Surgimento: O Amigos foi criado no dia 4 de Abril de 2008.
Nossos objetivos: Publicar a verdade, fiscalizar o poder público, exercer o espírito crítico, valorizar o mérito e investigar soluções para a cidade.
Outros objetivos: Fazer jornalismo de verdade. Ou seja, fazer o oposto do que faz, com raras exceções, a imprensa "tradicional" de Pelotas. Queremos o contrário dessa turma chapa-branca que há décadas defende governos e poderosos, um pessoal que não deseja que a cidade melhore para todos e evolua. Se eles não querem enfrentar os temas essenciais da cidade e dos pelotenses, nós queremos.
Somos: Otimistas na ação e céticos na inteligência. Temperamos tudo com entretenimento e humor - senão ninguém aguentaria. Nós abominamos a hipocrisia, abominamos esse mundo de mentirinha dos provincianos colunistas sociais (símbolo maior do arcaísmo de certos nichos). Abominamos esse pessoal que gosta de viver fora da realidade, como fez Eva Braun, a amante de Hitler, até o último momento.
Meta maior - Para nós, Pelotas pode e deve avançar em termos econômicos e sociais, mas, para isso, terá de desatar um nó que a paralisa há décadas. Esse nó, para nós, é cultural. Precisamos de uma revolução cultural. Ou seja, de uma mudança de mentalidade e atitude, no rumo da modernidade e do profissionalismo nas relações. É o que procuramos fazer, por exemplo, na área das Comunicações.
SURGIMENTO DO AMIGOS
Rubens Filho
Editor
Retornei a Pelotas em fevereiro de 2008, depois de 22 anos vivendo longe, os últimos 16 deles em Brasília, sempre trabalhando na profissão que escolhi – Jornalismo. Na bagagem, eu trazia um projeto, antigo anseio na verdade: criar um novo jornal em Pelotas. Eu queria que fosse um veículo independente, moderno – o oposto, na forma e no conteúdo, ao velho perfil conservador da imprensa nativa. Um jornal que realizasse, sem concessões, os três princípios elementares do jornalismo: perseguir a verdade com fidelidade canina, fiscalizar o poder público e exercitar o espírito crítico.
Não foram poucos os “urubus” que me sopraram nos ouvidos que o projeto do blog seria inviável em Pelotas, por causa do conservadorismo e das ligações muito estreitas entre imprensa, anunciantes e Poder Público. Para reforçar seus prognósticos sombrios, diziam-me, por exemplo, que não por acaso o prefeito atual da cidade, Fetter Jr. (PP), é um dos proprietários do mais antigo jornal da cidade. A esses, eu respondia com um sorriso - e otimismo.
Sem dominar muito bem a internet e a plataforma técnica oferecida pela empresa Blogger, criei o blog em 4 de Abril de 2008. Dei-lhe um nome que para mim traduzia o espírito do projeto – amigosdepelotas.com
Ao contrário do que alguns imaginam, a escolha do nome do blog não teve qualquer referência, ao menos não conscientemente, no jornal criado pelo médico francês Jean-Paul Marat, L'Ami du Peuple (O Amigo do Povo), porta-voz da revolução francesa, embora alguns dos conceitos fundamentais da “República” não tenham chegado a Pelotas, como o reconhecimento incondicional do valor do mérito sobre os laços de sangue.
Criado o blog, logo publiquei o primeiro post, breve relato do meu espanto com as matilhas de cães abandonados nas ruas da cidade, vagueando em meio aos pedestres, como, aliás, ocorria na Paris pré-revolucionária, onde parisienses e cachorros disputavam os brioches possíveis em ruas imundas, enquanto Maria Antonieta e Luís XVI comiam caviar em saraus no Palácio de Versalhes.
Pouco a pouco fui registrando outras perplexidades, pequenos comentários – e críticas, algo com que Pelotas sempre teve imensa dificuldade, por causa do nosso histórico narcisismo, como provam as infindáveis homenagens e troféus que nos concedemos uns aos outros, com largo destaque nas colunas sociais.
Além da crítica direta ao comportamento de alguns setores da sociedade pelotense, investi forte nos posts de humor, ironizando condutas de alguns de meus conterrâneos.
No começo, tudo era muito caótico. Não havia um desenho gráfico personalizado, como hoje; não havia então uma linha editorial claramente definida, apenas a disposão natural de registrar, sem tréguas e em tom satírico, o “outro lado de Pelotas”, aspectos em geral não enfocados pela imprensa local.
Data dessa fase, por exemplo, uma série de posts com a foto em close de um cavalo sorrindo e comentários irônicos sobre uma revista da prefeitura descrevendo uma Pelotas de conto de fadas, “inaugurada na gestão do prefeito Fetter Jr”. Pelo equino sorriso, eu tentava mostrar a que ponto chegara o rastro de otimismo causado pela divulgação da revista – mera obra de ficção à Poliana. Nessa época, minha fonte de inspiração era o jornal Pasquim, expoente da criatividade, insubmissão e atrevimento da imprensa alternativa brasileira nos anos 70.
Logo instalei dois contadores de visitas ao blog. Um deles, on-line, permitia-me saber quantos leitores nos acompanhavam ao mesmo tempo. Eu me animava quando havia duas pessoas on-line, eu próprio e um misterioso visitante. Mas então o “colega” sumia, eu voltava a ficar só. Vezes sem conta eu me senti a caminho do hospício, postando coisas que ninguém lia. Mas, de repente, havia três visitantes on-line. E então quatro e oito e dezesseis. E – então – um deles deixou um comentário a um post. A partir daí, os relatórios da Google passaram a mostrar regularidade e evolução constantes no número de visitas, e mergulhei no trabalho com toda fé.
Por causa de outro “milagre”, logo também eu não estava mais só a caminho do Pinel. Pessoas que eu nunca tinha visto na vida passaram a me enviar e-mails, oferecendo-se para colaborar, inicialmente, com textos e charges. Aceitei sem pestanejar.
Pouco a pouco essas pessoas foram introduzindo oxigênio puro no blog, rajadas de ânimo e multiplicidade nas visões, tornando-se essenciais para fortalecer e arejar os conteúdos. Meus colaboradores escreviam bem. Melhor, pensavam bem. Exalavam sensibilidade, anseio por “ter voz” – e compartilhavam comigo da indignação com certa apatia do jornalismo local e da administração pública da cidade.
Além da chegada dos colaboradores que se tornaram regulares, o blog passou a receber contribuições eventuais de outros profissionais. Enquanto a equipe regular do blog ampliava-se, a frequência de visitantes seguia em escalada crescente, exclusivamente pela propaganda boca-a-boca, já que nunca anunciamos o espaço. Na verdade, aquela oferta de colaboração nunca cessou. Algumas pessoas interromperam sua participação, outras chegaram e o espaço permanece de pé, atualmente, com 12 integrantes. Diga-se que apenas um dos integrantes do grupo é jornalista - eu. Os demais são formados em outras áreas do conhecimento, o que foi essencial para a pluralidade qualificada dos enfoques.
Constantemente os próprios leitores colaboram com o blog, enviando não só material jornalístico, mas também produções literárias e artísticas – crônicas, contos, poesias etc. Foi assim, por exemplo, no período da enchente em Pelotas e região, no começo de 2009, quando enviaram depoimentos e fotografias de zonas alagadas. Um halo de boas energias se formou em torno do Amigos, ao ponto da iniciativa espontânea da criação, por um leitor, de uma comunidade do blog no orkut. Por todas essas iniciativas – dos membros regulares da equipe, dos colaboradores eventuais e dos leitores - sou imensamente grato.
Contrariando as previsões pessimistas que ouvi no começo do trabalho, em 12 de agosto de 2009 – 16 meses e oito dias depois do surgimento do blog, o amigosdepelotas.com alcançou a marca de 1 milhão de visitas (média de 62,5 mil visitas mensais), confirmando-se como nova alternativa de comunicação em Pelotas.
Depois daquela marca, a visitação subiu de patamar, passando para atuais cerca de 100 mil acessos mensais.
Além disso, um mês depois, em 12 de setembro de 2009, o Amigos foi escolhido, em votação espontânea de internautas, um dos três melhores blogs de Variedades do Brasil em 2009, no Prêmio Nacional Top Blog, entre 70 mil blogs inscritos. E um dos 105 blogs brasileiros mais visitados daquele universo. A cerimônia de premiação ocorreu na Universidade Paulista (Unip), em São Paulo, onde tive a satisfação de estar presente e onde os últimos ecos do pessimismo se apagaram por completo.
A meu ver, o êxito do blog Amigos de Pelotas até esta data se deve a três fatores principais. O primeiro foi o fato de termos inaugurado na cidade a notícia impressa em tempo real. No nono ano do Século XXI, 14 anos após o surgimento da internet no Brasil, Pelotas lia, nos dois jornais da cidade, notícias de "ontem."
Quando o blog apareceu, o jornal mais antigo apenas reproduzia na web sua versão em papel. O outro não publica na internet. Estávamos sozinhos em um nicho novo, publicando notícias na íntegra a todo instante, madrugada até, acompanhadas de artigos opinativos, análises críticas e conteúdos envi-ados pelos internautas.
Acredito que os outros dois fatores centrais de êxito foram: 1) A publicação de matérias com denúncias de problemas no Poder Público, casos que, a não ser por raras exceções, não eram veiculados na imprensa pelotense, ao menos não com a profundidade e análise necessárias. 2) O investimento no exercício crítico, prática incomum nos veículos locais.
A certa altura, por exemplo, comecei a ouvir histórias de processos contra a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) no Tribunal de Contas da União, além de investigações em curso na Procuradoria da República contra a universidade. Todo mundo falava abertamente sobre os casos em rodas de conversa no Café Aquários, mas ninguém os publicava. Fiz o que minha profissão exige. Procurei o Judiciário e o Ministério Público e trouxe à luz aqueles assuntos no blog. Pela primeira vez, um veículo de informação na cidade registrava em profundidade, em matérias extensas, os problemas judiciais da UFPel. Não por acaso, nesse momento, a visitação ao blog teve um grande impulso.
De repente, o pelotense percebeu que possuía ao alcance gratuito do clique do computador, em tempo real, em casa ou no trabalho, um jornal eletrônico que noticiava e criticava sem reservas condutas públicas e autoridades, sem maquiar fatos e sem esconder o nome dos envolvidos, mesmo que fossem pessoas influentes. Por incrível que pareça, Pelotas não estava acostumada ao jornalismo nessas bases, comum em cidades civilizadas no Brasil e do mundo, e a primeira reação foi o “choque”, algo que provavelmente tenha se tornado o quarto fator de interesse pelo blog, por ter despertado a curiosidade.
No caso da cobertura dos assuntos judiciais da UFPel, é justo reconhecer, por exemplo, que foi graças ao Amigos de Pelotas que alguns problemas daquela tradicional instituição finalmente vieram à tona – inclusive em rede nacional.
No começo foi difícil, ninguém mais cobria os casos, só o blog. Mas então a TV Nativa (Record), publicou matéria em rede estadual. Informado por nós, logo o premiado jornalista gaúcho Lucio Vaz, do Correio Braziliense, publicou três reportagens sobre pontos que havíamos abordado. O mesmo se deu com o jornal Folha de S. Paulo, que veiculou os casos em versão papel e na internet, como o Correio Braziliense, depois que o blog o havia feito.
A repercussão das matérias sobre a UFPel em escala nacional foi importante, pois provou que nós, uma equipe de um blog de uma cidade do “interior” do sul do sul do país, estávamos no caminho certo. Foi uma demonstração também do poder da internet e das inúmeras possibilidades que se abrem na área das comunicações, de valor inestimável para a afirmação dos valores democráticos da sociedade e, no caso, dos pelotenses. Por experiência própria, confirmei o que os intelectuais dizem sobre a internet: que ela realizou na prática o sonho anarquista, democratizando o acesso à informação e provocando uma revolução na mídia em todo o mundo, pondo em xeque, sobretudo, os jornais impressos.
Não pense que o êxito do blog até aqui tem sido fácil. Como disse acima, quando iniciei o trabalho, algumas pessoas me diziam que um espaço como o Amigos, disposto a fazer jornalismo como se deve, não teria chance numa cidade conservadora. Sempre suspeitei disso, como atestam os bons resultados até aqui, embora reconheça que as vozes pessimistas têm sua dose de razão.
Mesmo que a cidade revele sinais de modernidade em vários nichos, os signos da “velha Pelotas” comodista e acostumada a temer o mérito ainda são fortes e, em boa parte, produzem reações a tudo que é novo, sobretudo ao que ameaça os esquemas antigos de poder.
O jornalista Luiz Lanzetta, pelotense que mora em Brasília, tem uma explicação interessante para o receio da imprensa tradicional e de parte dos pelotenses com o exercício do Jornalismo verdadeiro. Diz que em geral temos resistência à crítica, por causa da insuportável fatalidade de conviver com a realidade. Segundo ele, alguns continuariam a olhar para trás, sonhando com milagres históricos (recriação do Banco Pelotense, Metade Sul, Petróleo na Lagoa dos Patos...), em vez de buscar soluções para problemas atuais e concretos.
Pelotas, bem como o Rio Grande do Sul, tem a tradição de produzir ótimos jornalistas. Há muitos exemplos. O fato é que quase todos os que pretendiam exercer seu ofício em plenitude se foram embora da cidade.
Quando deixei Pelotas, em 1986, o mercado era fechado, os salários, baixos, e as chances de fazer um jornalismo aguerrido eram praticamente nulas. Cansei de ouvir histórias de jornalistas demitidos por fazer a coisa certa. Por incrível que pareça, 23 anos depois, o quadro não mudou muito. Contudo, esse cenário opressivo dá sinais de que um reordenamento nas relações é possível – ao menos para quem se proponha a tentar.
Até outro dia, o antigo e seleto grupo que comandava a comunicação pelotense decidia qual informação deveria ou não chegar até nós. E, a não ser por honrosas exceções individuais, sabemos bem a "qualidade" do que nos era (é) oferecido. Na verdade, aquele grupo ia mais longe, decidindo quem poderia ou não ser jornalista por essas bandas, o que explica a baixa reputação de boa parte dos profissionais locais, em detrimento da valorização dos chamados colunistas sociais.
Se o profissional sério ousasse exercer seu ofício como deve, os donos da mídia local se reuniam em torno de uma costela gorda e selavam a sorte do sujeito. Ou o pobre se enquadrava ou acabava obrigado a deixar a cidade para exercer sua profissão. Muitos preferiram pegar a estrada no passado, para o bem de suas carreiras. Como nos tempos do faroeste, não havia lugar para a convivência dos opostos, a cidade era pequena demais para "os dois lados".
Felizmente, porém, não é mais assim, graças, sobretudo, à revolução tecnológica, mas também à renovação de certas mentalidades, inclusive de alguns anunciantes, que começam a atentar para a importância de veicular publicidade em espaços que possuam leitores com massa crítica e que gozem de credibilidade.
Com a chegada da internet, aquele antigo poder provincial de censurar "más notícias", prática que tanto mal fez às consciências, dando margem a protecionismos corporativos que por conveniência encobriam a verdade e inibiam a livre iniciativa, acabou. Grande parte dos temas proibidos começa a emergir da base dos pelegos, onde por décadas a fio estiveram escondidos, através de blogs, sites, twitters, uma nova realidade plena de benefícios à cidadania e à cultura dos pelotenses.
Essa renovação poderia ser mais rápida? Penso que sim. Eu me pergunto, por exemplo, por que uma cidade com a tradição cultural e intelectual que possuímos, que deu escritores importantes, artistas plásticos, escultores, pintores, juristas de renome, gente para cinema, teatro e tevê, uma cidade que teve um banco e intensa atividade cultural e educação pública de qualidade até 25 anos atrás, e que fica próxima a Porto Alegre e a Buenos Aires, ainda possui uma imprensa incapaz de transcender o medo de fazer um jornalismo com J maiúsculo.
Para mim, é inaceitável que, mesmo depois da ditadura militar, grande parte da mídia local continue a ter dificuldades de cobrir os temas de frente, debatendo as questões com maturidade, abertamente, sem temer reações.
Nesse quadro, pode-se imaginar as dificuldades de fazer vingar um projeto como o do Amigos. No meu caso (e por certo dos meus colaboradores), no entanto, não havia alternativa. Sem disposição para me incorporar ao velho esquema tradicional, tratei de inventar meu emprego. Por outro lado, se ainda há dificuldades culturais a transpor para consolidar o blog como produto comercial gerador de empregos e renda, a boa aceitação do blog me anima.
De vez em quando me param na rua, gente jovem, mais velha. Dizem-me que estavam fartos da manipulação das notícias e que estão “viciados” no blog, que havia uma saturação com o protecionismo das autoridades e de alguns segmentos.
Embora tenhamos longo caminho a percorrer em termos comerciais, o blog possui número suficiente de anúncios para que continuemos sonhando com voos mais altos. A presença dos atuais anunciantes e dos leitores que nos visitam nos impulsionam a perseguir permanentemente melhorias para corresponder às expectativas da cidadania. Nosso desafio é não envelhecer, mantermo-nos sempre em movimento e fiéis aos princípios que nortearam a criação desse espaço.
Gosto de ver Pelotas com os olhos da modernidade, sobretudo nas relações. Recuso a ideia de que a realidade deve se manter congelada. Para a vida valer a pena, é necessário que nos abramos para superar limites e vencer preconceitos. Do contrário cai-se num tipo de loucura, descrita por profissionais de Saúde, de tentar ajustar a realidade às próprias fantasias. Quando renegamos o movimento do pensamento, além de nos matricularmos num hospício a céu aberto, a vida enfeia, as possibilidades das pessoas e da sociedade empobrecem junto com o espírito.
Gostaria de agradecer aos milhares de leitores que interagem conosco e nos incentivam. Leitores que, com sua presença, provam aos que anunciam que vale a pena estar no blog. Eu poderia dizer muitas coisas mais, mas não quero abusar da paciência dos que chegaram até este ponto. A aventura, no bom sentido, continua.
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El Dorado vive de medo
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