
Renata Azevedo Requião
Professora da Faculdade de Letras da UFPel
Coordenadora da criação da Secretaria de Cultura de Pelotas
É impressionante, e curioso, como a morte de alguns homens, alguns deles fisicamente distantes de nós, nos deixa infantilizados, com a sensação de orfandade. Já nos ensinou a psicanálise herdeira de Freud e de Lacan, e mesmo a psicanálise off de Otto Rank (capaz de permitir ao corpo maior prazer), que, entre as espécies animais, o homem é o ser cujos vínculos de dependência mais se estendem. A dependência afetiva (atentemos para esta palavra), durando o longo dos anos de nossas vidas, nos faz sermos homens capazes e aptos a “viver com”.
Passados os meses iniciais de alimentação, passados os anos iniciais de apoio físico para nos transformarmos em bípedes (afinal começamos a caminhar apoiados pela mão segura da mãe, de uma avó, do pai mais disponível, pela mão amiga de um irmão mais velho, de uma babá que nos cuide com carinho e paciência), ao longo de nossas vidas andamos meio que às voltas, “em busca do tempo perdido”.
A literatura, como as outras artes, nos dá prazeres; enquanto nos dá palavras com que dizer do mundo e de nós mesmos. E ainda nos dá lucidez.
Desde o mais antigo teatro e a mais remota dança, associados a fatos e a emoções muito básicas, quase animais; desde a música mais primitiva, de sonoridade hoje certamente estranha aos nossos ouvidos já mais sintetizados; desde a pintura primitiva nas paredes da caverna, quando o homem supunha possuir o bisonte pintado – e os outros todos acreditavam –, sabemos todos o quanto essas expressões da arte, universais, nos fundam, a nós homens, como espécie.
As artes, no início dos tempos, eram assim praticadas por todos os homens. Sabemos, e cada vez mais o cinema recente nos conta isso, todo teatro hoje clássico de Shakespeare foi escrito e encenado para a população mais empobrecida da Inglaterra do século XVI, quando o mundo se ampliava.
Entretanto, aos poucos, pelas diferentes habilidades através das quais o homem vai se desenvolvendo, as práticas artísticas vão se restringindo, como práticas humanas, apenas ao cotidiano dos artistas.
Esses, os artistas, na síntese proposta pelo poeta Ezra Pound, são as “antenas da raça”: eles veem por antecipação, compreendem as coisas do mundo numa intuição lógica que a nós, homens comuns, muitas vezes é inacessível. O artista, ao produzir a sua arte cria novos mundos, antecipa possibilidades – como fazem, de outra maneira, os cientistas.
Só por isso seria tão fundamental uma Secretaria de Cultura em toda e qualquer cidade. Por esta contraparte da arte, a do fundamental prazer e a das fundamentais imaginação e, a palavra talvez não seja a melhor, fantasia, que nos incitam a viver em plena democracia: expostos à experiência das artes, crescemos livremente.
Mas não só por isso uma Secretaria de Cultura deve ser criada e mantida na estrutura administrativa dos governos municipais brasileiros. Somos, como espécie, seres curiosos: os tais vínculos afetivos que fazem de nós tão dependentes podem ser nossa força maior. Complexos, nos expressamos numa variedade enorme de hábitos e de pequenos rituais cotidianos, quase naturalmente associados ou a crenças ou à, digamos, perspectiva que temos de nós no espaço público da cidade. Que constituem as culturas de cada cidade, multiplicando assim uma cidade em muitas cidades (daí a inversão da fragilidade do vínculo em força efetiva).
Diferentemente dos artistas, capazes de viver a arte intensamente, o homem comum, pelas coisas todas que o afetam diariamente, cultiva seus modos de ser: ao longo dos anos de 2001 a 2004 aprendemos, por exemplo, que a colônia Z3 tem uma “linha divisória” muito nítida para seus habitantes; e aprendemos que o Frageti, um complexo de bairros separado por uma grande avenida, para seus habitantes não é separado pela grande avenida. A cidade é vária porque é viva e intensa.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss, recentemente falecido, em um livro dedicado à arte, Olhar escutar ver, nos fala criticamente de uma experiência, entre outras: em tempos de Feira do Livro, neste nosso sul leitor, destaco aqui a de sua leitura de Proust. Ambos, Proust e Lévi-Strauss, falando da escritura do romance multipartido, Em busca do tempo perdido (aliás, o romance é a forma narrativa que se desenvolve com a vida nas cidades), nos ensinam algo bastante útil para levarmos em consideração, enquanto definimos estratégias para estruturar gestão e organização administrativas, estruturas que sempre implicam mais que compreensões de mundo.
Ele nos diz: “Em busca é feito de pedaços escritos em circunstâncias e épocas diferentes. Trata-se de dispô-los numa ordem satisfatória, conforme o conceito que o autor possui da veracidade. No final, no Tempo recuperado [ou redescoberto], Proust compara seu trabalho ao de uma costureira que monta um vestido com peças já recortadas, que já possuem forma. Ele ajusta e cola fragmentos uns aos outros ‘para recriar a realidade, costurando, no movimento de ombros de um, o movimento da nuca feito por outro’, e construir uma única sonata, uma única igreja, [um único teatro e apenas uma praça central, onde entrem todos], com impressões recebidas de várias”.
Podemos pensar a gestão das culturas de uma cidade dessa mesma maneira. A partir das técnicas artísticas da colagem e da montagem. Encontramos assim mais uma força naquilo que parecia fragilidade: no “viver com”, a possibilidade de explorarmos a intensidade do tempo. Sigo ainda os caminhos de Lévi-Strauss: “’Não há tempo perdido nem tempo recuperado em Em busca, há apenas um tempo sem passado e sem futuro, que é o tempo próprio da criação artística’”.
Tempo intenso que nos permite entender, por exemplo, por que vínculos bio-afetivos os uruguaios, aqui do nosso ladinho, repetem, replicam (sem saber?), o que faziam os mouros há séculos passados: a hora da sesta é, em muitas das pequenas cidades do país vizinho, sagrada. Mesmo que, neste sul de Torres García e Benedetti, não tenhamos o sol insuportável enfrentado, na sexta hora do dia (daí a palavra sesta), pelos seus antepassados da península ibérica.
Numa das esquinas mais centrais da cidade de Pelotas, havia um relógio sem ponteiros. Nele uma inscrição que não canso de perseguir: relógio, em terra de gente feliz, não tem ponteiros.
Uma Secretaria de Cultura tem por tarefa estimular, “costurando” permanentemente, esse tempo intenso para artistas e para todo e cada cidadão comum. Por isso deve ter status de secretaria: por sua especificidade e democrática complexidade.


10 cmt.:
Parabéns, Renata. Excelente texto.
Grande Renata, apesar de ser do PT, a Renata foi a melhor coisa que tivemos da Secult.
PELOTENSES SEMPRE JULGANDO AS PESSOAS PELOS SEUS PARTIDOS, E EM PELOTAS PIOR AINDA, PARECE QUE TORNAM POLÍTICA DISPUTA DE FUTEBOL !!!POR ISSO QUE ESTAMOS ONDE ESTAMOS!! PARABÉNS RENATA SE LERES MEU COMENTÁRIO TE PEÇO TE JUNTES A NÓS DA VIGÍLIA CULTURAL! ÉS MUITO BEM VINDA!! BEIJOS!!
Pois é, apesar do PP a Beatriz Araújo vinha fazendo um excelente trabalho!
Pensar que tivemos a Renata, a Bia e agora... socorrroooooo!!!!!!
Parabéns meninas pelas excelentes administrações frente a SECULT. É bom saber que temos de quem nos orgulhar. Quem sabe se agora o Marcelo Terra não continua este trabalho frente a Secult?? Que tal Prefeito?? Não seria bem melhor?
O povo, a comunidade cultural, pede a mudança!
Rubens
Faz uma entrevista com a atual Secretário de Cultura para ver o que ele tem a falar sobre suas realizações...Quer ver que é obra.....
...briga daqui, briga dali, o que fizeram até agora se sequer temos uma Casa de Cultura em Pelotas? Não cabe ao "poder público" 'fazer' cultura, mas dar apoio aos movimentos culturais - a todos eles, desde que venham a acrescentar alguma coisa para o povo - é inquestionável. Pelotas é vaidade atrás de vaidade... por quê? alguém sabe responder?...
Ação é tudo, o resto é nada!
a lucidez de quem fez da cultura um projeto de vida.
parabéns, renata!
Olá, caríssima!
Texto profundo e reflexivo, hein?!
Construções, costuras, linhas.... Percepções de mundo, o saber popular... Coisas que nos fazem ir adiante. Passo a passo. Em novos alinhavos.
Mesmo que não haja o entendimento sobre o imaginário e a confecção da realidade, que não se perceba as delicadezas do cotidiano ou a necessidade premente da expressão de cada um, ao menos, que as pessoas percebam pelo lado pragmático da economia. Mais do que nunca está em voga o estudo sobre a cadeia produtiva da cultura. Daí, a importância de um órgão que articule movimentos populares, artistas de todas as estirpes, produtores, investidores, as áreas do turismo, comércio, mídia, gastronomia, arquitetura, com um olhar multidisciplinar, alinhavado em prol da valorização de uma região. Com pessoas que saibam ser includentes e colaborativas. E ativos, é claro.
Também plagiando o Lévi-Strauss: uma "Secretaria de Cultura" é "boa para pensar". E para trabalhar.
Ótimo ler suas palavras.
Beijão, dMart.
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