O xororô de Xuxa e a comissão da verdade


Roberto Soares
Para o Amigos

Comissão da verdade boa é aquela que busca toda a verdade. Ontem no Fantástico, Xuxa resolveu “abrir seu armário” e, como suspeitávamos, havia ali mais ossos do que no Museu do Genocídio Tuol Sleng, do Camboja. Não deve ter sido coincidência que seu depoimento tenha coincidido com o dia do combate ao abuso sexual infantil.

Me insurgi desde cedo contra o rótulo de “baixinho da Xuxa”. Primeiro, por achar de uma viadagem atroz. Segundo porque, em relação a essas modinhas que a Globo lança, eu sou como o PT na época do FHC: me oponho sistematicamente. Em terceiro, porque sempre tive estatura mediana, então não fazia sentido me menosprezar em prol de um senso de coletividade tão medíocre, mesmo para padrões infantis.

Sempre pensei na apresentadora gaúcha como “a vadia que atrapalhava a exibição dos desenhos animados que eu gostava”. Engraçado não ter sequer noção do que era uma vadia, mas saber rotular uma quando se vê. É coisa de instinto, mesmo. Um talento inato. Não havia nada mais degradante do que sua figura de mulher bonita e medíocre, roupas vulgares, pernas de fora, vozinha de criança, em meio àquela piazada ignara.

Sua obra, além dos muitos programas que sempre fez (Xou da Xuxa, entre outros), estendia-se também aos horrendos discos, nos quais a sexualidade ora era indisfarçada, ora velada. Vejamos: “Festa do Estica e Puxa”??? “Por Greyskull Shee-Ra, me apresenta pro He-Man? Seu irmãozinho é uma gracinha/ E eu sou todinha do beeem”??? Que é que é isso!!!

Isso para não entrarmos na verdadeira imagem que Xuxa passa para adultos nacional e internacionalmente. Ano passado, um festival de cinema em Los Angeles exibiu alguns de seus longas (Não, Amor, Estranho Amor não estava em cartaz) sob a descrição de “linda atriz de filmes pornô-soft que se tornou apresentadora infantil e conquistou os adultos por três décadas por causa de sua alta tensão sexual”. Como nosso país adora uma cegueira coletiva voluntária (vide Collor, Mensalão, Sarney, Ronald Biggs etc.), há ainda muitos defensores da “rainha dos baixinhos” que fazem vistas grossas às insinuações que a melindrosa artista fez por muitos anos. Num país que deixa Xuxa cuidando de suas crianças, não há que se admirar do sucesso de É o Tchan, Michel Teló e do funk carioca. O próximo passo é a prestação de serviços à comunidade.

Os dois momentos mais pitorescos da entrevista, contudo, foram os tópicos (interrelacionados?) homens e abuso sexual na infância. Xuxa mais uma vez omitiu Pelé (reduzido aqui ao impessoal “ele”), o homem que lhe abriu as portas para a fama, enalteceu Senna e, aqui o ponto de intersecção, revelou ter sido “cogitada para casar” com Michael Jackson. Podem rir à vontade, eu espero. Difícil de imaginar bizarrice maior do que essa. Se a Maria Gadú der um Moonwalker, já sabemos quem são seus pais.

A intersecção a que me refiro é que Xuxa relata ter sido abusada sexualmente na infância. Ela não lembra ao certo quando nem quem foi o autor. Em termos. Lembra que foram três pessoas: um namorado da avó, um professor e o melhor amigo de seu pai, à época. Ela só lembra do “cheiro de álcool”. Estaria o trapalhão Mussum por detrás desse episódio? (Talvez o vídeo abaixo dê pistas acerca do assunto). Xuxa prefere viver uma realidade paralela, encapsulada. Seu dinheiro pôde (e continua podendo) comprar esse isolamento.



Não querendo fazer graça de um assunto tão delicado, mas é curioso que Xuxa atribua ao suposto episódio seus fracassos maritais, suas supostas crises de baixa autoestima etc. Xuxa sempre demonstrou ter superado bem essas questões, e chega a soar um tanto quanto oportunista revelar tais fatos agora, que seu nome não está mais tão em evidência quanto antes. Fica um cheiro de álcool no ar, se é que vocês me entendem.

A verdade boa, como disse, é a completa. Que ambos os lados sejam apurados. Xuxa pode até ter sido corrompida, mas também ajudou a corromper. Será que ela estaria disposta a assumir seus erros em troca de ver seus algozes sendo punidos? Como prova de generosidade, abdico do meu direito de vê-la punida pelo mal que, pessoalmente, ela me causou. Eu poderia ter sido um astronauta, mas, num cérebro profanado desde os 5 anos por loiras de shortinho, anões vestidos de tartaruga e um exemplar gigantesco do Aedes Aegypti, não há espaço para as leis da Física florescerem.

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15 comentários:

Cláudia de Lira disse...

A 'fala' da Xuxa, ao contrário do que poderia pretender, não contribuiu nem para melhorar sua imagem na TV, dando um 'up' numa carreira em franca decadência, tampouco para reforçar as campanhas de combate ao abuso sexual praticado contra crianças. Cheia de contradições - que pretendeu esconder em meio a lágrimas - Xuxa, inclusive por sua trajetória, prestou um grande desfavor ao combate à violência sexual infantil.
Parabéns Roberto pelo texto!

Anônimo disse...

Do site Kibeloco:

XUXA E OS DUENDES

Qual o melhor comentário sobre a notícia acima?

a) Se era para abrir o jogo, por que ela não falou do filme que mandou recolher das locadoras? Aliás, quantos anos tinha aquele menino quando contracenou com ela?
b) Eu não acredito em duendes.
c) Sexo? Cheiro de álcool? Oh. wait!

Xuxa: "Tá duro, Mussum!" / Mussum: "Não. Tá 'erétis'."

KKKkkkkkkk

Anônimo disse...

Texto de uma lucidez ímpar. Aplaudo-o de pé. Começo minha semana com o pé direito. Obrigada, Roberto, pela inspiração.

Anônimo disse...

magina a Sasha cheganu no colégio hoje? Pra que expor a filha desse jeito?
Como diria a Carolina Dieckmann: deliga a internet, por favor.

Anônimo disse...

ela diz que foi abusada, mas não diz qual foi a extensão do abuso. Repararam? Ela não tem lucidez.

Anônimo disse...

Belo texto, um pouco preconceituoso, mas fez uso de um vocabulário rico!

Anônimo disse...

Perfeito o texto!

É desses que atestam a qualidade do Amigos!

Parabéns!

Anônimo disse...

Numa entrevista que tratava de abuso sexual infantil, confessar que roubou o pirulito que estava sendo chupado pelo Michael Jackson foi uma declaração infeliz.
Fui obrigado a rir escandalosamente.

Anônimo disse...

Tive pena da sra. Maria da Graça Meneghel, mas não pelo abuso que ela disse ter sofrido. Sua exposição foi ridícula.

Anônimo disse...

Parabéns pelo excelente artigo! Xuxa não é, e nunca foi anjinho. A entrevista foi sim uma jogada de marketing.

Anônimo disse...

Xuxa não merece um texto, ela é muito vazia. Quanto menos falarmos dela, melhor. Difamar ela só se presta a agradar seus críticos. Ela fica fragilizada e atrai antipatia para quem ataca ela. Falando sozinha, que cada um faça o juízo que quiser dela. Acho ela "de última"!

Anônimo disse...

O que é interessante analizar é o fato dessa senhora passar anos gritando semi-nua suas musicas, provocando guerras entre meninos e meninas, sugando a inteligencia de seus cérebros; porém, quando ela propria teve a sua filha, imediatamente mudou o foco de seu programa tentanto um lado mais educativo, com musicas mais puras, e vestindo roupas comportadas... Quanta hipocrisia: "para seu filho, o lixo, para a minha filha a educação".

Anônimo disse...

O texto está bom, concordo em grande parte... mas atribuir à Xuxa a ausência de "espaço para as leis da Física florescerem" foi um final um pouco forçado. Mas não menos forçado que a entrevista (??) lamentável da Xuxa.

Anônimo disse...

Acho que o comentário sobre as leis da física era ironia do autor, mas vai saber....

Anônimo disse...

Vadia foi pesado. Não precisava.