Considerações sobre a reprovação dos educadores

ARTIGO


Eunice Couto*
Professora Estadual
Para o Amigos

Impossível não ouvir, sem despertar a indignação dos educadores, os comentários acerca da baixa aprovação no concurso do magistério gaúcho. Em primeiro lugar, creio ser importante analisar o resultado como consequência das políticas educacionais implantadas no país ao longo das últimas duas décadas.

No início da década de 90 a disciplina de Língua Portuguesa contava com quatro ou cinco horas-aulas semanais para o Ensino Médio e ainda eram ensinados conteúdos gramaticais relevantes, sem que os professores fossem tachados de pré-históricos. Atualmente a carga horária diminuiu (duas a três aulas semanais) e tais assuntos – cobrados em qualquer concurso público de forma tradicional – devem ser trabalhados de forma disfarçada. Leia-se: superficial!

Por outro lado, há que se refletir sobre quantos desses quase 70 mil inscritos são vítimas da “expansão universitária”, a qual, entre outros aspectos, possibilitou a criação de centenas de universidades a distância, dessas que “formam” licenciados em Letras, Pedagogia, História, Biologia etc, em dois ou no máximo dois anos e meio, a baixo custo, “popularizando o acesso ao diploma”. Destaque para o termo ‘Popularizar’ que, aqui, significa baixar a qualidade.

Ainda importantíssimo pensar que, ao contrário do que apregoam os governos sobre avaliação escolar e reprovação – buscando inclusive responsabilizar os educadores pelo baixo rendimento dos alunos, sem considerar aspectos gerais da vida dos educandos – o formato da prova exigia pontuação mínima de 60% em cada uma das quatro partes que a compunha: Língua Portuguesa, Legislação, Conhecimentos Pedagógicos e Conhecimentos Específicos. Ou seja, o candidato poderia totalizar 70% da prova, mas se numa delas não atingisse os 60%, estaria desclassificado.

Além dessas observações, outros pontos necessitam de atenção:

• Foram abertas 10 mil vagas, porém o número de contratos, ditos emergenciais, é bem superior a este número. Assim, o problema da falta de profissionais não seria solucionado, nem mesmo para o ano de 2013 por este concurso;

• Existe uma lei que prevê um piso salarial nacional (proporcional às 20 horas semanais) de R$ 725,50, em 2012, mas o salário básico oferecido no Edital é de apenas R$ 395,54;

• O valor da inscrição variava entre R$ 53,38 (para a formação mínima: Ensino Médio/Magistério) e R$ 121,70 (para formação em curso superior) – um dos processos seletivos mais caros, observando, principalmente, a remuneração oferecida.

Ao considerar esses aspectos, pode-se imaginar que houvesse seriedade na promoção do certame? Real interesse na solução dos problemas de falta de professores na rede pública de ensino do RS? Ou seria, além de fazer um bom caixa – fala-se numa arrecadação aos cofres públicos em torno de R$ 8 milhões (!?) – passar a ideia de atender a uma reivindicação ou promessa eleitoral e, por fim, consolidar suas posições de desmoralizar a categoria e justificar o não cumprimento da lei salarial perante a sociedade?

Ainda há outro ponto importante: é necessário, ao Estado, manter o maior número de profissionais contratados, precarizados, ou seja, sob a ameaça da perda do emprego, caso não se submetam às suas determinações; como também é fundamental que esses trabalhadores não tenham vínculos, não tenham direito à estabilidade, não gerem ônus futuros.

Simplificando: este concurso foi apenas engodo, ilusão para toda a sociedade gaúcha, passando a ideia de que o governo é bom, os trabalhadores é que não se esforçam, são preguiçosos ou desinteressados e, assim, colocar a população contra si própria.

* Eunice Couto é natural de Caçapava do Sul, Licenciada em Letras - Língua e Literatura Portuguesa pela URCAMP/Bagé, em 1991, Especialista em Educação, Professora na rede pública há 25 anos, sendo 17 anos somente na rede pública estadual e militante no movimento sindical desde 2000. Há 3 anos leciono no Colégio Estadual Dom João Braga, no Ensino Médio e Fundamental diurno. "Acredito na mudança da sociedade, rumo à justiça social, mas esta passa, inevitavelmente, pela educação e pela explicação nítida e objetiva acerca dos fatos que nos cercam" - diz a autora.

- Site pessoal do Rubens [ rubensfilho.com.br ]
- Siga o Amigos de Pelotas no Twitter
- Siga o Amigos de Pelotas no Facebook
- Amigos é eleito Melhor Blog de Notícias do Brasil

13 comentários:

Anônimo disse...

Já participei de um concurso parecido, foi em Canguçu, municipal. Uma bagunça, provas mal formuladas, muitas questões anuladas, dava a impressão de ter demasiadas falhas. Mas, passou, e, certamente alguém lucrou muito com a grana de todas as inscrições.

Julia Farias disse...

Achei que ia morrer sem testemunhar isto: professor reclamando do grau de dificuldade de uma prova!!
No meu tempo, se a gente reclamava pra um professor e dizia: "fessor, a senhor tá cobrando coisa que não deu em aula.", ouvíamos um sonoro: "não importa, se isso está no conteúdo programático, tens a obrigação de saber. Deverias ter estudado".
Ou então: "bah, profe, fiquei com 5,8 de média, não rola dá dois décimos?" Elas respondiam: "se fosse pra fechar 10 eu até te dava dois décimos, mas pra fechar O MÍNIMO necessário para ser aprovado, NEM PENSAR! Deixa de ser malandro, vai estudar".
Agora os professores estão atribuindo a reprovação à má qualidade da formação (tem que estudar em casa, gente!!) e à necessidade de obter média harmônica, sendo que as disciplinas são da área de formação SUPERIOR deles. Muitos, ainda, culpam a “má vontade” do Estado (tal qual a gente fazia, dizendo que a professora era mal amada - pra não dizer outra coisa) pelo alto nível da prova.
Ahh não!!
Tá certo que o salário é baixo, tá certo que a classe não é valorizada... Mas também é certo que vocês - os professores - têm que valorizar a classe e mostrar que são bons e, por isso, merecem mais.
Se a gente vai aceitar que os professores saibam o mínimo, como vamos querer que eles ensinem o máximo? Vai virar uma bola de neve isso aí.
E não adianta dizer que o salário é ruim pois, se já vão ENTRAR para a carreira insatisfeitos com o salário, nem entrem né? É público e notório que professor estadual e municipal ganha mal no Brasil, daí eles já fazem o concurso reclamando do salário. Nem façam, gente!
Por fim, vale lembrar aquelas passagens, quando quase toda a turma rodava numa prova, daí a gente combinava que alguém ia levantar a mão pra reivindicar um trabalho pra aumentar a nota e elas diziam: “se alguns passaram é porque dava pra passar, vocês é que não estudaram. Vamos começar a aula, vocês tem muito à aprender, se quiserem passar de ano.”

Anônimo disse...

Que mal. Professores despreparados fazendo o concurso e querendo justificar a sua reprovação, isso não é nada bem. E não culpem os cursos de graduação. Quem quer fazer uma boa formação, faz. Estuda, estuda, estuda, se autonomiza, se prepara e vence. Assim é. Inclusive, para se dar bem nem é preciso ter curso superior, não é mesmo. Os jornalistas que digam. Professor tem que se preparado, e se a graduação não prepara suficientemente, ele precisa buscar isso de maneira independente. A verdade é que os graduandos querem o diploma, passam colando e fazendo fraudes no curso, e depois querem se queixar. Aí não rola. Fizeram feio. Sei de professor de português que não passou na prova de português. É mal. Não tem curécuré.

Julia Farias disse...

opa, foi uma crase fora do lugar. ;)

Anônimo disse...

Concordo plenamente. Também participei deste "certame do engodo", acertando 80% de três modalidades e reprovando na prova por não ter atingido 60% em uma. Responsabilizar os professores e sua formação pela imensa reprovação deste concurso,cuja prova foi muito mal elaborada, teórica e que não condiz em nada com a atuação no magistério, é o mínimo uma atitude irresponsável e de má fé!

Anônimo disse...

Não concordo com o texto. Quando vamos fazer um concurso temos os assuntos/temas que serão abordados e, se quisermos a aprovação, precisamos estudar. Quantos de nós tem que aprender contabilidade para concursos sem nunca ter visto na escola/faculdade? Ou lesgislação? Ou informática de redes etc.? No incício dos anos 2000 a PMPelotas realizou um concurso para professores e o nº de reprovados tbém foi muito grande. Todos candidatos, independente da área, tinham que atngir média 6 em português, o que não ocorreu. Eu sei que está fora de moda discordar de professor mas entendo que a sociedade precisa discutir melhor esse assunto. Quanto ao concurso: se tem, não é bom, se não tem, reclamam!!!!!!!!!????
Helo

Daniel disse...

Fiz o concurso, aprovei, e ainda assim achei um absurdo.
Esses que criticam sequer tiveram a prova em mãos, certamente. Uma prova cansativa, com questões enormes,que claramente não era possível fazer com qualidade em apenas 4 horas.

Em relação a prova, vou tomar a liberdade de fazer pequenas correções em relação ao post:

- A prova não era composta de 4 partes, mas de 5. Português, Conhecimentos pedagógicos, legislação, conhecimentos da área e conhecimentos específicos da disciplina.

- É importante perceber que nessa horrenda distribuição, onde você podia gabaritar 4 provas e se acertasse 5 das 10 questões de português reprovava, havia uma barbaridade ainda maior.

O conhecimento de área englobava diversas disciplinas, ou seja, eu, como professor de História, tinha que responder questões de Geografia, de filosofia, de sociologia. Isso é um descaso com a profissão e com o profissional.
É o mesmo que em um concurso para para Engenheiro químico contasse com questões específicas de engenharia civil.

Eunice Couto disse...

Somente para esclarecer aqueles que imaginam que eu esteja revoltada por ter sido reprovada, sou a autora do texto e não prestei o concurso, porque já sou concursada e aprovada em 1º lugar, há 18 anos. Conheço muito bem a realidade escolar e, especialmente as políticas públicas para a educação. Portanto, não estou apenas repetindo o que ouço na mídia, sem saber do que falo. Também não sou uma profissional irresponsável e sei muito bem a diferença que existe entre ser aluno de ensino básico e ter formação profissional com consciência e preparar-se para prestar um concurso. A questão salarial dos educadores existe e é vergonhosa, tanto que os professores universitários federais estão em greve. Por que motivo deveríamos nós, estaduais e municipais, nos calarmos quando nossos governantes não cumprem as leis, se nós precisamos cumpri-las? É hora de pensarmos...

Adalberto Costa disse...

Bem, eu reprovei o concurso, e nem por isso me considero despreparado.
GABARITEI a prova de Português;
GABARITEI a prova específica da minha área;
Quase gabaritei conhecimento pedagógico.
Porém, faltaram-me dois acertos para alcançar os 60% na prova de legislação.
Aos hipócritas eu pergunto: quantos de vocês, seja de qual área, dominam a parte jurídica de sua área?

Eu me considero muito apto a lecionar, visto que tenho grande conhecimento em minha área e em língua portuguesa, coisa que muito advogado, por exemplo, não tem, tanto que nenhum "Doutor" foi aprovado no certame.
Vejo a fórmula do concurso como injusta, pois mesmo com mais de 80 pontos não fui aprovado, enquanto candidatos com metade de minha pontuação sim.

Anônimo disse...

É hora de pensarmos, professora! Também não são pagos os pisos de muitos outros profissionais, o que não quer dizer que tenhamos de ser relapsos!

Tamyzinha-sls disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
turquinho disse...

Puxa, tem uns comentaristas aqui que ou são aqueles que mamam nas tetas do governo ou são alienados que repetem o que diz na Veja e na RBS...A Eunice tem toda razão, o governo do estado quer mesmo é desqualificar o magistério para entre outras "cositas mas" justificar o descumprimento da Lei do Piso Nacional do Magistério, que torna-se um ato irresponsável, arbitrário e completamente fora da lei.Quem viu e analisou as provas percebeu a intencionalidade...

Tamyzinha-sls disse...

Eu também fiz mais de 80% do total da prova, mas por não fazer 60% em uma parte, acabei reprovando, enquanto gente que fez pouco mais de 50% do total da prova, conseguiu passar. Injusto com os que fizeram pouco mais de 50%? Não! Injusto com quem pontuou lá e cima e por este critério dos "60%" acabou reprovando por causa de uma única parte. Outra coisa: se o professor de Sociologia pode fazer a prova para História e Filosofia, porque o contrário não ocorreu também? Os professores de Filosofia e História não puderam fazer a prova pra Sociologia. Lamentável. Em tempo: Parabéns pelo texto, Prof.ª Eunice! Lúcido e crítico.