
Pelotudo D´Almas
Especial para o blog
Pelotas, você sabe, é a cidade das aparências. Aparências que só enganam os cegos e os tolos. Durante a feira do livro, dei uns passeios à noite pela praça Osório. Ninguém estranhou a minha capa negra, acharam que eu era um artista fazendo uma performance. Tentei tomar uma dose de Blood Mary na cafeteria, mas, como não tinha, pedi um chá de ervas vermelhas. Me espantei que não servissem Blood, mas me escandalizei mesmo foi com a quantidade de gente que se intitula "escritor".
Em Pelotas, o cara escreve um livro com textos sobre momentos em família e, por causa das amizades, acaba na Academia Pelotense de Letras, entornando o "néctar dos deuses" e vestindo aquele chapéu de plumas. Depois, nas sessões de autógrafo, convida amigos e parentes para buscar o livro e comer canapé, não necessariamente nessa ordem. Uma amiga minha me diz que não perde esses lançamentos, pois é tarada por canapé, que come de três.
Pelotas tem dois tipos de escritor. Os que se dedicam à arte com louvor, raros expoentes dessa penosa atividade que em geral exige anos de dedicação, cuja presença na APL se justifica, entre tantos sem valor literário para estar lá. E os demais. Dentre esses, há várias subdivisões. Duas delas "ressaltam" fortemente na cidade.
A primeira é composta por madames que preenchem seu ócio escrevendo crônicas de viagem e de eventos cotidianos que as envolvem. Em geral, são senhoras que cursam as tais Oficinas de Criação Literária. Há um mérito nessas oficinas: ao menos ajudam o povo a errar menos. O problema é que algumas alunas inventam de tomá-las como manual literário e de achar que sairão delas transformadas como que por encanto num Truman Capote, abençoadas pelo toque mágico da imaginação.
Capote, pelo que sei, nunca fez oficina literária. O norte-americano apenas leu sem parar dos 8 aos 17 anos; aos 18, concluiu que dominava a técnica e escreveu seu primeiro livro. Tinha 20 quando sua novela gótica Other voices, other rooms foi publicada, com grande impacto e um reconhecimento de público e crítica que o acompanhou desde então.
A segunda subdivisão dos autores "demais" é formada por gente da academia. Em Pelotas, há raros acadêmicos dignos de nota como escritores, como Aldyr Schlee. A maioria dos aventureiros que se arvoram a fazer "literatura" acham bonito ter poemas duvidosos publicados, convencidos de que aquela fila de alunos com medo de tirar nota ruim buscando o autógrafo o considera uma pessoa de grande sensibilidade artística.
Não é à toa que o best-seller da última feira foi um livro escrito por dois "não-escritores". Pelo que li, Nauro Jr. e Eduardo Cecconi, autores de A noite que não acabou, se apresentam como jornalistas. Além da escolha de um tema quente, o livro tem o mérito de abordar um assunto local e não ser auto-referencial.
O trabalho vendeu 1300 exemplares até agora; pelos meus cálculos, rendeu quase R$ 60 mil de faturamento em menos de 15 dias. Um fenômeno em Pelotas e, talvez, em Porto Alegre ou outra praça ainda maior. Vendeu mais do que Saramago, Dan Brown ou qualquer livro de auto-ajuda. Minha amiga, de quem falei acima e que me contou tudo, achou o projeto do livro tão bom que nem sentiu falta dos canapés.
Como você sabe, tenho 200 anos de vida. Já vi de tudo por essas bandas e, para ser sincero, ando bastante cansado da pretensão. Mesmo assim, gosto muito dessa cidade e tenho esperanças de que as mentalidades se modernizem. Sempre que posso, brindo a ela com Blood Mary. E agora vou me retirando para o meu caixão hidráulico.
A coluna de Pelotudo D'almas é publicada aos sábados. Quando a azia não o impede de escrever.





.jpg)






21 comentários:
Muito bom.
Conheço um Cara com muitos amigos, que pra não magoá-los, fugiu deles a feira inteira para não ter que comprar tanto livro inútil.
Os acepipes servidos não compensam a inutilidade ocupando as prateleiras.
Há uma diferença que o pessoal não está percebendo: publicar um livro,revela um autor. As vezes,ele revela um escritor.Mas,são poucos,muito poucos.
Muito bom Mr. Pelotudo! Na música também tem muito disso, gostaria que tu desse uma analisada nesse segmento, em algumas dessas andanças. O teu relato do Truman veio de encontro ao que eu comentei no post que falava do Scliar. Pode crê!
Grande Pelotudo!!!! É isso ai, homem das trevas!!!! Aqui em Pelotas não têm escritores... Só escreventes, egresso ou não das oficinas literárias, o que considero invenção de mau gosto. Os grandes escritores aprenderam na marra. Se inventassem um inseticida antiescritor haveria grande montandade aqui em Pelotas. Não sobraria pra ninguém!!!!!
Não sei não, mas esses escritores (mesmo ruins ou equivocados) não têm o direito de publicar? Talvez eles não tenham leitores, mas isso é outro história. Quanto a "calcular" o mérito de um livro pela quantidade de exemplares vendidos também é problemático, pois, em geral, há apelos externos à obra e que independem de sua qualidade intrínseca (caso desse sobre o acidente do Brasil).
Curiosidade: O que o Pelotudo, com sua acidez característica, teria achado do livro do Blog?
Acho de muito mau gosto este tipo de análise, senhor Pelotudo. Revela, inequivocadamente, tendência à preconceituosidade, digna dos pelotinos.
Cocordo quando diz que muitos escritores são de "manual"; a escrita não vem de dentro de si, o caminho é in, e não out. Contudo, não podemos discriminar um indivíduo que se esforça para escrever; é a sua expressão artística, afinal. Ou para ser considerado arte deve passar por um crivo tal qual imprensa marron, ou coisa parecida? Cuidado para não cairmos na leviandade.
Pelotudo, dissestes tudo tchê! Mas te digo democraticamente, se hoje em dia todo mundo é ator e faz novela, filme e teatro! Sabem cantar, gravam CDs, fazem shows e os cambaus. Qualquer um apresenta programa de TV, de rádio e escreve em jornal! E muito pior ainda, qualquer um é juiz de direito, vereador, deputado, senador, governador, ministro e presidente da republica. Portanto, isto de ser autor de qualquer coisa escrita e chamar de livro não me admira.
Me impressiono sim é com a cara de pau desta gente!
Seu Pelotudo...
Uma vez na Escola eu fiz uma redação de como foram as minhas férias. A professora disse que eu tinha um excelente futuro como escritor.
Será que devo publicar ? ?
Desconfio que o cálice com o néctar dos deuses, servido ao novo acadêmico no ritual de admissão, seja um gole de xarope melagrião.
é verdade que o amigo Pelotudo D'Almas é a inspiração pra saga adolescente "Crepúsculo"? Foi daí que tiraram o lance da pele de vampiro brilhar ao sol?
Acaso se seu vizinho publique um livro sobre pulgas amestradas, e convide os amigos para à sessão de autógrafos, o que os críticos tem com isso? Vivam e dixem viver!!!!! Por isso Pelotas é esse "buraco". Não somos nós que temos de julgar. Cronos, amigos, é o senhor da tarefa. A ele é destinado o trabalho de passar o rodo... Nós? Nós... Somos nada perto dele... Não esqueçam que João Simões Lopes Neto, nosso maior contista, em seu tempo foi renegado... Tinham-no como um "grosso" que falava a linguagem dos campões... Quem é ele hoje? O rodo foi passado e ele está ai, sendo reverenciado pelos netos daqueles que, no passado, arrancaram-lhe o escalpo. Cronos... Ele sabe das coisas...
João Simões Lopes Neto não oferecia canapé nem fazia crônica de viagem. Metia a cara no trabalho com seriedade. Fazia literatura como deve ser, investigando a "alma", criando cenários. Se ele escrevesse livros contando a viagem dele a Jaguarão, não chegaria a lugar nenhum. João Simões não é a comparação exata para a maioria dos "escritores" pelotenses, que não produzem literatura, mas sim umas coisas bobas para bobo comprar. Vaidade, pura vaidade, e um desrespeito (ao se intitularem "escritores", querem e serem aceitos na academia) diante daqueles que fazem literatura mesmo, com suor, inteligência e sensibilidade. Há uma incrível baboseira sendo produzida por autores sem qualidade nenhuma.
Ao anônimo das 13:43
No antigo primário, em todas as voltas de férias, as professoras mandavam a gente fazer redação dobre as férias.
Acho que vou publicá-las e virar "escritor".
Assim serei colega do Paulo Coelho.
Gostei do assunto escohido para essa coluna. Gostei também da abrodagem que foi dada e acho que todos esses comentários, de alguma forma, complementam, continuam, dão asas ao assunto. Bom de ler!
Ao anonimo das 22:37. Faça isso... Assim pode ser que saias do anonimato e sejas lido até pelos pingüins como Paulo Coelho. Admito que a literatura do mago não é lá essas coisas, mas, certamente, a sua jamais se igualará a dele. Eta povinho despeitado!
A coluna tem ranço, há necessidade de amesquinhar outrem para se afirmar como alguém. Chama a atenção o ataque às oficinas literárias, dividindo seus estudantes em "categorias". Quem são vocês para falar de algo que não conhecem? É possivel mesmo dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto? Se antes os escritores trocavam ideias por meio de cartas ou mesmo reunidos em bares, hoje o fazem nesse espaço que é a oficina. Se a oficina, aqui em Pelotas, fosse ministrada por Raimundo Carrero, Fabricio Carpinejar ou mesmo L. Antonio de Assis Brasil, haveria possibilidade de o "Amigos" derramar-se em elogios...
PS: sim, sou parcial, sou aluna da Hilda.
Querido e lindissimo fffrrrorrr Pelotudss...rsrs!!
Caramba, o povo local ficou uma fera, heim...rsrs?!? Por que a verdade incomoda tanto...?! Apenas os caras-de-pau que não se importam, mas, uma meia dúzia de pelotenses estão babando ácido e cuspindo enxôfre...rsrsrs!!
A quase verdade é a seguinte: todo mundo é escritor, pintor, ceramista, fotógrafo e por ái vai, porque é bonito ser...hahaha!! E a cara dessa gente não treme nem de longe...!!E... cadê o talento...rs?
Quando o cara é bom mesmo, não tem mídia que o jogue para cima. Haja vista Paulo Coelho, que anda montado numa grana preta, e cadê a obra decente(?!) desse senhor, que atualmente se pensa Deus...rsrs??E para sorte dele, o mundo é permeado de analfaburros...uhuuuuuuuu!!
Seu texto é primoroso. Adorei!!
bjs mis desde vitória-ES.
Postar um comentário