Vítima de uma paranoia social


Mirian Olga Hoffmann: vítima da paranoia social, ela diz que ainda se sente "julgada". 
Foto: Daniel Giannechini

Mal interpretada pela visão distorcida e o medo de alguns pais
de alunos da escola Assis Brasil, uma mulher, por fotografar
de uma janela, tornou-se, injustamente, 'suspeita de um crime'


Egídio Pizarro e Rubens Filho
Para o Amigos

Um grupo de jovens estudantes joga vôlei na escola, durante a aula de Educação Física, ou durante o recreio. Saques daqui, manchetes dali, cortadas de lá. De repente um aluno percebe, de uma janela do edifício em frente à lateral da escola, pela Rua Gonçalves Chaves, uma câmera fotográfica apontada na direção deles.

Havia alguém fotografando... O que pensar?

"Até hoje eu não sei o que disseram exatamente à polícia", diz Mirian Olga Hoffmann, 58 anos, a pessoa por trás da câmera fotográfica.

“Mas sei que a denúncia foi feita pelo diretor da escola (Instituto de Educação Assis Brasil) Marco Antônio. Provavelmente alguns estudantes falaram aos pais que havia uma mulher fotografando. Talvez outros pais tenham ficado sabendo e reclamaram com o diretor do colégio", cogita Mirian, aposentada da Secretaria da Fazenda do Estado.

Uma estranha visita
Em fevereiro passado, alguns dias depois de os alunos terem percebido que eram fotografados, o interfone do apartamento de Mirian tocou: era uma escrivã de polícia.

A mulher dizia que estava ali para cumprir uma ordem judicial e necessitava subir para falar com ela.

Ao abrir a porta, Mirian percebeu, surpresa, que a escrivã não estava sozinha: vinha com dois policiais homens, um deles apresentou a ela um mandado de busca e apreensão de objetos da residência. O motivo: denúncias de suspeita de pedofilia.

"Os policiais me disseram que me esperavam chegar da rua ao apartamento há algum tempo, e que, se eu demorasse mais um pouco, iriam arrombá-lo", contou Mirian.

Miriam precisou sentar no sofá para se refazer da situação, que considerou absurda.

Hipertensa, ela teve de ser medicada.

"Eu expliquei a à escrivã e aos policiais que não era nada daquilo (pedofilia), que eu era fotógrafa amadora. Eles foram compreensivos, mesmo assim estavam ali para cumprir o mandado. E foram em frente. Confiscaram três câmeras fotográficas e a CPU do meu computador".

Um dos policiais entrou no quarto da filha da moradora e começou a revistá-lo.

Perícia atrasada
As câmeras foram devolvidas pela polícia no mesmo dia, depois que a inspeção na delegacia constatou que não continham imagens que indicassem pornografia infantil. Não havia evidência de pedofilia, apenas fotos normais, frutos de tentativas da aprendiz de fotografia Mirian: mais luz, menos luz, close, desfoque de fundo, essas coisas.

Havia crianças nas imagens?

Sim.

Estudantes jogando vôlei...

Uma das fotos do pátio da escola Assis Brasil:
apenas tentativa de efeito com sombra
A CPU do computador da ex-servidora estadual, porém, permanece retida para perícia policial. Está em Porto Alegre e não há prazo seguro para que seja devolvida a sua proprietária.

A delegada responsável pelo caso, Márcia Chiviacowsky, diz que o departamento responsável por perícias na capital está sobrecarregado. Enquanto isso, Mirian vem utilizando outra CPU, que precisou adquirir para continuar a trabalhar.

Perturbação do sossego
Daniela da Silveira Vidal é a advogada que dá assistência à Mirian no caso. Ela conta que não houve nenhuma acusação contra sua cliente, mas tão só uma investigação. “Como houve uma denúncia dos pais ao diretor do Assis Brasil, este teve de pedir uma investigação ou poderia ser acusado de omissão", explica Daniela.

A advogada acrescenta porém que, como a suspeita de "pedofilia" não se confirmou, a delegada Márcia, da Proteção à Criança e ao Adolescente, enquadrou o caso como “perturbação do sossego”.

Injusta e ridícula
Mesmo sendo este um delito banal, ainda assim Mirian considera inadequado classificá-lo assim, já que tirar fotografias não é crime. “Perturbação do sossego, até agora, só do meu”, reclama.

Ela se diz indignada com a situação e considera a suspeita inicial como "injusta e ridícula".

Acrescenta: “A ação da escola foi equivocada. O diretor poderia ter atravessado a rua e vindo falar comigo. Veria que não era nada demais. Mas preferiu fazer logo a denúncia. Pior, mesmo que o caso tenha sido esclarecido a esta altura, o diretor da escola sequer telefonou para me pedir desculpas", lamenta Mirian, que se considera vítima de um tipo de paranoia social.

A aposentada pretende buscar reparação moral. “Vou ingressar com processo judicial contra os pais, requerendo que se retratem, pois eu sofri e sofro muito com o que aconteceu. Mas só o farei depois que meu computador voltar de Porto Alegre, que é quando finalmente terei a tranquilidade de saber que fui ‘totalmente absolvida’".

Como Mirian se sente hoje?

“Eu me sinto julgada, embora não tenha cometido crime algum. Tenho medo de sair à rua, dos outros me apontarem. Ainda estou muito abalada".

Mirian adotou a fotografia como hobby em 2009, poucos anos depois de se aposentar. Foi um modo dela combater uma depressão momentânea pela qual passava (ela publica seu trabalho em um blog pessoal http://mirianhoffmann.blogspot.com.br/).

Pouca conversa
Marco Antônio, diretor do Assis Brasil, ouvido pelo Amigos, não quis conversar muito com a reportagem. Seco, disse: "Os pais dos alunos me procuraram e fiz a denúncia. Agora o caso está nas mãos da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. Estão investigando", falou. Nenhuma palavra de consideração à Mirian.

Daniela, advogada da ex-servidora, e a delegada Márcia dizem que o caso só será encerrado de vez quando o computador de Mirian for periciado. O problema é que o setor de perícia em Porto Alegre está abarrotado de computadores para perícia - explica a delegada.

Pelotas não possui departamento que realize perícias nestes casos, todos os computadores recolhidos seguem obrigatoriamente para a capital. Uma vez lá, permanecem por um período de um ano até retornarem aos seus donos.

Até o dia em que isso ocorrer, Mirian diz que não terá plena paz.

17 comentários:

José CS Vidal disse...

Histeria. Nada mais.
O fato não ocorreu dentro dos muros do colégio.
Mas... uma histeria confortável, que faz as pessoas se sentirem ao dia com os fatos. Afinal a TV mostra pedofilias de todos os tipos, desde a Europa até a Ásia, passando pelos EUA. Assim, com denúncias fantasiosas, as pessoas se sentem "no mundo".

Anônimo disse...

É isso aí dona Olga, lhe trataram como bandida, enquanto isso o Battisti vem a pelotas dar palestra como herói, é uma total inversão de valores.
Espero que a sra. consiga uma merecida indenização por danos morais.

Diego Cunha disse...

Dou início ao meu comentário elogiando o título da matéria, eis que se trata de pura "paranoia social".
Como advogado e fotógrafo amador me sinto reflexamente ofendido pelos delitos imputados à Mirian.
A polícia não deixa de ser responsável, pois enquanto há inúmeras ocorrências de furto e roubo consumados, preocupa-se em apurar denúncias vazias, desacompanhadas de qualquer indício de materialidade delituosa. A conclusão que chego é de que um caso de pedofilia poderia levar a instituição POLÍCIA às mídias, promovendo assim a sua imagem - já tão maculada -, ao contrário da apuração de crimes tão banais quanto o roubo e o furto.
Deixo aqui minha indignação com este caso e presto minha solidariedade à Dona Mirian, verdadeira vítima deste caso.

Anônimo disse...

Enquanto "fuçam" seu computador, os bandidos, traficantes, pedófilos, os amigos do rei vão ficar soltos...

Anônimo disse...

Aos que estão criticando a denúncia do diretor da escola e a Policia deixo uma pergunta no ar para reflexão...E SE? Teríamos como ter esta certeza sem o trabalho policial? na minha opinião o diretor fez o que tinha que fazer. Mas sei que minha opinião não será publicada aqui por ir em direção contrária a da matéria...

Anônimo disse...

Se a cada dez denúncias de pedofilia nove foram infundadas e uma for válida ainda assim estar´valendo a pena o trabalho da policia, quem é Pai sabe bem disso! Parabens ao Diretor da escola e a policia!

Anônimo disse...

Não faz sentido suspeitar de pedofilia: uma mulher na janela com sua câmera não dá direito a isso. É pura paranoia, com danos à vítima moradora. Pedofilia tem lugar em casa geralmente e dentro da família. Bom ficar atento ao tiozinho que traz balas demais à sobrinha.

Luis Felipe C.D. disse...

Imaginem se fosse homem...
Outro dia levei meus sobrinhos à chamada Praça Modelo; estava acompanhado de minha namorada, mas em certo momento fui brincar de esconde-esconde com as crianças desacompanhado.
Não consegui brincar por mais de 10 minutos, tamanha era a cara de espanto e desaprovação de outros adultos que estavam no local.

Sempre brinquei com meus sobrinhos e sobrinhas, mas atualmente isso tem se tornado difícil a céu aberto, pois os olhares e comentários para mim são cada vez mais grosseiros e antipáticos.

É triste, mas a paranoia está tomando conta das pessoas.

Adeni Renato disse...

Me parece um tanto temerário acusar uma pessoa de pedófila por tirar fotografia de alunos de uma escola. Pelo que se sabe através da imprensa, sempre o pedófilo aborda as vítimas, com "convites", "presentes" ou outro "chamariz". Pelo relatado esta senhora nunca teve nenhuma atitude semelhante. Então foi paranóia simples e desesperada ! Aliás, avisem o Diego e o Giannechini para não fotografarem crianças ou adolescentes pois correm o risco de serem "acusados" de pedófilos.

Anônimo disse...

Duas perguntas óbvias...

- Poderia o diretor ter atravessado a rua e falado diretamente com a fotografa?

- Tratando-se de uma escola, não poderia a fotografa ter atravessado a rua e comunicado ao diretor que tirava fotos sem malicia e que as publicaria em seu blog?

Pura pananóia? Para cada ação uma reação diferente.

Anônimo disse...

Meu comentário é direcionado à pessoa anônima, a qual faz o questionamento "SE realmente fosse confirmado".
Meu caro, o que leva a perícia a fazer um mandato de busca e apreensão sem ao menos fazer uma investigação mais aprofundada, minunciosa?? Sou uma pessoa próxima a Dona Mirian, portanto posso garantir que não há nenhum tipo de investigação por parte da perícia. Basta conhece-la, consulta-la e saberá o que se passa. A Dona Mirian expoe seustrabalhos fotográficos em alguns eventos na cidade, é funcionária pública aposentada, seu modo de vida esclarece quaisquer dúvidas. Bem, provavelmente se Eu fosse um perito poderia efetuar um levantamento e concluir que não há nada de errado com isso.
Além do mais, prezado senhor(a), pelo seu ponto de vista, qualquer conversa informal, um passo mal dado, pode levar a uma acusação desse tipo, correto? O simples fato de ser amigo de um jovem poderia me levar a uma acusação, por parte de terceiros!! Será que esse "excesso de computadores investigados" não são frutos de péssimas investigações?

Pessoas tem o direito de se sentirem desprotegidas: A perícia não tem o direito de ser incompetente e amadora.

Diogo

Anônimo disse...

Não da para acreditar o que estão fazendo com minha colega e amiga Mirian.A demora da pericia esta impedindo o trabalho dela,sei que será absolvida dessa palhaçada.E com certeza a advogada vai entrar com ação de danos.Trabalhamos anos juntas na Secretaria da Fazenda Estadual e não existe nada que desabone a conduta de Mirian.Ela sempre amou fotografar e depois que se aposentou se dedicou a esse trabalho. Vamos acompanhar o desfecho e publicar para que toda sociedade saiba da tamanha injustiça.

Su disse...

Eu me questiono e me revolto com certas atitudes das pessoas... Será que o mundo esta tão mudado que hoje ninguém conhece ninguém nem mesmo uma pessoa que há anos mora neste mesmo local, neste mesmo prédio, nesta mesma rua, em frente ao colégio. O que o diretor quis com isto? Entrar na mídia? Não consigo imaginar que estando em frente ao prédio ele (diretor) uma pessoa não se dignasse a perguntar, questionar, alguém, vizinhos, ao sindico do prédio sobre esta pessoa da qual ele suspeita. Hoje não podemos mais parar na janela da nossa própria casa, tirar fotos das poucas coisas lindas que o mundo ainda tem, estamos perdendo até este direito? Me pego a pensar... As maquinas fotográficas estão nas mãos de muitas pessoas e se fotografarmos..., (na foto pode sair imagens de pessoas ) corremos o risco de sermos denunciados como pedófilos?

Anônimo disse...

Tudo passa por investigação para então as providencias policiais e juridicas serem tomadas. Como é um caso que chamaria atenção, se fosse verdadeiro, toda ação policial. Essa sra tem que acionar o estado e no judiciario o ressarcimento do dissabor de ser confundido com um ser doente.

Endrigo Sedrez disse...

Parabens para a matéria, muitu boa e so mostra como nós(sociedade) somos burros ao em vez de nos preocu par mos com roubos escandolos com politicos, reitores e tantas outras coisas, não tendem a preocur com coisas pequenas.
As fotos sao maravilhosas, lindas, perfeitas, não falo isso como sobrinho mas sim como apreciador de uma boa arte, o diretor da instituiçao ao menos deveria ter prestado algum esclarecimento, mas tudo bem.
Volto a dizer paraens a matéria, fotos e tia Mirian bola pra frente e muitas fotos....

Anônimo disse...

É lamentável o ponto a que a sociedade chegou! Caso digno de ser registrado e discutido, visto que é reflexo de um trabalho mal desenvolvido, mal planejado e, portanto, irresponsável por parte da polícia. Além disso, é inadmissível que o sr. diretor ou a própria polícia não tenha feito uma investigação informal com os vizinhos da Mirian antes de tomar estas atitudes extremistas.
Digo que foi irresponsável porque agora percebe-se que ela está sofrendo consequências psicológicas e emocionais por causa do acontecido, enquanto os acusadores estão de braços cruzados, só esperando o circo pegar fogo.

Esperemos o desenrolar da história, e torçamos para que a justiça seja feita, afinal, não é só o direito à arte que está em questão, mas o direito à própria privacidade domiciliar.

Anônimo disse...

Que essa "paranóia" não sirva de desculpa para deixar impunes os autores desta barbaridade. Conheço a Míriam a muitos anos, sei que esta acusação não tem fundamento. Que tipo de gente causa tanta dor a uma pessoa inocente, depois vai pra casa e consegue dormir?
Cleber - 21/06/2012