O Patek Philippe Eleitoral

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Para Roberto Soares, "é uma ironia que quem outrora pregava o comunismo e a desapropriação da propriedade privada hoje se gabe de seus relógios suíços. Pena que ao invés de ouvir ao Patek Philippe político, Lula não dê ouvidos ao relógio biológico e, pelo seu bem e o da nação, saia de vez das disputas eleitorais"



Roberto Soares
Para o Amigos

O ex-presidente Lula afirmou que ele e Dilma não precisam acertar os ponteiros com relação às suas opiniões sobre a realização da CPI do Cachoeira, pois ambos “têm relógios suíços”. A afirmação procede.

Lula, o ser humano, se recupera de um tumor na garganta. Somente uma pessoa de espírito mesquinho poderia desejar mal a um semelhante. Não que Lula seja meu semelhante. Eu não tenho relógio suíço. Não tenho filhos, mas acredito que meu varão não vá lograr muito sucesso como empreendedor de games caso gradue-se em biologia. Mas não desejei nada além do pleno restabelecimento do ex-presidente.

Já em relação a Lula, o político, a coisa muda de figura. Mais do que por suas ações, julgo que Lula peque pelas palavras. Sempre falou demais. Mesmo depois do polimento que seus marqueteiros deram em seu discurso para a eleição de 2002, continuou boquirroto, falastrão. Quando venceu, então, flertou mais do que ocasionalmente com a canalhice e a despudorada megalomania.

O petista especializou-se em colocar panos quentes nas crises que pontuaram seu governo, em tergiversar, em exercer sua faceta sofista à exaustão. Sempre tentou minimizar os escândalos mais flagrantes, desviando das balas do tiroteio político como Keanu Reeves na famosa cena do filme Matrix. Trágica ironia do destino, foi em seu mais valioso instrumento de trabalho, a voz, que padeceu de uma das piores doenças.

Não sou uma pessoa “espiritualizada”, por assim dizer. Mas acredito nos sinais do corpo.

Lula saiu da presidência e fez sua sucessora graças a um misto de mérito próprio (uso do carisma e da máquina governamental para expor e eleger presidente uma virtual desconhecida neófita na disputa política eleitoral) e demérito dos adversários (essa oposição perdida, sem discurso e sem personalidade, que vagueia feito um zumbi, desprovida até hoje de um expoente), e depois de pouco tempo fazendo palestras milionárias mundo afora, teve de travar a dura batalha do tratamento médico.

Para quem quis ouvir, deu a entender que não concorreria mais a cargos eletivos, como é praxe no presidencialismo após o indivíduo haver ocupado não uma, mas duas vezes o cargo máximo do sistema. Contudo, pesquisas de opinião e especulações de bastidor já começam a dar conta de que poderá, sim, ser candidato à presidência, de novo, em 2014. E isso é uma péssima notícia para a política do país. Péssima, mas, ao menos para quem leu o que eu escrevia há três anos neste espaço, não inesperada.

Excetuando-se o inesperado (como foi a questão de sua saúde), Lula sempre foi candidato forte às eleições do pós-Copa. Lula demonstrou um apego todo especial com o cargo. Para seus entusiastas, nunca antes na história do país alguém desempenhou com semelhante maestria a arte de equilibrar informalidade e carisma com popularidade e liderança. Para aqueles que viam a situação de modo mais objetivo, Lula, o líder, sempre deixou a desejar e colecionou um vasto arsenal de asneiras e lugares-comuns, que despertavam nos admiradores aquele tipo de amor que somente os estudiosos europeus nutriam pelos selvagens não civilizados.

Dilma, por seu turno, vem se mostrando, como líder, mais pragmática no exercício do cargo. Fala menos. Não quer dizer que quando fale não dispare suas abobrinhas, pelo contrário. Mas, ao menos no campo da ação, mostra-se mais moderada, e não fica espantando as moscas dos cadáveres políticos; pode-se acusá-la de não ser mais enérgica e proativa, mas não de omissa. Em suma: Dilma, talvez mesmo por ser menos politiqueira do que Lula, tem se saído melhor que o antecessor.

O problema é que começa a se desenhar um cenário em que ela, não tão apegada ao poder, opte por não concorrer à reeleição, abrindo caminho ao candidato natural a substituí-la. E no atual cenário, nem mesmo o insosso Aécio Neves parece ter fôlego para surfar no tsunami de aprovação e desejo de retorno de Lula a presidência que a opinião pública esboça.

É uma ironia que quem outrora pregava o comunismo e a desapropriação da propriedade privada hoje se gabe de seus relógios suíços. Pena que ao invés de ouvir ao Patek Philippe político, Lula não dê ouvidos ao relógio biológico e, pelo seu bem e o da nação, saia de vez das disputas eleitorais. Tê-lo novamente na presidência seria inegável retrocesso no já engessado e desgastado cenário político nacional.

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2 comentários:

Feles disse...

Lula seria um retrocesso! E o Serra, seria o que?

Anônimo disse...

Feles meu querido, quem falou em Serra? O texto era sobre o Lula, não misture alhos com bugalhos.