Terça-feira, Dezembro 27, 2011

Literárias: O chefão


Marcos Macedo
Para o Amigos

Na famosa cena inicial do filme O Poderoso Chefão, durante o casamento de sua filha, Marlon Brando, no papel de Don Corleone, entretém seus convidados enquanto conduz seus negócios. Ele não recusa nenhum pedido ou favor a um amigo leal, dá conselhos e dinheiro quando necessário. Ele assegura que um imigrante ilegal possa ficar nos Estados Unidos para casar com uma moça apaixonada. Manda surrar um não-italiano por ter abusado da filha de um amigo, mesmo desgostoso porque o amigo, em busca de justiça, procurou a polícia antes de procurá-lo.

O filme é uma transposição para as telas bastante fiel ao livro de Mario Puzo, em inglês intitulado The Godfather. As primeiras edições brasileiras, na década de 1970, saíram com o título O Chefão, apenas após o sucesso do filme é que o livro passou a usar o mesmo título do filme. Em inglês, godfather significa padrinho, e também é como são chamados usualmente os chefes da máfia americana.

Para demonstrar respeito, as pessoas se dirigem a Don Corleone chamando-o padrinho. Na tradução do título para o português, teve-se de optar entre uma das acepções da palavra, e se preferiu usar o termo chefão, que designa o chefe da máfia.

Nisso se perdeu grande parte do impacto do título, porque poderoso chefão invoca apenas um lado violento e autoritário, enquanto que Don Corleone, com sua fala mansa, seus argumentos sensatos e seu poder de convencimento, age a maior parte do termo como um padrinho afetivo e preocupado com os afilhados. Age assim a maior parte do tempo, porque, se após muita conversa e tentativa de convencimento, não conseguir o quer, extermina quem se opõe a ele.

Mesmo para quem lembra bem do filme, o livro mostra-se vigoroso. Há muitos pontos e personagens pouco explorados no filme. Don Corleone está velho, enfrentando as trapaças da idade, e procura entre os filhos, muito diferentes um do outro, um sucessor à altura.

No livro o relacionamento entre pai e filhos, o pai observando e aconselhando-os, é um dos pontos altos. Também o caminho trilhado por Michael (no filme, Al Pacino) está mais claro no livro.

Se a princípio ele pretendia fazer carreira independente dos negócios mafiosos de sua família, aos poucos ele vai sendo movido para o posto de sucessor de seu pai. E o motivo fez dessa história um novo clássico: após um atentado frustrado contra Don Corleone, Michael vê que é o único que pode matar quem ameaça seu pai, e que se não o fizer, Don Corleone será morto.

Para salvá-lo é que Michael entra na carreira de mafioso e dá o primeiro passo, sem regresso possível, no caminho de suceder o pai como o padrinho de tantos afilhados.

Todo o sucesso dessa empreitada entre pai e filho pode ser resumido pelo episódio da morte de Don Corleone. Ele sobrevive às ameaças de assassinato, e morrerá anos depois, pacificamente, segurando a mão de Michael. Suas últimas palavras serão: “a vida é tão bonita”.

ONDE COMPRAR
Livraria Mundial

O Poderoso Chefão.
Mario Puzo.
Editora Bestbolso. 658 p. R$ 19,90.


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