiu, imagino, porque às vezes, a título de humor, eu ironizava uma seção que eles publicam na contracapa. Essa seção traz todo dia uma foto de um leitor e uma legenda. Nela, o antigo editor fazia uma coisa engraçada. Sob a foto de ovelhas, por exemplo, escrevia a seguinte legenda: “Ovelhas”. A descrição sugeria que os leitores não haviam identificado o animal pela imagem. Nesse dia, por exemplo, publiquei um agradecimento ao editor por “elucidar” a imagem que estávamos vendo, já que poderíamos pensar que os animais se tratavam de javalis selvagens (risos...). Era uma brincadeira. E parece que funcionou, já que o editor que sucedeu o antigo mudou a abordagem das legendas dessa seção, buscando descrições menos óbvias e mais poéticas. De certo modo, eu colaborei para aperfeiçoar o DP, mesmo que só um pouquinho.

Afinal, tu pretendes ser editor-chefe do DP?
Essa afirmação aparece muito em alguns comentários. O máximo que digo sobre isso é que até poderia pensar num convite. Contudo, desde que o cargo fosse de diretor da redação, que meu salário fosse maior que o do filho do Lula na Gamecorp e que no contrato constasse uma cláusula de indenização alta, caso me demitissem antes de dois anos. Ah, sim, e desde que aceitassem que eu implantasse um projeto modernizador do jornal. A cláusula indenizatória seria importante, já que o DP demitiu três editores-chefe em menos de três anos. Será que me chamariam? (risos...).

O blog sofreu consequências por causa da maneira como conduzes o teu trabalho?
O professor Carlos Valério, da Escola Mario Quintana, diz que quando surge alguém com ideias novas e avançadas, o feudo pelotense se inquieta. Assim como ele, nós sofremos algumas tentativas de nos desacreditar. Todas elas protagonizadas por anônimos, ou seja, pessoas muito corajosas. Esses ataques começaram no blog de um jornalista que foi demitido do Diário Popular há alguns anos. Ele criou um site para bombardear Fetter Jr., a quem aparentemente creditou a responsabilidade por seu afastamento, já que o prefeito possui 10% da cota acionária do DP. Ele não mora do RS, mas há anos alimenta seu blog com artilharia pesada contra o prefeito, sua pauta predileta, quase única. Pois, de repente, durante a última campanha eleitoral, esse rapaz resolveu nos eleger igualmente como inimigos, tentando nos atingir. Muito ético, como se vê. Cheguei a pensar num processo, mas, aconselhado por um juiz, desisti, uma vez que os ataques, feitos por anônimos, por si só careciam de credibilidade, além de fragilizar o autor e o seu blog. Nós começamos nosso blog muitos meses depois dele iniciar o seu, acabamos de ultrapassar 560 mil visitas, ele ainda não superou 100 mil. Os números falam por si.

Como é a tua relação com o deputado federal Fernando Marroni (PT)?
Nunca tivemos essa oportunidade. Conversamos uma vez, numa situação difícil. Sempre digo que o responsável pela minha chegada à idade adulta foi o presidente Lula. Cheguei a participar de comícios em Brasília, na campanha presidencial que o elegeu. Torci por ele, achava que o Brasil merecia uma experiência à esquerda, ao menos para o fortalecimento da nossa cultura política. Nesse sentido, saímos ganhando, mesmo que Lula tenha sido uma decepção diante de suas promessas. Desde então, não acredito mais em ideologias e políticos. Não acho que o sujeito é bom por ser de esquerda nem ruim por ser de direita. Quem pensa assim ainda vive na idade média. Na verdade, sempre abominei maniqueísmos, mas alimentava algumas esperanças...

Que situação difícil foi essa com Marroni?
Na tal conversa, eu fiz uma pergunta incômoda. Durante entrevista coletiva, com a presença do ministro da Justiça, Tarso Genro, perguntei a Marroni (foto abaixo) se conhecia certa pessoa. Ele disse que “sim”. Perguntei na sequência se essa pessoa tinha emprego no Ministério do Trabalho, em Brasília. “Sim”, ele confirmou. Indaguei então o que essa pessoa fazia em Pelotas, trabalhando na campanha dele, Marroni, recebendo salário do governo federal. Ele respondeu que o assessor “estava de férias”. Tentei saber quando tinham começado e quando terminariam as férias do assessor. Ao invés de responder diretamente, Marroni insistiu no argumento de que o assessor “estava de férias”. A assessoria do candidato ficou de mandar ao blog um esclarecimento sobre a situação funcional do assessor, mas nunca o fez. Desde então, deixaram de nos atender. Devem ter pensado que eu estava a serviço da candidatura Fetter. Não era o caso, mas vamos supor que sim: isso invalidaria a pergunta que fiz? Evidentemente não, já que eu estava ali como jornalista. Marroni repetiu César Borges. Refugiou-se no silêncio, o que para mim é indicativo de culpa. Não estou dizendo que é culpado de alguma coisa, apenas que o silêncio sugere culpa.

Não foi possível uma reaproximação? Como fica a situação agora? Ele é deputado federal, um representante da cidade, eleito...
Ainda durante a campanha, ofereci espaço no blog para um artigo de Marroni. O artigo sairia junto com o de Fetter, igualmente candidato à prefeitura. Os artigos seriam uma resposta à pergunta O que Pelotas ganhará com a minha eleição? A assessoria do petista prometeu participar, mas, no dia da publicação, avisou que não o faria. Fui obrigado a publicar só o artigo de Fetter, mas deixei espaço em branco, informando que ali deveria constar texto de Marroni se sua assessoria o tivesse enviado. Não tenho nada contra o agora deputado federal, nem posso ter, não é meu papel. Espero que no futuro tenhamos oportunidade de conversar. A falta do diálogo cria fantasmas e atrapalha o discernimento. O mesmo acalento em relação ao reitor da UFPel.

Eu percebo certo “ranço” teu com o PT? Por quê?
Durante muito tempo, torci pelo PT. Eles me fisgaram na época em que eu era estudante, jovem, quando em geral somos muito receptivos aos valores da solidariedade. Há quadros bons no partido, embora no passado houvesse mais. Quando amadureci, contudo, vi que o discurso deles não batia com a prática. O PT naufragou o sonho de reconstrução do país em bases novas, tanto que, envergonhados, renegaram a estrela e a cor vermelha nas campanhas eleitorais. As personalidades suplantaram o ideário, como ocorre a Lula, cuja popularidade, em alta, é inversamente proporcional à da legenda que o abriga. Também identifico em Pelotas um nicho petista retrógrado, stalinista. Algumas dessas pessoas fazem pose de intelectuais, coçam o cavanhaque e ajeitam os óculos com vagar. Parecem viver numa realidade paralela, tipo o filme Matrix, como se detivessem o segredo do sentido da vida enquanto os outros, nós, vazamos os olhos, como Édipo. Agora, a chamada direita, igualmente conservadora e incompetente, não fica atrás. Na verdade, direita e esquerda em Pelotas estão cada qual de um lado do cabo de força enquanto a cidade permanece estagnada. A cidade é o cabo de força. Pelotas precisa de gestores públicos qualificados, de inteligência e de trabalho. O resto é figuração, como deixaram claro ao mundo a queda do Muro de Berlim e a Globalização.

Por teres trabalhado em Brasília durante muito tempo no governo de FHC, a primeira impressão da cidade com relação a ti é que eras do PSDB. Para alguns essa impressão perdura. Qual a tua relação com o PSDB?
Pelotas tem a mania de enquadrar as pessoas, rotulá-las. Por exemplo, nunca pertenci a partido político. Trabalhei no governo FHC por seis anos, cinco deles como assessor do ministro da Educação, Paulo Renato Souza, e um na assessoria do ministro da Ciência e Tecnologia, embaixador Ronaldo Sardenberg. A proximidade maior com o ideário tucano ocorreu na minha passagem pelo MEC, onde eu tinha a tarefa, por exemplo, de escrever os artigos de opinião assinados pelo ministro nos principais jornais do país. Eu redigia e ele desfrutava dos louros (risos...). De tanto traduzir o pensamento de Souza, mergulhei fundo nas suas ideias e simpatizava com a maioria. Paulo Renato deu uma mexida grande na educação. Entre outras coisas, criou o sistema de avaliação das universidades, o Provão, que está aí até hoje no governo Lula. Criou o Sistema de Avaliação do Ensino Médio, o Saeb. Reativou o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), devolvendo ao país o direito de conhecer em detalhes a realidade estatística da educação brasileira, benefício igualmente mantido por Lula. Apesar dessa proximidade com Souza, creio que consegui manter o respeito profissional. Tanto assim que, depois de me afastar do governo no penúltimo ano de FHC, voltei a ele com o PT, na condição de chefe da redação da assessoria de comunicação do MEC na gestão do ministro Cristovam Buarque, que acabou sendo demitido por Lula pelo telefone. As pessoas costumam fazer julgamentos precipitados. Pela lógica dos apressados, se um jornalista atua num governo tal, pertence a ele. Se isso fosse verdade, eu teria ido trabalhar com alguém do PSDB no Congresso ou outro lugar, depois que eles saíram do governo. Mas não, voltei ao MEC no governo do PT, por causa da minha familiaridade com o tema da educação e porque gozava, acho, do tal respeito profissional. Em Brasília é muito comum esse trânsito de jornalistas, que podem vir a trabalhar para várias colorações partidárias, sem que isso os deprecie. Agora, eu compreendo que, na realidade micro de Pelotas, onde as relações são muito próximas e tratadas como pessoais, o olhar seja contaminado pelas paixões partidárias. Mesmo que eu viva em Pelotas, comporto-me como em Brasília. Alguns não entendem que possa haver desvinculação entre profissional e pessoal. Fazer o que?

Por ter trabalhado tanto tempo no governo federal, nunca sentiste vontade de ingressar da política?
Tirando um ano, em que trabalhei no Correio Braziliense, e outro, em que fui editor-executivo de uma ong que fiscalizava a cobertura da imprensa brasileira sobre os temas da infância e adolescência, eu trabalhei 14 anos em assessorias a políticos, três no Senado, 11 no governo. Sem dúvida, foi um longo tempo. No Brasil há uma tradição. É comum o ingresso na política de jornalistas, advogados e escritores. Por vezes, alguns reúnem em si as três atividades. Em certo momento, esses profissionais se sentem atraídos pelo universo político, uma vez que, em suas profissões, lidam com os interesses maiores e mais caros à sociedade. Foi assim, por exemplo, como os jornalistas Antônio Britto, com os jornalistas e escritores Fernando Gabeira e Arthur da Távola, entre outros. Por vezes, diante da precariedade dos políticos, ocorre-me participar mais ativamente. Nesse caso, eu teria de abandonar o blog, o que não pretendo. Contudo, diante do que tenho visto por aí, acho que eu teria plenas condições de me sair um bom prefeito para Pelotas. Você não acha? (risos...).

Como surgiu o Pelotino, o “colunista social” criado pelo blog?
O Pelotino (imagem abaixo) é um personagem de ficção. Através dele, tentamos mostrar o ridículo das colunas sociais. Pelotino é um remanescente falido da velha oligarquia rural que elogia os emergentes, para ser aceito nesse meio. É uma figura patética que toma chá das 5h, mesmo que esteja sozinho, em xícaras de porcelana inglesas, compradas em leilões de antiquário. Ele simboliza a sofreguidão de algumas pessoas, que chamamos de pelotinos, uma mistura de pelotenses com cretinos, ou seja, cínicos, voltadas ao próprio umbigo enquanto o mundo à sua volta desmorona. Desde Carlos Alberto Motta, o grande colunista social de Pelotas, o único fato novo na área foi o surgimento de um colunista negro, acontecimento digno de nota numa cidade preconceituosa como a nossa, apesar de estarmos situados no litoral, onde a tolerância à diversidade racial é maior do que na serra, inclusive por causa da colonização portuguesa. De modo geral, contudo, acho a coluna social, nos moldes em que é feita, o espelho da mentalidade ultrapassada que domina o universo emergente, mais preocupado com futilidade do que com o valor pessoal lastreado no mérito. Até o mundo mineral sabe que quem é de fato rico, e há poucos em Pelotas nesta condição, quer tudo, menos aparecer em coluna social ou receber a visita do Imposto de Renda. Quem luta para aparecer não é rico, mas quer parecer que é. A população se diverte com as tais colunas, antes de enrolar peixes nelas ou dar-lhes uso menos nobres.

Motta era um Pelotino?
O colunista social Carlos Alberto Motta teve o mérito de quebrar o ciclo das descrições rococó, utilizando um estilo irônico e inteligente. Depois dele, porém, os colunistas sociais voltaram ao rococó. Nas coberturas de festas e outras badalações, a descrição de um candelabro é mais importante que o personagem que a peça ilumina. Essa inversão estética reduz as pessoas, embora se pretenda enaltecê-las. Depois de Motta, a subserviência aos emergentes e aos seus interesses pessoais e comerciais, descritos em tons cor-de-rosa, voltou a correr solta, em muitos casos em troca de favores. Os textos são sofríveis, as descrições são infantis. Dia desses, numa coluna social, deparei-me com a foto de um casal sorrindo e a legenda: “Fulano e cicrana eram só sorrisos”. Já que todos os humanos possuem a faculdade do riso, até mesmo alguns animais, a menção ao casal é redutora de suas potencialidades. Uma abordagem desse tipo sugere que o autor é um caso raro de bebê com anencefalia que chegou à idade adulta. É de ruborizar qualquer pessoa de bom senso, mas dizem que vende publicidade..., que as pessoas retratadas gostam. Então tá... Como diz a música, cada um no seu quadrado.

O blog foi processado?
Fomos processados por um comentário anônimo. Não acho que merecesse processo, enfim. Noutra vez fomos processados por um erro comum em redação. Numa matéria sobre nepotismo na Câmara, em vez de nos referirmos à “mulher” de um vereador, escrevemos “filha”. Por causa dessa confusão, filha em vez de mulher, respondemos judicialmente, mesmo que não tenhamos citado o nome dela. Quando me vi diante da garota no fórum, uma jovem de 16 anos, eu me senti mal. Tanto que, na saída, pedi desculpas a ela. Pedi também que transmitisse minhas desculpas aos seus pais. Ali me dei conta da responsabilidade do nosso trabalho e dos limites da liberdade de expressão. Lamentei profundamente o episódio. Desde então redobramos a vigilância sobre matérias e comentários, sobretudo de anônimos.

Mais algum processo?
Houve outro, por causa de uma matéria sobre malversação de recursos na assistência judiciária de uma universidade local. Mas a reclamante não compareceu à audiência e o processo foi arquivado. Por fim, o reitor da UFPel, César Borges, ajuizou ação, reclamando por eu tê-lo comparado ao imperador romano Caio Cesar Germânico, o Calígula. Não quis ofender, mas comparar condutas. Assim como Calígula nomeou seu cavalo Incitatus para o Senado, afirmei que Borges fazia parecido, ao nomear uma pessoa sem escolaridade superior para dirigir um centro de pesquisa científica. Reconheço que não foi muito elegante, mas retrata bem a situação. Quando Calígula fez de Incitatus senador, humilhou o Senado. Já o reitor deve ter estremecido a academia, um ambiente em que a formação, o mérito, costuma ser a medida das promoções. É difícil fazer jornalismo sem tomar processo. É um risco da profissão. Vale lembrar que ser processado não é ultrajante, até porque quem processa pode não ganhar a causa. Temos procurado aprender com essas situações, mas não ao ponto da autocensura diante de pautas delicadas.

Atirando tantas "pedras", não tens receio de que as portas se fechem para ti na cidade?
Aos 40 anos fiz um trato comigo. É simples: se eu tiver que me anular para merecer o convívio dos outros, estou fora. Tenho 47 anos. Ou seja, tenho no máximo mais 20 e poucos anos de vida produtiva – mais cinco Copas do Mundo de Futebol e ploft, o docinho cairá no rio. Então, quero que os próximos anos sejam vividos intensamente, de peito aberto. Eu me recuso a viver na mediocridade para ser aceito.

Do que tu vives?
Vivo dos anúncios publicados no blog, mas principalmente de trabalhos como consultor, a exemplo dos que prestei em contratos com a UNESCO e com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD). Recentemente um advogado me propôs sociedade. Diz ele que, se der certo, vou acabar saindo na coluna do Mansur (risos...). Pode ser, pode não ser. Provavelmente jamais ficarei rico, mas faço o que gosto e espero ter uma passagem digna pela Terra.