Sem saída, reitor da UFPel César Borges vai devolver ao MEC os milhões usados indevidamente para comprar imóvel do Anglo


César Borges: depois de condenado à prisão e à perda do mandato em primeira instância, agora
o reitor foi obrigado pelo MEC a devolver o dinheiro da compra do Anglo ao Ministério, que
considerou ilegal a transação (Foto: coleção Rubens)

Ministério da Educação diz 
que é improvável que reitor permaneça
gerenciando dinheiro da compra do Anglo.

MEC pretendia recorrer à Justiça para 
reaver verba e afirma que devolução
não isenta Borges de responder 
administrativamente. Caso é investigado
agora pelos auditores do MEC e da Controladoria Geral da União

Fábio Schaffner e Daniela Castro
Zero Hora

No mesmo dia em que a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) anunciou que irá desfazer a compra de dois terrenos adquiridos da Fundação Simon Bolívar, o reitor Antônio Cesar Borges pediu ao Ministério da Educação (MEC) para usar os recursos disponibilizados para a transação imobiliária.

A pasta, contudo, considerou "improvável" que o reitor seja autorizado a permanecer gerenciando o dinheiro.

A disposição de Borges em desfazer a compra dos terrenos se deu um dia após o MEC admitir a possibilidade de recorrer à Justiça para reaver a verba e punir eventuais irregularidades que teriam sido cometidas. O reitor viajou para Brasília espontaneamente, já que não havia sido convocado para prestar esclarecimentos.

Até agora, a UFPel ressarciu apenas R$ 2,8 milhões dos R$ 7,4 milhões recebidos no ano passado. Borges não fixou uma data para repassar o restante do dinheiro, mas disse que irá reiterar à fundação o pedido para a imediata devolução dos valores.

Na reunião de 35 minutos com o secretário-executivo do MEC, José Henrique Paim, Borges pediu que, após a fundação devolver os R$ 4,6 milhões restantes, o dinheiro permaneça na UFPel. Ele argumentou que a verba poderia ser investida na universidade.

ZH tentou conversar com Paim sobre o pedido, mas ele alegou que estava em reunião. A assessoria do ministério, contudo, afirmou que é improvável que a UFPel seja autorizada a permanecer com os recursos. A assessoria informou que a devolução não ameniza a gravidade do episódio.

Devolver o dinheiro não resolve o problema do reitor — comentou um assessor ministerial.

Em entrevista a ZH na quarta-feira, Borges disse que solicitou ao Ministério Público Federal a abertura de investigação e atribuiu a polêmica a disputas políticas na UFPel por causa da eleição para a reitoria. Confira trechos da entrevista:

ZH — O que o senhor conversou com o ministério?

Antônio Cesar Borges — Nós prestamos os esclarecimentos, reiterando o pedido que já havia sido formulado à fundação (Simon Bolívar) para a devolução de uma parte dos recursos que ainda está pendente. Isso será feito. Também acho que foi extremamente importante a instauração de uma auditoria uma vez que eu já havia solicitado ao Ministério Público Federal que abrisse uma investigação para esclarecer os fatos que muitas vezes ficaram pouco claros numa situação dessas.

ZH — O que ficou acertado?

Borges — Ficou assegurado que esses recursos estarão disponibilizados, para se ter a continuidade da sua aplicação dentro da própria universidade. Vou reiterar novamente à fundação para que o restante dos recursos retornem aos cofres da universidade. São R$ 4, 86 milhões.

ZH — A compra dos terrenos será desfeita?

Borges — Sim, vamos desfazer o negócio. Os terrenos voltarão à fundação. Entretanto, vamos manter tratativas posteriores com o próprio ministério para garantir o aproveitamento daquela área pela universidade. É extremamente importante a manutenção dos terrenos, que devem ser ocupados por um contingente de 7 mil novos alunos de mais de 50 cursos que nós ampliamos.

ZH — O senhor está aliviado após a reunião no ministério?

Borges — Saio muito aliviado e muito satisfeito com as decisões que nós tomamos. O secretario-executivo (Henrique Paim) foi muito receptivo às nossas considerações.

ZH — O que aconteceu realmente? O senhor não sabia que os imóveis estavam superfaturados e que o negócio era ilegal?

Borges — Não houve suspeita de superfaturamento. O que houve foi uma avaliação de uma área. Os recursos que recebemos e encaminhamos à fundação foram muito inferiores. É uma área que foi adquirida há sete anos, em um leilão judicial, por R$ 700 mil. Três meses depois, esses terrenos foram avaliados em mais de R$ 3 milhões pela própria prefeitura. Acontece que estamos em meio a uma disputa eleitoral pela reitoria e as denúncias surgem. Justamente nesse momento, os esclarecimentos foram insuficientes.

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2 comentários:

Adeni Renato disse...

Realmente o argumento do reitor de que as denúncias surgiram por causa do processo eleitoral é fraquíssimo. Se não há irregularidades na gestão Cesar Borges, podem fazer milhares de denúncias, que não haverá repercussão nenhuma. O que não é o caso ! Conforme noticiado , há fortes indícios de alguma ilegalidade nas transações. Agora com as declarações do corretor Alceu Cheuiche Filho, as coisas ficaram mais complicadas ainda. Vamos torcer para que não vire em "pizza".

Anônimo disse...

ainda bem q zh está cobrindo clicrbs e edson luís tb, de outra banda o silêncio é realmente contrangedor e comprometido.