Domingo, Março 01, 2009

O Capitão Rodrigo em Pelotas

A percepção do trabalho como indigno, registrada na mente dos gaúchos, sofreu reforços em Pelotas, pois aqui as charqueadas se desenvolveram com mão-de-obra escrava. Para charqueador e família, abster-se do trabalho era sinal de poder e riqueza, de que tinham recursos e escravos para trabalhar por eles

Marcos Macedo
Literárias

Em Um Certo Capitão Rodrigo, Érico Veríssmo se utilizou na ficção de dois dos maiores pilares da formação mental do gaúcho: o narcisismo e a valorização da façanha como estratégia de vida. O narcisismo, na definição de Freud, é o investimento da libido no próprio ego, no que ele é, foi ou será. Nosso narcisismo está voltado para o que nosso ego foi nos tempos de campeiro e guerreiro.

Já em sua primeira aparição, o Capitão Rodrigo fala de si, fanfarrão, pisando no poncho dos outros: “Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!”

Logo após, em seu duelo de adagas com Bento Amaral, o rival pela mão de Bibiana, o Capitão é indignamente baleado, justamente quando faltava talhar a perninha do R, letra inicial de seu nome, no rosto do oponente dominado. O narcisismo do Capitão Rodrigo foi feito sob medida para agradar nosso narcisismo contemporâneo de gaúchos. O hino do Rio Grande do Sul, inspirado na Revolução Farroupilha, recomenda que “sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”. Orgulhamo-nos de um passado de cavaleiros andantes, predadores do gado solto, cujo sucesso era definido pela habilidade na lide campeira, entremeado por guerras e revoluções, em que as habilidades requeridas eram a valentia e a ferocidade na luta.

Essas eram as qualidades do Capitão Rodrigo. Quando tenta se estabelecer no comércio com seu cunhado Juvenal Terra, ele não suporta a vida laboriosa, de esforço rotineiro, que nada tem de façanha, e a acha indigna de si, ele que “brigara em várias guerras” e sentia-se “reduzido à condição de bolicheiro”.

Essa desvalorização da laboriosidade como indigna, que está registrada na mente de todos os gaúchos, ainda sofreu reforços importantes em Pelotas, pois aqui as charqueadas se desenvolveram com mão-de-obra escrava. Para o charqueador e sua família, abster-se do trabalho era sinal de poder e riqueza, demonstração de que tinham bastantes recursos e escravos para trabalhar por eles.

Ainda hoje estão gravados em nossas mentes pelotenses esses elementos: o narcisismo pelo que fomos, a valorização da façanha e a desvalorização do trabalho assíduo como indigno. Estamos condicionados a preparar uma jogada brilhante ou golpe certeiro, com nosso talento, nossa cultura especial, nossa esperteza, que será a solução de nossos problemas individuais e coletivos. Normalmente essa jogada prevê pouco trabalho assíduo.

O problema é que as façanhas funcionaram economicamente no passado, mas hoje não mais. Para ter sucesso, tornaram-se imprescindíveis a laboriosidade e tudo que a acompanha, como o planejamento, a continuidade do trabalho, opostos das proezas que nosso narcisismo tanto venera em nosso passado.

Curiosamente, Freud escreveu que o narcisismo pode ser substituído pelo “ideal do ego” (superego), à medida que o indivíduo enfrenta as críticas dos pais, dos mestres e da opinião pública. Em seu modelo, a criança abandonaria seu narcisismo e erigiria um substituto ideal, ao qual pode render homenagem em lugar de seu ser imperfeito.

Se é assim, nossa situação é complicada: precisamos abandonar modelos mentais ultrapassados, mas nosso narcisismo impede a autocrítica que seria necessária para superá-lo. Provas disso são nossos meios de comunicação, que se dedicam a elogiar a tudo e a todos, mesmo que, como o Pelotino, mintam furiosamente, e a acolhida indulgente para a proliferação de homenagens e troféus de destaque nos últimos tempos.
ONDE COMPRAR
Livraria Mundial

Um Certo Capitão Rodrigo.
Érico Veríssimo.

Editora Companhia das Letras. 184 pág.
R$ 24,50

Outras obras disponíveis na Mundial

- Vida líquida
- Madame Freud
- Os cães ladram

3 comt.:

André Luís Leite disse...

Eu tinha oito anos quando li “Um Certo Capitão Rodrigo” e a partir dali me apaixonei pelo RS. Não entendo porque o pelotense nato ( grande maioria) tenta ser o centro das atenções. Muitos totalmente desprovidos de talento, estilo, personalidade, dinheiro e desprezando a si mesmo. Penso que ao ser alvo de piadas e gozações ele tem sua carência/falta de atenção saciada.

Anônimo disse...

Em qualquer lugar do mundo tem personagens com comportamento semelhante.
Alguns traduzem heroismo, cordialidade, luta pelos desvalidos, crueldade.
Cada cultura ergue seus herois e mitos de acordo com sua evolução e necessidade de crença e esperança.
A alma gaúcha está descrita num antecessor chamado Martin Fierro, um herdeiro de Don Quixote, e de outros cavaleiros andantes.
Todos com forte estrutura narcisita e condenados a solidão.
Cabe na leitura encontrar o condimento que irá definir o sabor da vida de cada um.
O que foram criados guachos conhecem esta dor e são implacáveis em repetir a compulsão ao abandono, diz Angel Garma quando faz reflexão analítica de Martin Fierro.

Renata disse...

Adoro o Capitão Rodrigo, mas acho que é até um pecado indicá-lo separado do resto da obra. Deveria ser indicado todo O Tempo e o Vento, ou ao menos O Continente. É a melhor leitura da minha vida.