Sexta-feira, Março 20, 2009

A morte de Diana

Rubens Amador
Da equipe do blog

Minha tia Natália, à noitinha, quando meu tio retornou da faina campesina, queixou-se: “A Diana, não satisfeita em ameaçar as ovelhas, comeu os ovos da ninhada, agora deu para matar os pintos”. Meu tio Pedro ordenou aos meus primos, seus filhos, de l6 e 17 anos de idade: ”Amanhã deem cabo dela!” Nos meus treze anos, não entendi direito o que queria dizer. Depois do jantar, os primos me convidaram: “Amanhã vamos matar a Diana, vens conosco?” Engoli em seco. Eu era menino da cidade e eles estavam sempre implicando comigo por causa disto. “Claro”, respondi, procurando aparentar coragem. Mas naquela noite custei a pegar no sono.

O dia amanheceu bonito. O sol veio se insinuando pelas frinchas da janela do quarto. E aquele cheiro de campanha, mistura de bosta de vaca e de perfume das flores, cercadas de abelhas; mugires, galos ao longe, o cheiro do leite gordo vindo da cozinha, o aroma do mate cevado pelos adultos desde cedo, e o cheirinho de pão com torresmo, que minha tia preparava em formatos de bonecos, bichos, luas e estrelas...

Diana era uma cadela branca, mestiça com galgo. Gaudéria, não tinha dono, apesar de possuir nome. Andava por aí, magra, esguia, alta, gingando. Seu focinho marrom claro se ajustava a dois olhos avermelhados.

Ouvi chamarem meu nome. Vesti-me depressa e corri para fora da casa, direto ao terreiro onde Aristeu e Dirceu (meus primos) mantinham a cadela amarrada a uma cordinha.

Aristeu portava arma de caça, enormes cartuchos verdes, que eu vira ser manuseada por ele antes de dormir, na véspera. A mim tocara levar uma pá de corte, que acomodei no ombro.

Caminhamos mato à dentro. Perto de um rio, Dirceu, o mais velho, falou: “Aqui tá bom!” E amarrou a cadela, que gania, a uma árvore. “Ela sabe de tudo”, segredou-me Aristeu. Tomamos uma distância de sete ou oito metros. Então, os primos me estenderam a arma, dizendo: “Toma, atira tu!”

Peguei a arma, fingindo descontração. Jamais atirara, a não ser com bodoque. Apontei. A cadela debatia-se junto ao eucalipto. Eu a via embaçada, por causa do suor.

Encenei um pouco, e falei: “Obrigado, mas hoje não estou bom de pontaria.” E fiz uma proposta: “Quem sabe a gente caminha outro tanto e larga a cadela? Depois do susto, garanto que ela não vai mais perseguir ovelhas, comer ovos ou pintos”. Eles riram, e disseram que à tardinha ela estaria de volta.

“Vamos logo com isto”, disse o Aristeu. “Eu dou o primeiro tiro. Se falhar, aí tu dá o outro”, propôs ao irmão. Aristeu ajoelhou-se e apontou a arma. Eu fingia ver, mas estava de olhos fechados.

O estampido seco ecoou ao longe. Um tremor passou pelo meu corpo.

Abri os olhos em tempo de ver Diana caindo, enquanto de um de seus flancos jorrava um filete de sangue. Em silêncio ajudei a cavar com a pá que trouxera. Pela corda mesma que a prendia, foi posta na pequena vala e a cobrimos com terra úmida.

Naquela noite não pude jantar, e lembro-me que mais uma vez custei a conciliar-me com o sono. Ainda hoje, vez ou outra, a cena me assombra. E cada vez menos entendo como adultos puderam matar, como se cão fosse, a um Federico Garcia Lorca, que jamais foi predador, apenas pensava e criava coisas lindas através de sua poesia imortal.



Cronista, contista e articulista, Rubens Amador colaborou com diversos jornais e outras publicações. Escreve sem dia marcado.

3 comt.:

Anônimo disse...

Cruel. Da próxima vez, Rubens Pai, faça da crônica um conto e mude o destino da pobre Diana.

Anônimo disse...

E a vida é só flor e amor? Crueldade e tristeza existem pra haver alguma beleza. Parabéns pela crônica. Ao sensível anônimo acima eu sugiro a coleção "Biblioteca das Moças".

Anônimo disse...

Infelizmente, ás vezes a vida nos apresenta estas ambiguidades...não quero matar...mas se eu mostrar que não quero, serei um fraco...e se considerarmos alguns anos atrás...pior ainda... o homem tinha que ser macho... Seu Rubens (pai), o senhor contribui muito com a eperiência que nós, mais jovens não temos....e infelizmente, ás vezes, achamos que sabemos de tudo, mas o senhor certamente já passou por isso....continue nos dando uma lição de vida...