Terça-feira, Novembro 24, 2009

Mídia e comportamento

Atualizada às 9h20
Ontem, segunda, 23, o jornal Correio Braziliense, equivalente brasileiro ao Washigton Post nos EUA e um dos maiores jornais do país, leitura obrigatória nos gabinetes do poder em Brasília, publicou duas páginas sobre problemas na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A reportagem, escrita pelo premiado jornalista investigativo Lucio Vaz, autor do livro A Ética da Malandragem, foi reproduzida aqui no blog, e traz revelações graves, inclusive com vídeo e áudio, sobre o descaso da reitoria quanto à condução de soluções para alguns setores. Num áudio um professor admite como fez para burlar os técnicos da Vigilância Sanitária que vistoriaram os laboratórios do Instituto de Química e Geociências (IQG) da universidade e que acabaram, por causa do artifício, interditando menos laboratórios do que deveriam.

Hoje, terça, 24, o jornal Diário Popular publica matéria (ao lado) na página 13 com o título LABORATÓRIOS EM FASE FINAL.

Na reportagem do Correio Braziliense, Lucio Vaz informa aos leitores que tentou colher respostas do reitor Cesar Borges sobre o conteúdo da reportagem prestes a ser publicada, mas que o reitor silenciou.

Esta conduta do reitor - o silêncio diante de perguntas da imprensa sobre questões delicadas - é uma prática recorrente. O Amigos de Pelotas enfrenta o mesmo silêncio desde sempre, apesar de inúmeras tentativas de entrevistar o reitor. Os pedidos enviados à Assessoria de Imprensa da UFPel sempre esbarraram ou em silêncio do assessor de imprensa Clayton Rocha ou em respostas evasivas, como "o reitor está viajando".

Numa sociedade republicana, espera-se conduta muito diferente. Se o reitor representa um órgão público, o que se espera dele num caso como o denunciado pelo CB? Por óbvio, que responda as questões formuladas pelo jornalista. Na hipótese de eventuais indagações sobre problemas "não procederem", as explicações do reitor poderiam mostrar, às claras e com argumentos, que elas não encontram correspondência na realidade. Quando silencia, porém, além de sugerir que os problemas denunciados são verdadeiros, ele não age segundo preceitos democráticos e sim como os ditadores de tempos sem liberdade.

O episódio desnuda também a postura do jornal Diário Popular, de propriedade do prefeito da cidade, que, diga-se, tem parcerias administrativas com a UFPel. O que se esperaria do jornal? Quando uma denúncia (e uma denúncia sustentada, inclusive por vídeos e áudios confirmando os problemas) como a do CB vem à tona, a imprensa normalmente corre atrás dos fatos e tenta repercutí-los. É assim em Brasília, Porto Alegre, São Paulo, Rio, Washington etc., mas não em Pelotas - nem sempre.

Pelo contrário, o DP, além de evitar a investigação dos problemas levantados, publica uma reportagem "tranquilizadora" (não assinada), dando espaço favorável ao reitor, que por "coincidência", informa o jornal, foi vistoriar as obras no laboratórios de química interditados justamente no dia em que a matéria do CB foi publicada (e reproduzida no Amigos de Pelotas).

Na reportagem não há perguntas incômodas, que poderiam ter sido feitas ao reitor com base na matéria do CB. Há apenas o relato de que "providências estão sendo tomadas e logo os laboratórios (os que escaparam à Vigilância Sanitária, por artimanha) estarão funcionando".

Ao escamotear os problemas da UFPel e proteger inutilmente a imagem do reitor, os leitores pelotenses do DP que tiveram ciência da matéria do CB republicada no Amigos, por certo, ficam se perguntando: por que agir assim, já que o papel da imprensa deveria ser o da defesa dos interesses da população através da fiscalização do poder público?

Felizmente, os tempos são outros. Há muito tempo o DP (onde o reitor sempre tem garantido espaço para sua voz) não tem mais o poder de formar opinião na cidade.

Ao mesmo tempo, enquanto o jornal tenta localmente mostrar só um lado da questão, Lula, seus ministros, inclusive o da Educação, os parlamentares e demais autoridades da capital federal já tomaram conhecimento da matéria do Correio Braziliense nos clippings que chegam todas as manhãs às mesas do poder.

Usar a imprensa para iludir se tornou inútil no mundo (e risível), ainda que alguns pensem que isto é possível só porque moramos em Pelotas, como se ela não fizesse parte do planeta ou não existisse a internet e outros veículos dispostos a fazer jornalismo como se deve e a sociedade espera.

10 cmt.:

Anônimo disse...

Escandalosa a omissão do DP; inaceitável. Ainda bem que cancelei minha assinatura há meses. Se estivesse assinando, me sentiria enganado da pior forma. A era da mentira na mídia acabou.

Anônimo disse...

Bueno, o reitor, pelo que sei, está na cidade; vi no café Aquarios.

Anônimo disse...

Rubens, me responde, esta matéria estará "na íntegra" no site do Diário Popular? Pois conforme sabemos o sitem do DP só tem um pedacinho das matérias, pois para lermos as matérias em sua íntegra, só comprando o exemplar. Talvez sejam enviados alguns exemplares para Brasília.

Anônimo disse...

Deveria existir uma existe nenhuma lei que possibilitasse a interdição de um jornal que se comporta assim Não existe vergonha dos profissionais de imprensa? Isso só fortalece a idéia de que não é necessário diploma pro exercício da função. Pra um jornalismo a cabresto desses não é preciso estudar quatro anos, basta a tradição do tapa nas costas.

Anônimo disse...

bah, ainda bem que o Diário Popular veio hoje restabelecer a verdade, tão sorrateiramente distorcida por alguns veículos de comunicação.

que orgulho do Centenário! me fez lembrar grandes jornais como o Pravda, ou der Angriff. Valeu DP!

Anônimo disse...

o que será que o sr diretor do cursod ecomunicação da UCPEL pensa qdo ve uma materia assim no jornal? ele que defendeu de unhas e dentes o diploma , e agora J....

Anônimo disse...

São os problemas decorrentes do modelo de imprensa que temos. São grupos privados com ideologia e expectativa de lucros (a maioria). O objetivo do lucro, às vezes, produz bons resultados. Para ser reconhecido, ter audiência, o veículo investe na isenção e na ética profissional. Mas temos acompanhado que a imprensa brasileira segue outro modelo.
Mas sempre que se fala em controle social da imprensa, os proprietários logo 'gritam' dizendo que é tentativa de censura. Não é censura do Estado. É controle social. Feita pela sociedade civil e com regras.
Se tivesse controle social da imprensa em Pelotas, o DP já teria sofrido interdição ou teria se emendado. Nas duas opções ganharia a cidade e seus cidadãos.

Anônimo disse...

Atitudes como esta o jornal centenário Diário Popular de Pelotas me levam a crer que ainda somos uma província.

A quem querem enganar ? Em pleno 2009 às portas de 2010 ainda pensam que podem esconder FATOS ???

Anônimo disse...

Esse DP é bom para falar de festas e publicar fotos de pelotenses que usam os clubes de futebol para dizer que estão viajando pro exterior ou até mesmo a Porto Alegre. Acham que sairia algo de proveitoso em reportagem séria?

Anônimo disse...

Esse DP tem cada uma. Uma vergonha.