Sábado, Julho 04, 2009

Isto é a nossa Câmara

Na próxima segunda (6), tem sessão solene da Câmara de Vereadores de Pelotas. Entre os homenageados, uma fábrica de brinquedos infláveis. Faz sentido, já que no passado homenagearam uma ferragem, uma revenda de gás de cozinha, uma fábrica de salsicha etc. Certamente a firma de infláveis tem seus méritos, como saber ligar com competência a bomba de ar para dar forma aos brinquedos, gerar muitos empregos e, com seus produtos, embelezar ainda mais nossa paisagem carente de elementos visuais de apelo comercial. Os vereadores que não concordam com as homenagens, e há quem não concorde, acabam aceitando as indicações de 'homenagem' para não entrar em conflito com seus pares em batalhas menores, com medo de ver projetos de valor rejeitados, como retaliação.

O que mais grita nessas homenagens (60 por ano na Câmara) é a falta de critério na escolha dos 'eleitos'. Na dia da cerimônia, vemos pessoas que as merecem ao lado de pessoas que não fazem jus a elas. Por causa disso, todos são nivelados por baixo. Dez beneméritos ao lado de um inexpressivo ou 'esperto', por exemplo, rebaixa todo mundo. Mas a nossa Câmara não está nem aí, pois seu negócio é homenagear, a que preço, exatamente, não sabemos.

Numa hora como essa vale lembrar do projeto do vereador Eduardo Macluf (PP), que pretende diminuir de 60 para quatro as homenagens anuais, e que elas deixem de ser iniciativas individuais de vereadores e passem a ser apresentadas pela Câmara como um todo. Pela voracidade demonstrada até aqui em homenagear (até mesmo a entes abstratos), podemos antever as dificuldades que o projeto de Macluf enfrentará para ser aprovado em plenário.

A mania da Câmara com homenagens (e a dos 'homenageados' em recebê-las) é uma expressão da "velha Pelotas", da Pelotas provinciana. Há exemplos inversos, porém, de modernidade e urbanidade. O escritor e professor universitário Aldyr Schlee, um dos cérebros mais brilhantes da cidade e do RS, atravessou os últimos 40 anos sem receber homenagens. Não que tenham faltado tentativas. Ele é que as recusou.

Depois de quatro décadas, ontem (sexta,3), após rejeitar uma honraria justa, em carta aos que queriam homenageá-lo, ele terminou aceitando-a, por cortesia aos que insistiam em ofertá-la. Recebeu a Medalha 300 Onças, por sua contribuição à afirmação da obra do escritor pelotense João Simões Lopes Neto, que morreu, diga-se, sem ter sua obra reconhecida.

Em seu discurso, na Casa do Capitão (onde morou Lopes Neto e onde é hoje a sede do Instituto que leva o seu nome), Schlee roubou a cena, quebrando outra promessa: não fazer discurso ao receber a medalha. Acabou falando, por educação. Ele o fez de improviso, com sinceridade e, emotivo, chorou ao relembrar uma passagem de sua vida.

Schlee tem cerca de 80 anos de idade. Homem de grande cultura, porém modesto, compreende que a grandeza de uma pessoa não é medida por medalhas nem por brasões. Foi aplaudido de pé por um bom tempo pelos presentes à cerimônia.

Se perguntarmos à boa parte dos vereadores e de seus homenageados, por exemplo, onde fica a Casa do Capitão, certamemente nos indicarão a Brigada Militar. Não é recomendável ir mais longe, já que, diante de uma pergunta sobre o significado de "300 Onças", é capaz de fazerem referência a algum zoológico ou à Geográfica Universal.

Nossa Câmara, que começou a ser renovada na última eleição, precisa de renovação mais profunda. Depois de alertar os melhores vereadores a evitar a Câmara por algumas horas, uma onça, sozinha, talvez desse conta do recado.

5 cmt.:

Anônimo disse...

E quem são, Rubens, os homenageados, além da fábrica de infláveis ????

Anônimo disse...

Na falta do que fazer na Camara, já que Pelotas está a mil, de vento em popa, só progresso... vamos homenager!!!

Anônimo disse...

Adoro homenagens, sobretudo quando edis homenageam o povo votando prioridades melhorando a cidade para que ela possa ser homenageada e assim tornar-se destaque de qualidade de vida para seus habitantes.

Tento crer que os vereadores estão exercitando o ato de homenagear na prática o que é preciso. Quem sabe um dia passem a homenagear a todos no sentido mais pleno!

Anônimo disse...

As homenagens sem critério, em lugar de enaltecer o homenageado, acabam desprestigiando-o.
Schlee que é um homem de critério, soube aceitar a homenagem criteriosa: a da medalha "trezentas onças".
Perguntem a ele se aceitaria uma homenagem da Câmara. Tenho certeza que não.

Anônimo disse...

Penso que todas as opiniões são válidas mas não aceitar uma indicação pública é uma arrogancia e um narcisismo explicito.