Segunda-feira, Março 02, 2009

A nova paisagem dos pampas

Pelas próximas duas semanas, o blog publicará uma série de reportagens sobre a "ocupação" do solo gaúcho e brasileiro pelas companhias papeleiras Votorantim, Aracruz e a filandesa Stora Enso. O material foi produzido pelo gaúcho Lúcio Vaz, repórter especial do Correio Braziliense. O jornalista percorreu o Rio Grande do Sul e outros estados, onde a paisagem muda rapidamente. Ele entrevistou empresários do setor, autoridades, além de populações rurais e indígenas afetadas pelas plantações de eucalipto. Ao longo da série, o jornalista levantou os nomes dos políticos gaúchos que receberam contribuições das papeleiras para suas campanhas eleitorais e os valores. Acompanhe e confira.

















Lúcio Vaz
Correio Braziliense

Com contribuições de campanha para dezenas de políticos e a promessa de investimentos de R$ 10,7 bilhões em cinco anos, três grandes empresas produtoras de celulose invadiram a metade sul do Rio Grande do Sul com florestas de eucaliptos, modificando a paisagem, os hábitos e a economia do pampa gaúcho. As papeleiras foram recebidas de porteiras abertas pelo governo do estado e pelos prefeitos da região, interessados na geração de empregos, renda e impostos. As relações com o meio político do estado foram azeitadas com doações no valor de R$ 2 milhões nas eleições de 2006, sendo R$ 500 mil para a governadora Yeda Crusius (PSDB).

O atropelo na tramitação de licenças de operação e a elaboração de um zoneamento ambiental que impõe poucas restrições à atuação das empresas provocaram as resistências do Ministério Público Federal, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e de ambientalistas, que temem pela formação de “desertos verdes” na região do pampa, com a conseqüente degradação do meio ambiente.

Durante uma semana, o Correio percorreu 3,7 mil quilômetros visitando 10 cidades gaúchas e duas uruguaias para registrar o avanço das florestas de eucaliptos, que atingirão uma área de 440 mil hectares até 2011. O governo do estado estima a criação de 800 mil empregos no período.

Num futuro próximo, a área plantada deverá chegar a 1 milhão de hectares, afirma o secretário estadual do Meio Ambiente, Otaviano Brenner de Moraes. Autoridades municipais saúdam a chegada na nova frente econômica numa região empobrecida, dedicada prioritariamente à pecuária extensiva e às monoculturas da soja e do arroz. Ambientalistas e acadêmicos afirmam que a monocultura do eucalipto esgota os recursos hídricos e prejudica a fauna e a vegetação nativa.

A reação começou com os ambientalistas, mas chegou aos órgãos federais de fiscalização e controle do meio ambiente. O Ministério Público Federal apresentou ação civil pública contra as três empresas de celulose – a Aracruz, a Votorantim e a filandesa Stora Enso – e a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) por supostas irregularidades nos processos de licenciamento.

O superintendente do Ibama/RS, Fernando Marques, critica o zoneamento aprovado pelo estado: “O Ibama emitiu vários pareceres que, acreditávamos, iriam ajudar no zoneamento. Para nossa surpresa, as coisas foram atropeladas”.

O representante do Ibama/RS no Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), Marcelo Medeiros, afirma que o esperado debate técnico-científico foi substituído por uma discussão política e econômica, “sob o argumento de riscos aos vultuosos investimentos já em implantação no estado”. Ele afirma que foi retirada da proposta original de zoneamento “quase que a totalidade dos limites e restrições que poderiam representar mecanismos de salvaguarda da biodiversidade, águas e solos dos biomas Mata Atlântica e Pampa”. Não foram contemplados, por exemplo, os tamanhos e as distâncias entre os maciços florestais.

Licenças
Insatisfeita com a morosidade na aprovação das licenças ambientais, a governadora Yeda Crusius substituiu a bióloga Vera Callegaro pelo procurador Otaviano Brenner de Moraes na Secretaria de Meio Ambiente em maio do ano passado. O secretário do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais, Luiz Fernando Zachia, afirma que não houve “atropelo”. Explica que foi criada uma força-tarefa para apreciar o estoque de pedidos de licenças, que chegava a 12 mil, e não apenas na área de silvicultura.

Segundo Zachia, havia “um pequeno grupo de técnicos que criava um monopólio da atuação, e começava a haver pressão da sociedade. Isso começou a enfraquecer a secretária”. Com relação ao zoneamento, disse que o governo tomou a seguinte decisão: “Vamos acelerar o processo de conversação com a sociedade. O que for do interesse do estado vamos fazer, para não inviabilizar os investimentos. As coisas estavam paralisadas. Acelerar não é atropelar”.

Representante da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) no Consema, o geneticista Flávio Lewgoy desabafa: “O conselho foi usurpado. As pasteiras estão mandando no Rio Grande. O governo colocou etiqueta de preço e vendeu o estado”.

O presidente do sindicato dos servidores (Semapi), Antenor Pacheco, entrou com representação no Ministério Público Estadual alegando que três servidores da Fepam foram transferidos para o laboratório da fundação porque emitiram parecer contrário à ampliação da fábrica da Aracruz em Guaíba (RS) de 500 mil toneladas ao ano para 1,8 milhão.

Brenner contesta a afirmação de que houve recuo do governo na elaboração do zoneamento: “Estamos em estado democrático de direito. O zoneamento tem uma finalidade de proteção ambiental e, por conseqüência, acaba limitando o exercício de outros direitos, de livre iniciativa, de propriedade”. Ele afirma que, ao final do debate, houve um equilíbrio, com a aprovação de entidades que representam agricultores, prefeitos. Salienta que a monocultura da soja já alcança 4 milhões, sem zoneamento, sem qualquer processo de licenciamento.

A ação civil do Ministério Público Federal condena, principalmente, a implantação de extensas áreas de florestas com o instrumento precário das “autorizações” da Fepam, permitido em propriedades com até mil hectares. Na soma das três empresas, porém, essas áreas alcançaram 32 mil hectares.

Leia mais
- Stora Enso criou empresa em nome de brasileiros (2)
- Empregos, renda e o medo da seca (3)
- Invasão dos eucaliptos começou pelo Uruguai (4)
- Desertos na fronteira (5)
- Geógrafos apontam danos causados por eucaliptos (6)
- Papeleira diz que eucalipto não produz danos (7)
- Reserva indígena degradada (8)
- Terras passaram de empregados à Aracruz (9)
- Quilombolas vivem de sobras (10)
- Papeleiras distribuem R$ 8,6 milhões a políticos (11)
- Veracel deixa rastro de destruição (12)

13 cmt.:

leogomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana disse...

É impressionante... Assustador!
Chega a doer, quando, em viagens, nos deparamos com as imensas plantações de eucalipto...

leogomes disse...

O que é realmente assustador, era quando viamos o êxodo rural, por não ter condições de sobreviver no campo sem oportunidade de receitas, pois infelizmente quem recebe ajuda do governo para ficar na terra é só os sem terras, pois os trabalhadores do campo mesmo estes tem que lutar por sí proprio para sobreviver e o eucalipto é uma ótima oportunidade de renda, podendo ainda trabalhar com diversas culturas em conjunto com o eucalipto.
Mas, para quem também diz a velha história que o eucalipto destrói o solo em poucos plantios, está equivocado. Basta lembrar da fazenda da Cia. Melhoramentos de papel nos arredores da Capital Paulistana, onde se planta o gênero australiano há mais de 100 anos e continua se cultivando sem maiores dramas.

O seu uso desde a época das companhias de estrada de ferro, tendo Navarro de Andrade como seu incentivador, salvou e salva da destruição milhares e milhões de hectares de mata e cerrado nativos que hoje não mais existiriam se não fosse por ele, dado nosso voraz consumo de madeira, lenha e papel. Isso sem falar na retenção do carbono pelo eucalipto por um bom tempo, quando usado para produção de madeira serrada.

abraços.

Anônimo disse...

Calma e ponderação é o que sugiro ao Leogomes. Não sou ambientalista e até entendo a revolta das pessoas quando eles (os ambientalistas) não permitem podar uma aroeira na frente de casa. Agora, em relação ao tema em questão, a situação é mais delicada. Trata-se de uma monocultura em grandes áreas, e não é porque temos arroz e soja tomando conta de metade do estado, que vamos dizer que seja uma coisa ambientalmente tranquila. Por isso não podemos deixar que nossa sede por empregos e desenvolvimento econômico nos torne cegos nesta hora. Há que se pensar bem nos prós e contras pois, apesar de ser leigo no assunto, não acredito que só existam ganhos e benefícios. Deve haver um preço a se pagar, e é esse preço que temos que conhecer antes de começarmos a pagá-lo.

Anônimo disse...

Só quem não quer ver ou saber que tais plantações degradam para sempre o solo, a fauna.
É a dita e famosa
"Floresta Silenciosa".
E é !
Pobre Rio Grande do Sul, Pobre Pelotas.
Eu já sabia a causa de tantos afagos, e incentivos pela "nobre" causa.
É uma praga esse amor dos políticos, tanto quanto essa "floresta".
Incentivos...
Sempre Alerta.

Léo Soares disse...

Ambientalistas são hipócritas exatamente porque? Acaso vês algum jogando lixo na rua ou plantando eucalipto pra ganhar algum dinheiro?

O Lucio Vaz, até onde sei, não é ambientalista, é um bom jornalista que procura a notícia.

Impressionante como tem gente que ainda não acordou para o fato de que estamos destruindo o ar e a água, que são o que nos mantém vivos. Seremos extintos devido a ganância das empresas e governos e a imbecilidade do povo. É triste, mas ignorância mata.

André Luís Leite disse...

eles tocam no ponto fraco do cidadao:"geraçao de empregos" - isso nas maos dos politicos e dos "empreendedores" é uma mao na roda para fazer qualquer coisa ilegal e ainda um pouco mais...e os empregos? cade? onde? o mesmo caminho das concercionarias que "compraram de graça" as nossas estradas. Uma geraçao inteira vai pagar muito caro pelo olho grande de alguns governantes.

Sérgio disse...

O Leo Gomes deveria informar-se um pouco mais e saber o que JÁ ACONTECEU E ESTÁ ACONTECENDO onde a monocultura do eucalipto se instalou: Expulsão de agricultores do campo, extinção de cursos e mananciais de água, expulsão de remanescentes indígenas, extinção de espécies animais e vegetais, etc. E a tão falada geração de emprego é balela. As máquinas utilizadas para desgalhar, cortar e pelar o eucalipto são operadas por um único homem que corta e faz todo esse trabalho em várias árvores por minuto. Não é por hora não. É POR MINUTO.
Informe-se.

AEROBENNETT disse...

Com licença,

Os "senhores" se esforçam na difícil tarefa de "extinguir" ou "conservar" aquilo que passa. Falo sério. Contingência pouca... Acabará o pampa? Não sintam-se ofendidos, mas que importa isso? Ou melhor, a quem importa? Sabemos a quem, assim como sabemos a quem importa que não acabe.

Aos heróis e aos oportunistas: Salvem-se! Seja pela ideologia, seja pelo amor ao dinheiro!

Salvem-se e acreditem que todos se vendem, homens e mulheres, palhaços e presidentes, cristos e mendigos: a questão é de preço e o preço sufoca tôdas as consciências, todas as "revoltas".

"Tudo flui, tudo queima senhores."

By: Nero & Heráclito.
(Dupla Sertaneja).

Anônimo disse...

Financiar o MST, sem produção alguma isso pode. Agora plantar eucaliptos, não pode. Que destino terá a nossa zona sul com este tipo de pensamento? atraso, miséria e popreza. Nossa saída será a rodoviaria ou aeroporto. Que melancolico fim.

Anônimo disse...

E e se a projeção de 800 mil empregos for falsa ?
Falsa que nem um nota de 3 reais, falsa que nem as armas de destruição em massa do Iraque, cozido, assado e forjado feito o déficit zero.
E se os empregos que surgirem forem às custas da riqueza que já existe?
Para nos defender de propostas furadas existe a FEPAM.
Ou existia.
Chefiada por um advogado, profissional que acha que pode pontificar em qualquer área do conhecimento, decerto agora acham que a Natureza vai obedecer o que publicarem no diário oficial.

Anônimo disse...

Tenho comprado meu leitinho da reforma agrária sempre que posso em Porto Alegre.
E deixei de ir na colheita de arroz orgânico, mas parece que a festa foi bonita, o procurador do MPE de convidado, acho que meio a contragosto.
Estão confundindo falta de produção com falta de distribuição no mercadinho do bairro? Ou cobertura negativa pela imprensa?

José CS Vidal disse...

Ironia da hora:
"Não falem mal dos eucaliptos, senão eles vão embora,... e o que será de nós?"