
Marcos Macedo
Economista
O formato do blog Amigos de Pelotas exige textos com regras específicas, diferentes do jornalismo impresso. Na internet, posts acima de um certo tamanho não são lidos; já no jornalismo impresso, os leitores aceitam matérias longas. Além desse aspecto técnico, um entre muitos outros, o blog tem uma peculiaridade de conteúdo: a crônica, ou seja, o conto pequeno de enredo indeterminado, só é aceito com muitas restrições, não só por causa do foco jornalístico do blog, mas porque os leitores rejeitam a crônica de tema exclusivamente pessoal.
Esse aspecto remete a um personagem de “A Peste”, de Camus: Grand, um sujeito simples e bondoso, voluntário no combate à peste. Enquanto ela progredia, matando, isolando os habitantes de Oran do resto do mundo, abrindo seus olhos e mudando seus corações, Grand se recolhia toda noite para escrever seu livro, que, uma vez pronto, faria com que todos lhe “tirassem o chapéu”.
A obra já tinha mais de 50 páginas, quando ele caiu doente, e pediu ao doutor Rieux que lhe alcançasse o manuscrito. “Queime-o”, pediu ao médico. Rieux leu-o, e verificou que “todas as páginas traziam apenas a mesma frase, infinitamente copiada, retocada, enriquecida ou empobrecida”.
Uma frase vazia sobre um acontecimento concreto: “Incessantemente, o mês de maio, a amazona, e as aléias do bosque confrontavam-se e dispunham-se de maneiras diversas”, notou o doutor Rieux. Grand escrevia como quem vive a léguas da peste, como se o que estivesse acontecendo à sua volta não lhe dissesse respeito.
Há um paralelo entre o manuscrito de Grand e os posts do blog. Os leitores do Amigos de Pelotas não se interessam por histórias que parecem a léguas de seus problemas, que se preocupam apenas com os destinos de seus autores. Estão interessados isso sim pelo que cada post conta das histórias coletivas, dos sentimentos compartilhados pelos pelotenses de todos os lugares. Interessa-lhes o que temos em comum, e não o que nos distingue e destaca uns dos outros.
Isso leva a outra dos traços do blog: ele não se dedica a fabricar grandes homens, mostrar porque uns e outros merecem distinção, como se fossem estranhos aos destinos de todos os demais, coisa comum entre nós.
A Peste
Albert Camus
Editora Bestbolso
R$ 17,90
294 p.
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E-mails para o autor: msmacedo@terra.com.br
Outras obras disponíveis na Mundial Vida líquida / Madame Freud/Os cães ladram / Um certo capitão Rodrigo / O chefão /Uma história íntima da humanidade / Mães e filhos /Chorar sobre o leite derramado/ Em busca de sentido / Os trabalhos e os dias / Vida conjugal / Doutor Jivago /Mãos de cavalo / Eles eram muitos cavalos / Ulisses e a volta para casa / O avesso da vida / A morte em Veneza / Homem no escuro


1 cmt.:
Marcos, leio sempre teus textos!
Escreves muitíssimo bem! Parabéns!
Além da maneira como fazes, têm "conteúdo", como popularmente se diz!
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