Sábado, Março 14, 2009

Conto: O fim da crise

Marieta Cazarré
Colunista do blog

Ainda não havia chegado a primavera, mas, inexplicavelmente, o clima era de verão. Quando, naquela manhã de sábado, de repente, o sol saiu, as pessoas pareciam agradecer aos céus. Saíram aos montes às ruas, a povoar as praças e os parques.

No domingo, de novo o mesmo clima: sol forte, céu azul e nenhuma nuvenzinha pra contar a história. Enquanto curtiam o “verão” já se ouviam rumores pessimistas de que aquilo não duraria muito, logo viria o frio de novo. E, teoricamente, até maio não há escapatória. O frio voltará, assim como os casacos de couro, os cachecóis e as luvas.

No entanto, os dias foram passando lentamente, um trás outro, com o sol lá no alto, brilhando. As praças seguiam cheias de gente. Depois de meses de brancura extrema – exceto pelos turistas italianos que desfilam sempre com seus bronzeados alaranjados quase nada artificiais – já se podia ver rostos rosadinhos e ombros de fora.

Os dias foram ficando mais largos rapidamente. Parecia que cada dia amanhecia um pouco mais tarde e o sol se recusava a dormir tão cedo. Permanecia lá no alto, forte e imperioso. De repente, da noite para o dia, as flores brotaram e encheram a cidade-cinza de cores e cheiros. Os rostos se iluminaram e os corpos começaram a ser mostrados. Canelas, pés, braços, pescoços.

A luminosidade dourada abriu as janelas e as cortinas. Gentes nas varandas e música. Cervejas e picolés aos litros e quilos. Vozes, risadas e os gritinhos agudos dos pequenos. Patins, bolas, bicis, peões. Vestidinhos, bermudinhas, sandalinhas. Vida, muita vida. E, de repente, todo mundo parou de falar na crise.

A antropóloga e jornalista Marieta Cazarré vive em Madri e envia aos leitores crônicas, contos e comentários, escritos sempre com mão sensível e indômito espírito desbravador. Uma brasileira de coração espanhol.