26.11.09

Lourenço Cazarré em Pelotas

O premiado escritor Lourenço Cazarré, pelotense radicado há quase 30 anos em Brasília, está de volta à sua cidade natal, Pelotas. Na bagagem, trouxe vários livros de sua obra, composta por mais de 40 títulos, a maioria destinada ao público infanto-juvenil. Cazarré, que está na cidade por alguns dias, por motivos familiares, é colaborador do Amigos de Pelotas. Seu último livro - A misteriosa morte de Miguela de Alcazar, que saiu pela editora carioca Bertrand Brasil (foto), acaba de ser lançado no país.

O livro, uma sátira aos romances policiais, tem como narrador um repórter policial gaúcho e traz pitadas de estudo quase científico das entranhas do jornalismo e da literatura. O cenário é um improvável simpósio dos maiores escritores de romances policiais do planeta, realizado num hotel de Brasília.

Um dos mais prolíficos autores brasileiros, traduzido no exterior, Cazarré concedeu entrevista ao blog. Veja abaixo.

Há poucos anos, ele recusou convite para ser paraninfo da Feira do Livro de Pelotas, pois, segundo ele, não gosta da badalação. "Meu negócio é escrever", disse. Entre seus mais de 40 livros, Cazarré tem novelas infanto-juvenis, adultas, contos e romances. Conquistou inúmeros prêmios nacionais e internacionais importantes, a começar pelo Jabuti e o Bienal Nestle de Literatura, e não faz questão de pertencer à Academia de Letras, nem aqui nem no outro mundo.

Cazarré recebe prêmio das mãos do escritor Jorge Amado

Bate bola com Lourenço Cazarré
Em 1982, você ganhou a I Bienal Nestlé de Literatura brasileira. Esse fato deu um impulso na sua carreira?
Prêmios literários no Brasil podem dar uma certa visibilidade, mas ela acaba logo adiante. Esta é uma nação ágrafa. Poucos lêem. Aqui os prêmios literários não têm a dimensão que alcançam em outros países. Aquele foi um prêmio muito badalado, mas tivemos um sério problema: o livro foi produzido por uma editora de fundo de quintal e não teve distribuição. Olhando para trás, O Calidoscópio me parece datado. Ele faz parte do chamado realismo fantástico, fenômeno literário e marquetológico que se estendeu por uns vinte anos. No Brasil, ele quase não entrou. Na época eu estava fascinado por Garcia Márquez e Vargas Llosa. Agora, passados trinta anos, eu já não os coloco entre os meus autores prediletos. A I Bienal Nestlé de Literatura foi o maior concurso literário realizado já no ocaso da ditadura. Havia uma grande expectativa em torno do resultado. Dizia-se que toda a imensa produção literária dos anos de chumbo, que estaria escondida por causa da perseguição do regime militar, viria à tona para disputar o prêmio milionário. Nem sei mais que moeda vigorava na época. Talvez fosse a pataca. O concurso reuniu quase 500 romancistas. Não sei por que ganhei. Também sátira, O Calidoscópio narra as desventuras de um ditador livremente inspirado em Getúlio Vargas durante o tempo em que permanece, junto com seus ministros, aprisionado num porão.

Quando foi que você começou a escrever livros para jovens?
Em 1985. O gaúcho Paulo Condini, que coordenava a editora Atual, me perguntou se eu tinha algum texto para a garotada. Em um mês de férias, escrevi O Mistério da Obra-Prima. Peguei gosto pela coisa. Eu já andava meio desiludido com a literatura adulta, mesmo. Meu primeiro livro foi aclamado pela crítica e vendeu bem. Mas, quando chegou o contracheque, vi que o direito autoral de seis meses de boas vendas não pagava a metade de um aluguel. O correr do tempo, depois, me ensinou que um livro de literatura adulta, mesmo que bom e badalado, vende no máximo mil exemplares e que um livro bom juvenil pode tirar dezenas de edições. Eu me diverti muito escrevendo para jovens. Tenho orgulho de ter escrito O Clube dos Leitores de Histórias Tristes, Um Velho Velhaco e Seu Neto Bundão, Quem Matou o Mestre de Matemática?, Nadando contra a Morte e Isso não é um Filme Americano, todos ainda em catálogo, todos vendendo bem.

Um de seus contos virou foi parar na televisão. Conte essa experiência.
De fato. O conto Meia encarnada dura de sangue foi transformado em episódio da série Brava Gente Brasileira, da TV Globo, dirigido pelo Jorge Furtado. O conto narra a história do primeiro jogador negro do RS a ser contratado por um clube de futebol.

"Outra coisa que me impressionou foi a dimensão do ego dos professores universitários. Todos os meus "editados" se julgavam gênios. Sempre fui muito crítico dos jornalistas, por achar que quase todos se acreditam semideuses, mas levei um tranco ao descobrir que todos os professores universitários se sabiam Deuses"

Você também foi editor. Fale dessa experiência?
Em 1987, fui chamado para ser chefe de editoração da Editora Universidade de Brasília. Aceitei porque estava cansado do jornalismo. Ingressei então no emprego mais empolgante que tive, mas também o pior remunerado. Realmente era maravilhoso fazer livros. Mas eu descobri em seguida a regra número um daquele cargo: editor não tem tempo para ler o que produz. Outra coisa que me impressionou foi a dimensão do ego dos professores universitários. Todos os meus "editados" se julgavam gênios. Sempre fui muito crítico dos jornalistas, por achar que quase todos se acreditam semideuses, mas levei um tranco ao descobrir que todos os professores universitários se sabiam Deuses.

Quantos livros você publicou?
Levantamento feito hoje: 2 romances, 5 novelas adultas, 5 livros de contos, 22 novelas juvenis, 2 livros de reportagem, 23 participações em coletâneas de contos, 1 em antologia de textos de teatro, 1 num livro de ensaios sobre jornalismo. E, por fim, um livro infantil (O Macaco Que Queria Ser Rei).

Você prefere escrever para adultos ou para jovens?
No momento ando meio parado com a literatura juvenil. Nos últimos anos, tenho trabalhado mais com textos para adultos. Acabei de lançar agora A Longa Migração do Temível Tubarão Branco e e uma outra novela, policial, satírica, pela Bertrand: A Misteriosa Morte de Miguela de Alcazar. Levei dez anos escrevendo o Tubarão e oito no Miguela. O problema da literatura adulta no Brasil é que os brasileiros, mesmo os formados em universidades, são quase todos ágrafos. Não gostam de ler, recusam-se a ler. Sentem-se ofendidos quando precisam ler alguma coisa. Reclamam do preço dos livros, mas compram discos. Aliás, compravam, quando existia a indústria fonográfica. Já quando escreve para jovens, você enfrenta a concorrência dos muitos monitores: tevê, tevê a cabo, internet, jogos eletrônicos. O livro para jovens, na minha opinião, tem que ser ágil e divertido. O fundamental nessa área é formar leitores. Você tem que provar a muitos deles que não morrerão se lerem um livro de cem páginas. A principal função do escritor de livros juvenis deve ser despertar nos adolescentes a paixão pela leitura. Nos meus livros não há sociologia, filosofia, antropologia nem psicologia. Conto causos. Os meus textos não têm mensagens. Numa época medíocre em que até o lixo da auto-ajuda começa a ser aceito como literatura, eu quero dizer que, para mim, livro bom é o de destruição. Autor decente é que aquele que, quando você se encontra na beira do abismo, vem e pisa em cima dos teus dedos. Ele não te ajuda. Ele te empurra para o abismo.

Quais os seus textos adultos de que mais gosta?
Prefiro meus cinco livros de contos, quatro deles premiados. Na maioria, eles têm Pelotas como cenário quase único. Acho que Os Bons e Os Justos e Sinfonia dos Animais Noturnos são novelas dignas.

O que você lê?
Eu só leio ficção, de preferência contos e novelas curtas, de preferência de autores mortos, de preferência russos do século XIX. Na verdade, hoje em dia mais releio do que leio. Nos últimos anos em função de A Longa Migração do Temível Tubarão Branco li dezenas de livros de literatura italiana, dos quais meu predileto é O Leopardo, de Lampedusa. Da literatura em língua alemã eu leio e releio Thomas Mann (Morte em Veneza) e Kafka (A Metamorfose, O Artista da Fome). Dos franceses, prefiro os contistas Merrimée e Maupassant. Dos americanos, Melville (Bartleby, o escriturário), Faulkner (Enquanto Agonizo) e Hemingway (O Velho e o Mar). Meus autores russos prediletos são Tchecov (A Estepe) , Gogol (O Capote) e Tolstoi (A Morte de Ivan Ilitch). De língua espanhola, fico com Borges (O Informe de Brodie). Entre os contistas brasileiros, prefiro João Simões Lopes Neto e Monteiro Lobato e das narrativas mais longas, gosto de Vida Secas, de Graciliano Ramos. Não sou um admirador de autores, gosto de determinados livros.

Com que idade você começou a ler?
A minha mais remota lembrança é a leitura que fiz, aos oito anos, de trechos de O Tempo e O Vento, de Érico Veríssimo. Havia um volume guarda dentro de um sofá-cama da casa onde a gente vivia em Bagé, que eu lia às escondidas. Mas, na verdade, eu me tornei leitor fanático ao freqüentar a Biblioteca Pública Infantil de Pelotas a partir dos dez anos. Depois passei para a Biblioteca Pública. Toda segunda-feira eu pegava dois ou três livros que devolvia na semana seguinte, em troca de outros. Tenho dificuldade para ler não-ficção. Li meia dúzia de textos teóricos quando cursava o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade de Brasília, no final dos anos 80, mas nunca compreendi a diferença entre significante e significado.

Você certa vez foi convidado para ser o patrono da Feira do Livro de Pelotas e não aceitou. Por quê?
Por vários motivos. Em primeiro lugar, achei que a honraria deveria ser oferecida a um morador da cidade. Em segundo, pelo que lembro, havia uma certa incompatibilidade entre a minha presença na feira e o meu trabalho em Brasília. Além disso, infelizmente, não sou um sujeito dos mais sociáveis. Para mim, participar de qualquer ato público é um sofrimento. Imagine se tenho de estar lá na frente. Reconheço que tenho sérias dificuldades para enfrentar as exigências da chamada vida literária: luta por espaço na mídia, comparecimento a noites de autógrafo, troca de elogios com colegas e badalação. Tento centrar minhas energias no ato de escrever. Só de longe em longe, quando preciso “descolar” uma edição, deixo meus textos para tentar um contato com os editores. E logo volto para o teclado, a única coisa que verdadeiramente me interessa em literatura. Simplificando, o meu negócio é ler e escrever.

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