Marcos MacedoEconomistaAlguns leitores reclamam que os posts do blog depreciam Pelotas, chamando-a de feia, velha, torta. Perguntam porque seus autores não vão embora da cidade. Em geral, as críticas do blog se dirigem a características bem específicas da cidade, como o compadrio, o costume de só elogiar, o narcisismo de pelotense e gaúcho voltados para o passado. Essas características estão relacionadas umas com as outras de diversas formas. O narcisismo alimenta o costume de só elogiar, que por sua vez afasta o olhar crítico e permite o compadrio. Esse é só um exemplo do nó que vivemos e temos de romper se quisermos avançar.
As críticas do blog nem de longe atingem o que Pelotas tem de melhor. Compadrio e narcisismo não são o charme da cidade, como alguns sugerem; não fazem parte do núcleo daquilo que os pelotenses em geral apreciam em Pelotas.

O que nós gostamos em Pelotas, embora seja um subproduto de seus aspectos urbanísticos, é imaterial, e está relacionado à incorporação dos benefícios da modernidade sem seus ônus. Pode ser melhor entendido a partir das idéias de “lugar” e “não-lugar”, desenvolvidas pelo antropólogo Marc Augé. Não-lugar, em oposição ao conceito clássico de lugar, refere-se aos espaços onde os indivíduos se cruzam, ignorando uns aos outros, em milhares de itinerários individuais. São os locais superpopulosos, locais de trânsito, acampamentos, um mundo de circulação e passagem, em que o indivíduo tem de se enquadrar e deixar acontecer de acordo com as regras de circulação.
Exemplos de não-lugar são os aeroportos, shopping centers, as grandes avenidas das metrópoles, as auto-estradas. Nesses espaços não se estabelece vínculo social, são pontos de trânsito, em que cada um existe em si e por si, em solidão, em direção a outros pontos de chegada. Também são espaços sem história e identidade personalizada. Os não-lugares viraram a tradução das grandes cidades.
Em Pelotas, por causa de nosso lento crescimento, essas cicatrizes da modernidade não se formaram em larga escala. O que nós apreciamos em Pelotas é justamente esse equilíbrio imaterial entre modernidade e conservação do lugar, circunscrito e estável nos símbolos de uma história comum, de uma cultura que admite ser construída localmente, seu fluxo regular de tempo, o núcleo de relações pessoais permanentes, em que os vínculos sociais e a mediação entre os indivíduos continuam fortes.
O automóvel, por exemplo, perdeu nas metrópoles o sentido de liberdade que tinha. Lá, o permanente congestionamento do trânsito anulou sua característica essencial de mobilidade. Em Pelotas, temos o automóvel e a liberdade que ele proporciona, sem que o trânsito transforme nossas ruas em não-lugar, espaços apenas de circulação de máquinas, fora da escala humana.
Queremos o shopping center, um não-lugar exemplar, ícone da modernidade, com suas paredes que isolam da cidade, seus corredores de percurso forçado ao qual nos entregamos para consumir, desde que sua instalação não destrua o centro histórico, o calçadão, que conserva as características de “lugar”.
O Café Aquários é sempre citado como um bom exemplo do que apreciamos em Pelotas. Desprovido de beleza arquitetônica, é um local onde os pelotenses vão estabelecer e cultivar relações permanentes. Outro exemplo, produzido recentemente, é o calçadão do Laranjal. Indica que admitimos mudanças na cidade, que não estamos necessariamente fixados nos casarões, nem precisamos do compadrio e dessa libido do pertencimento, desse narcisismo cegante a que nos entregamos.
Queremos que Pelotas avance, desde que sejam conservadas ou reproduzidas certas qualidades imateriais, que não a transformem em não-lugar, como ocorre na rodoviária da cidade, local nunca aceito pelos pelotenses, frio, ventoso, de arquitetura sem identidade por nós reconhecida, feito sem querer sob medida para circulação rápida, tal o desconforto de lá permanecer.
E se foi o lento crescimento que preservou o que Pelotas tem de aprazível, isso não quer dizer que estejamos condenados ao atraso. Sabendo o que mais gostamos na cidade, podemos avançar sem repetir o erro das metrópoles: a proliferação do não-lugar.
Não-LugaresMarc Auge
Editora Papirus
112 p
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