
Marta Fernandes Sousa Costa
Colunista do blog
Cada um enxerga o que lhe interessa, deduz o que lhe apetece, descobre nas entrelinhas coisas que o cronista nem sabe que escreveu. Talvez importe menos o que o cronista pretendia dizer que a leitura feita pelo leitor, a discussão suscitada, a verdade que cada um descobre em si.
Um texto se reveste de valor, quando mexe com as nossas emoções e nos obriga a pensar e a reagir, independente do valor que ele tenha por si mesmo. É como se, de repente, o texto criasse vida própria e escapasse ao controle do autor.
Como aconteceu com a crônica sobre o Dia Internacional da Mulher: cada um fez a sua leitura. De minha parte, imaginei estar reconhecendo na mulher o seu justo valor: bem crescidinha, não precisa comer pela mão de ninguém. Pode escolher o seu caminho, trilhá-lo, refazê-lo quantas vezes julgar necessário.
Mulheres são seres humanos (grande novidade!). Algumas são maravilhosas, gentis, prestativas; outras são verdadeiras pestes, mesquinhas, fofoqueiras. As normais são um pouco de tudo, em doses equilibradas e em momentos alternados.
Homens (incrível!) também são humanos. Alguns, atenciosos, generosos, fiéis; outros mulherengos, irritados, folgados, egoístas. Os normais possuem qualidades e defeitos, demonstrados segundo a hora e a companhia, conforme desperte o lado melhor ou o pior.
Mas a mulher não precisa ser enaltecida com um dia em que seus problemas são debatidos antes que todos voltem a tratar do que lhes interessa realmente, com a consciência tranqüila, depois de feita a homenagem.
A mulher presta melhor serviço a si mesma e a todas as outras quando torna a discussão parte do seu cotidiano, nos 365 dias do ano. Principalmente, quando, sem alarde ou picuinhas, abre o seu caminho, como tantas fazem hoje.
Muitas compreenderam a importância de se qualificar para alcançar os seus objetivos e aí estão, desempenhando os seus papéis, grande número criando e defendendo as leis.
Dessas espero que se lembrem das outras, as milhares entregues à própria sorte, sem condições sequer para garantir o seu sustento ou a segurança física. Muitas por falta de condições financeiras, outras tantas por baixa auto-estima ou por carências emocionais.
Por isso as mulheres não precisam que lhes seja ofertado um dia para avaliação da situação feminina. Será melhor se, a cada momento e sempre, a mulher se questionar, buscando entender as limitações que ainda se cria.
Procurando a forma de modificar as situações que a desagradam, como a divisão de responsabilidade no serviço doméstico e a maior participação masculina na educação dos filhos. Mas esse trabalho compete a nós, os homens não têm culpa das nossas incoerências e destemores. Já têm os seus para se preocuparem.

Marta Fernandes de Sousa Costa é escritora. Natural de Pelotas, é autora dos livros Tempo de soltar as amarras (AGE) e Cá entre nós (Editora Livraria Mundial). As crônicas e artigos de Marta são publicados aos sábados.




1 comt.:
As vezes algumas datas memoriais cumprem uma função de sugestão de reflexão, mas chegara um tempo que o verso do Milton Nascimento será pertinente: "Todo dia é dia de viver".
Quanto a leitura? É possivel dizer que o mundo lá fora não existe sem o mundo aqui dentro, e o que há dentro varia de invólucro para invólucro.
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