Fabrício com o colete: pinos de 5,6 centímetros na coluna

Rubens Filho
Direto do Notebook
O jovem Fabrício Martins Maria, de 17 anos, que fraturou a segunda vértebra ao cair da arquibancada da passarela do samba, no Carnaval passado, viaja nesta quarta-feira (1) para Porto Alegre. No hospital da PUC, ele será submetido à tomografia e à radiografia. Os médicos querem conferir a evolução da cirurgia, ocorrida no último dia 25 de fevereiro, um dia depois do acidente. Fabrício recebeu três pinos de 5,6 centímetros cada um, acoplados a placas de platina, na tentativa de refazer a vértebra, pulverizada com a queda.
No domingo (22) de Carnaval, Fabrício despencou de uma altura de quatro metros juntamente com uma tábua da arquibancada. Ele recebeu o primeiro atendimento no Pronto Socorro de Pelotas. Levado à capital gaúcha, foi operado uma vez. Daqui a quatro meses passará por nova cirurgia.
Vão da arquibancada, após a queda

Depois da operação (ocorrida um dia depois do acidente), Fabrício convalesceu por 12 dias no hospital da PUC. De volta a Pelotas, recupera-se na casa da família, uma residência modesta no começo da rua Santa Tecla.
Desde que deixou a sala de cirurgia, o rapaz usa um colete no peito, para manter a coluna ereta. Só pode tirá-lo na hora de dormir e de tomar banho. Se precisa ir ao banheiro de noite, ele recoloca o colete. Ou faz as necessidades fisiológicas em uma "comadre", como tem ocorrido.
Fabrício (à dir): quarto coletivo ao invés de particularPor causa das limitações médicas para se movimentar, já que terá de usar o colete até o final de 2009, o jovem passa a maior parte do tempo no quarto, jogando videogame. Pode caminhar apenas uma hora por dia, sempre de colete. Em geral, ele utiliza a caminhada para ir e voltar da Escola Assunção, onde estuda.
Funcionário da transportadora Primavera, o pai do estudante, João Henrique Alvarenga Maria, deu queixa na polícia contra a prefeitura, alegando negligência, horas depois do acidente com o filho. O passo seguinte foi contratar uma advogada.
Danos morais
A advogada da família, Alessandra Madri Spencer Cesar, entrou com uma liminar na Justiça Comum, pedindo ressarcimento à prefeitura do dinheiro gasto pelos pais de Fabrício em despesas de alimentação, durante os 12 dias que passaram ao lado do filho em Porto Alegre. Até o momento não obtiveram o benefício.
Além disso, a advogada entrará nesta semana com uma ação por danos morais contra a prefeitura, na Justiça Comum. Ela alegará que houve negligência e imprudência do Executivo, que liberou os portões de acesso à passarela do samba sem a licença dos bombeiros. Segundo ela, até o momento do acidente os bombeiros não haviam recebido laudos técnicos dos engenheiros da prefeitura.
"A ação se justifica por isso, e pelos danos causados a Fabrício, que enfrenta dificuldades para executar tarefas escolares, além de outras limitações; não poderá, por exemplo, alistar-se no quartel no período da convocação, prejudicando seu eventual ingresso nas Forças Armadas, onde poderia fazer carreira", diz a advogada. O pai do rapaz acrescenta que o filho também não tem podido trabalhar como ajudante de pedreiro, como eventualmente fazia.
João, o pai: banco do hospital como cama
A família reclama que, depois do acidente, a única ajuda material que a família recebeu da prefeitura foi dinheiro para comprar o colete que Fabrício usa e um colchão ortopédico. O colete, de plástico endurecido, teve de ser fabricado especialmente para ele, pela firma Ortobom, e custou R$ 650. "Uma moça da Secretaria de Saúde nos depositou o dinheiro na conta bancária, e pediu que trouxéssemos a nota fiscal, que a prefeitura assumiria a despesa", diz João Henrique.Antes de arcar com o colete e o colchão, a prefeitura ofereceu dois veículos para transporte do jovem até o hospital da PUC, e de seus pais. O rapaz viajou numa camionete Fiorino adaptada para deslocamentos de urgência. Os pais seguiram em outro veículo. "Meu filho tem 1.90 de altura e mal coube na Fiorino. Precisaram empurrar o banco do passageiro todo para a frente. Mesmo assim, Fabrício viajou por três horas até Porto Alegre com a cabeça pressionada no banco e os pés contra a porta-malas."
"Eles (prefeitura) nos deixaram na porta do hospital e deram por encerrada a participação. Só voltaram a aparecer quando, depois dos 12 dias, nós ligamos perguntando se podiam nos buscar", diz João, o pai, que reclama:
Fabrício: 1.92 de altura dentro de uma Fiorino"Durante o tempo que passamos em Porto Alegre, tivemos de nos alimentar graças a doações de dinheiro de familiares e de amigos. Para dormir - diz João - minha mulher e eu tivemos de nos contentar com os bancos do hospital, já que o quarto era coletivo e não havia cama para acompanhante".
"Todo o atendimento foi pelo SUS. A contrário do que disse o prefeito, em entrevista a uma tevê, nós não ficamos em quarto particular", reclama o pai.
"Bancando o Tarzan"
Um dia após o acidente, ao lado da secretária de Projetos Especiais, Cláudia Ferreira (responsável pela liberação da passarela do samba ao público), o prefeito Fetter Jr. disse, em entrevista coletiva, que a prefeitura havia identificado quatro testemunhas que, segundo ele, "viram Fabrício bancar o Tarzan" e que sua queda ocorreu, segundo as testemunhas, por irresponsabilidade do jovem, embora tenha dito também que o caso seria investigado por uma sindicância da prefeitura. Até este momento, passado cerca de um mês, a prefeitura não divulgou o resultado da investigação.
"Eu quero que o prefeito prove que meu filho quis bancar o Tarzan, como ele disse, pois não foi isso o que ocorreu", diz Alexandre, o pai. "Se ele quisesse bancar o Tarzan, a tábua não teria caído junto".
Fabrício conta que, depois de descer ao alambrado para ver o desfile de um bloco, ele voltava para a arquibancada quando pisou na extremidade de uma das tábuas de sustentação e ela cedeu, provocando sua queda. "A tábua caiu atrás e quase me acerta a cabeça", diz o rapaz.
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O dia do acidente




4 comt.:
Gostaria de parabenizar o Jornalista Rubens Amador Filho, bem como o restante da equipe do Blog Amigos de Pelotas pela excelente matéria. Saliente-se que trata-se de um fato já, infelizmente, esquecido pela grande mídia pelotense. Ora, todos sabemos que a Prefeitura de Pelotas foi negligente ao permitir a entrada de pessoas na passarela do samba sem a devida liberação do corpo de bombeiros. Agora o Município de Pelotas arcará com as consequências, mas, de fato o Prefeito deveria ser responsabilizado, bem como a secretária de projetos especiais.
Att.,
C.J.
Por motivos óbvios de retaliação não me indentifico, mais uma vez aliás.
Que bom que o jovem não perdeu o movimento dos membros inferiores ou até mais do que isso. Para os céticos, pode ter sido apenas mera sorte, mas para quem acredita em pequenos milagres diários, eis aqui um deles.
Obviamente o jovem deve processar a Prefeitura, inclusive de modo a não deixar tal omissão com a segurança imune. Da próxima vez, o poder público tomará mais cuidado, não para evitar que jovens corram risco de ter as suas vidas destruídas, mas sim para evitar novos processos, já que o poder público apenas entende a linguagem dos números.
Rubens, felicito por dar o seguimento da triste notícia referente ao Carnaval de Pelotas.
Os efeitos deste acidente, que poderia ser evitado, se a necessidade de fazer a festa não tivesse motivações políticas imediatas, faturar em cima de promoções populares. O retrato da negligência acomete as administrações públicas, Pelotas não poderia ficar de fora, mostra o retrato da desorganização e das tragédias anunciadas. Dar a desculpa esfarrapada, justificando a conduta do jovem brincar de Tarzan, é de um sadismo chocante.
Que falta de respeito com a população.
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