
Se eu fosse o prefeito Fetter, colocaria todas as minhas fichas numa aposta: contrataria um secretariado competente, sem influência dos partidos da base de apoio ao governo. Danem-se os velhacos, eu pagaria para ver. Num primeiro momento, daria preferência aos quadros dos partidos para formar a equipe. Contudo, se não houvesse nomes à altura, e sem problemas graves com a Justiça, escolheria profissionais de fora das siglas em condições de tocar o trabalho com a eficiência esperada, e fim de papo.
Haverá quem diga: mas e a Câmara de Vereadores? Não poderia - contrariada - complicar a vida da prefeitura? Poderia, mas não obrigatoriamente, mesmo porque a maioria dos vereadores é despreparada, tem preocupações meramente paroquiais, como dar nomes a ruas.
A atuação destes é tão chinfrim que envergonha as pessoas sérias; ou seja, apesar de eleitos, esses espécimes lamentáveis da miúda política local têm demonstrado que não possuem estatura moral nem espírito verdadeiramente público para impedir avanços que venham a ser propostos pelo Executivo, sem que haja uma reação da sociedade, da imprensa e, quiçá, do judiciário - se a coisa chegasse a um impasse institucional que comprometesse a vida da cidade.
O que não pode ocorrer, e vem ocorrendo, é o prefeito ficar refém de partidos que não possuem nomes para gerir a administração como os pelotenses desejam e merecem. Fetter prometeu reformar o secretariado. Nos bastidores, avalia que a equipe tem sérias deficiências. Porém, a reforma, até junho pelo menos, foi engavetada. Quer ganhar tempo, parece. Para que?
Uma fonte do governo diz que, se a reforma ocorrer, serão trocados, no primeiro escalão, apenas dois nomes. As mudanças ocorreriam em maior número nos segundo e terceiro escalões, onde os interesses por empregos dos partidos que o apoiam seriam acomodados.
A se confirmar essa previsão, ficará evidente que o prefeito, insatisfeito com as indicações, preferiu se contentar com a equipe que já conhece do que apostar em nomes incertos, que não fariam diferença. Abateria, assim, vários coelhos de uma vez. Aplacaria a sede dos partidos por seu quinhão do 'poder', arrefeceria a antipatia da Câmara e tentaria tocar a prefeitura de forma centralizada, a partir dele próprio. Nesse caso, o governo continuaria a ser ele, Fetter, já acostumado ao tirão.

Nesse cenário, o prefeito encontrará dificuldades pessoais, com o sobrepeso de tarefas e o estresse redobrado e perigoso para quem é fumante e já sofreu um infarto.
Por outro lado, com os humores dos partidos da situação amansados, poderá almejar possíveis voos mais altos, uma candidatura a deputado ou até mesmo a governador, já que se tornou, dentro do Partido Progressista, uma liderança de expressão, ao vencer o último pleito com uma diferença de 25 mil votos para seu oponente no segundo turno, do PT.
Para isso, porém, em tese, a administração dele terá de ser exitosa. Aí é que está o problema. Será?
Nesses meses iniciais de governo, Fetter enfrentou as enchentes, a crise financeira mundial, o corte de orçamentos federais (que podem vir a ser atenuados), mas sobretudo a hesitação dele próprio e, por consequência, a paralisia da administração.
Quem passeia pelo calçadão do centro, pelo balneário do Laranjal, pelos bairros e observa o estado do trânsito e do mercado público, para ficar em cinco exemplos, percebe que se o prefeito é um estudioso das questões de Pelotas, se faz reuniões frequentes com sua equipe, não consegue transformar em realidade coisas simples, com a limpeza da cidade, dominada até mesmo por uma matilha surreal de cães abandonados. Se não é capaz de resolver coisas como estas - pensa o cidadão - que dirá o resto...
Fetter é um homem preparado, com formação inclusive no exterior, é civilizado e conhece os temas e números da administração. Mas, analisando sua trajetória, parece faltar a ele aquela audácia que faz a diferença entre o estadista e o político de província.
Pelotas está como que implorando por um prefeito destemido e até um pouco "louco" (não igual ao populismo do "Governaço"), um prefeito que rompa com o histórico de compadrio e de mediocridade que domina as relações políticas e administrativas na cidade e do qual a população formada por pessoas esclarecidas e de bem está farta.
Se ele o fizesse, poderia realizar um governo modernizador de fato e até mesmo se cacifar ainda mais para futuros voos políticos. A aposta é arriscada, mas vale o risco. Eleito com grande aprovação, Fetter tem a oportunidade de fazer história ou de fazer o mesmo de sempre, pensando em si próprio, não na coletividade. Terá a grandeza de pensar grande, no outro, na cidade, em vez de nele próprio?
Se resolvesse topar o desafio e fazer diferente, negando-se à condição de refém da Câmara e dos partidos que o apoiam, Fetter, ainda assim, poderia fazer coisas importantes, inclusive anular a oposição mal-intencionada. Nesse caso, teria de contar com apoio de um projeto de comunicação social forte, mobilização da sociedade, além de apoio da mídia e das organizações civis.
Para adotar uma postura dessa envergadura, o prefeito precisaria de coragem e de pessoas competentes ao lado dele. Do contrário, até poderá vir a se tornar deputado em 2012, mas a cidade continuará sem esperança. Vale a pena viver por vitórias assim?